sexta-feira, dezembro 27, 2013

como um trem





tem aquela sensação de que o ano novo não seja tão novo e que tudo vai ficar do jeito de sempre. tem aquela esperança de que algo mude no planeta. tem a manhã em que você acorda e acredita que tudo pode dar certo. tem um aperto no peito quando você pensa em coisas ruins que podem acontecer com as pessoas mais queridas. tem uma alegria genuína quando você sabe que vai encontrar alguém que te faz tanta falta. tem uma tristeza latente quando você vê a desumanidade cravejada todo dia na sua cara. tem aquele medo de pensar que você pode ser feliz de verdade e de que isso não seja verdade. tem uma  frase que você lê ou um poema que te fazem ganhar o dia. tem um sonho escondido debaixo do travesseiro. tem a vida que está batendo na sua porta mas você não deixa entrar. tem uns olhos e um sorriso que você nunca esquece. tem a cerveja que você toma com os amigos. tem a música que você ouve e o vento na janela. tem aquela vontade de que o ano novo seja verdadeiramente lindo como um trem que se movimenta tranquilo e furioso sobre os velhos trilhos.

sábado, dezembro 21, 2013

desenho: carcarah

de noite veio um bêbado
andando no meio da rua escura e chuvosa
trombou numa árvore enfeitada de luzes de natal
ficou olhando aquele pisca-pisca
e imaginou na sua garrafa uísque bom quando era pinga ruim

pensou que tivesse em outro país
começou a cantar em inglês uma velha canção
viu neve onde havia chuva fina
um cão perdido de rua era sua rena
adormeceu sorrindo
e de manhã já era natal

sexta-feira, dezembro 13, 2013

nem que seja por um breve momento

arte: ricardo ferrari
dei de ser melancólica perto do natal
e eu que fugia disso terrivelmente
me vejo postando músicas e poemas para amigos
como se uma árvore de natal inteira
tivesse atravessado minha garganta
eu que odeio papai noel e shoppings
me vejo com um sentimento contaminado
e impróprio
mas querendo imensamente
que todos os meus amigos e minha família
sejam imensamente inundados
nem que seja por um breve momento
de uma alegria incomensurável
como se uma uma dose gigante de morfina
tivesse se espalhado fortemente
em seus corações

(embora republicado, continua valendo)

terça-feira, novembro 26, 2013

enquanto dorme



                                                               arte: rafael godoy                                                       


enquanto dorme
um homem se atira do oitavo andar do prédio ao lado
um cão perdido procura abrigo
dois carros capotam na estrada
e alguns pardais tomam banho na água suja

enquanto dorme
a chuva cai e estende suas mão úmidas
nas ruas e no rosto das pessoas
e minha juventude escorre
pelos bares sujos da cidade

enquanto dorme
me deito ao seu lado
e olho para o seu rosto calmo e sereno
calmo e sereno

sábado, novembro 09, 2013

você nem sabe


você nem sabe que gosto de capuccino com creme
depois pitar um cigarro olhando a tarde
nem que grito e choro quando meu time joga
nem de quando me levanto de madrugada para ver a noite ir embora
e depois fechar a persiana para dormir de novo com o sol lá fora
não sabe que gosto da noite da lua
do vento que sopra do outro lado da cidade
nem que gosto da cidade e das montanhas
não sabe que gosto de conversar sobre o planeta e as pessoas
e da música do clube da esquina
nem que gosto de tomar cerveja com velhos amigos
e saber que vale a pena
dos gatos que ficam por aqui e sempre me observam
nem sabe do poema que fiz quando olhei para os seus olhos
e que joguei fora- vômito saindo da garganta
não sabe que seu cheiro está em meu corpo
como ferroada de marimbondo bravo
não sabe que depois de ontem
me dissolvi como açúcar no café quente
e ainda estou aqui ao lado do telefone

( publicado no livro: Maria Clara: Universos Femininos)

sábado, novembro 02, 2013

por ali


(para o vu que se foi em 10/06/2009)

caminhei por ali onde um amigo dos mais queridos
acabava de ser enterrado e o céu estava nublado
um vento frio entrava nas frestas da roupa

fiquei olhando aquele lugar cheio de árvores e um lago quase azul
e olhei os nomes de quem já estava debaixo da terra úmida
e pensei em cada nome que li e nas pessoas que poderiam ter sido

olhei a terra mexida e cheia de flores em cima do cimento
e sabia que ele estava ali com o corpo frio
e não queria pensar nele debaixo da terra

me lembrei de quando viajamos
das cervejas que tomamos e das músicas que cantamos
dos lugares e das pessoas
de como era bom estar do seu lado mesmo em silêncio
nos risos cúmplices e nos momentos de raiva
de como implicava comigo quando eu derrubava alguma coisa
ou trocava as palavras de um jeito distraído
e quando ele fazia palhaçadas e ria de si mesmo e do mundo

me lembrei de sua família perdida sem sua presença
dos filhos sem pai e do fogão a lenha

me lembrei de uma vida inteira com sua voz sua música sua dança
de um dia quando saímos de manhã e voltamos só de madrugada
e das longas conversas sobre a vida essa mesma vida que ele perdeu
e de deus de sentidos de indagações de confidências de perplexidades

caminhei por ali e pensei que ele estava debaixo da terra
e não queria pensar nisso
já era noite e os faróis dos carros brilhavam
no céu nublado somente uma estrela
e na terra um cheiro de flores

(publicado em junho de 2009)

quarta-feira, outubro 23, 2013

tá difícil, cara. quando esse sol mais quente que sua cama não deixa você dormir. tá foda ficar pensando em um tanto de coisa que você não queria. e ficar puta com tanta gente falando merda e sabendo que ninguém vai te entender. tá foda saber que ninguém percebe que você só quer poder ficar com a cabeça quase vazia, sem pensar nessa vida com tanta desgraça alheia. que você só quer poder olhar as coisas de um jeito mais otimista, mas quando você sai de casa  vê um cachorro todo ferido tentando achar algo pra comer ou beber, que mesmo assim abana o rabo quando você passa e te segue pra nenhum lugar. que na esquina tem um  bêbado de ontem dizendo que o mundo já acabou só que ninguém percebeu. você quer ser otimista e sente que não pode sonhar mais. e sente que não acredita mais em quase nada. aí faz força pra seguir e pensar que a vida é essa coisa assim meio esquisita, meio sacana, mas que tem muitas coisas boas. que você pode ainda esperar a chuva e deixar que ela limpe um pouco a cidade e a sua alma. que tem amigos. que tem um amor que talvez possa tá te esperando em algum lugar.

quinta-feira, outubro 17, 2013

depois de toda essa discussão sobre biografia autorizada ou não, chego à conclusão de que muita gente simplesmente esquece o que esses caras fizeram, esquece sua arte, seu talento e a enorme contribuição que deram pro país. sou contra biografia autorizada, censura prévia, acho que perde a força, fica capenga, unilateral, mas, mesmo com a antipatia e desconfiança que tenho pela paula lavigne , acho que caras como chico, caetano, gil, milton e outros têm o direito de se posicionarem . isso decepciona muitos, isso me decepciona, mas não pode, definitivamente, fazer que toda arte e história deles sejam jogadas no lixo, que eles sejam fuzilados no paredão da ignorância. os velhos gagás(como muitos os chamam) são parte de uma história que não podemos esquecer nunca. e vou continuar a ouvir e gostar de chico até morrer e quando ele diz que é contra alguma coisa, no mínimo, temos que pensar sobre.

sábado, outubro 12, 2013

você acorda e pensa num modo mais fácil de não pensar que o dia poderá ser uma merda. você acorda e não quer esse frio invadindo o seu corpo nem esse sol feio nesse céu indefinido de quase chuva. olha pro lado, faz um café, dá uma ajeitada na casa, põe água e comida pros gatos, come uma fruta. fuma o primeiro cigarro. ouve a primeira música. liga o computador e não tem nada de muito novo. quando percebe, tá na hora do almoço e nenhuma fome, mas você tem que comer. você tem que sair e fazer as coisas na rua. tem que trabalhar, fazer sacolão, conversar um pouco com o vizinho. tem que saber da mãe, dos irmãos, dos filhos. tem que se inteirar das notícias do mundo e pensar que o mundo é isso. não se incomodar com a evangélica moralista pseudoambientalistahonesta que se une aos ruralistas, nem com o ódio da mídia conservadora e muito menos com o assalto que acabou de acontecer na esquina. tem que esquecer da briga com sua amiga, da desesperança na educação, da noite que escapou por entre os dedos. você olha e vê a vida quase como uma repetição. você pensa e quase não vê sentido nessa coisa toda. aí, de repente, pensa nos amigos distantes, na cerveja gelada, naquele dia na praia, lê alguns versos de seu poeta preferido, vê a planta na área que cresceu muito da noite pro dia e o seu gato esticado com a barriga pra cima tentando driblar o tédio. lembra dos filhos e de como são bacanas e bonitos. você entra no banho e a água e o sabonete parecem limpar sua alma. o dia pode não ser mais uma merda. e ainda tem a noite.

(republicado com pequenas alterações)

segunda-feira, outubro 07, 2013

anjo caído

arte: rafael godoy

Ele entrou e disse que estava frio lá fora. Bebeu o café quase frio e acendeu um cigarro. Disse que aquele dia tinha visto algumas pessoas estranhas que o seguiam. Jurou que não era paranoia. Perguntou sobre os gatos e se esticou no sofá. Falou sobre o possível apocalipse mas disse que não acreditava em anjos. Elogiou a música que tocava, acho que Coltrane, e falou que nesse momento vinha uma paz quase inevitável ou que a vida tinha algum sentido. Pediu pra eu soltar os cabelos e sentir o cheiro do xampu que gostava. E ainda, com voz baixa e com os braços fortes, me puxou para o seu lado e me deu um beijo longo e forte. Sua boca tinha gosto de menta, provavelmente, alguma bala ou chiclete para tirar o gosto do cigarro. Estava intensamente sensual, com os cabelos despenteados e cheiro de chuva. Dormi em seus braços e quando acordei já tinha ido embora. Ele era assim, aparecia em qualquer hora, dizia coisas sem sentido ou ficava preso em seu silêncio. Eu entendia esse homem de poucas palavras e gestos definitivos. E ele sabia disso. Talvez fosse ele um anjo caído por acaso em minha vida.

( republicado, a falta de inspiração continua )





sexta-feira, outubro 04, 2013

quando a escuridão




a luciano fraga
arte: carcarah

quando a escuridão parece mais escura que é
e você está no meio do mar em um pequeno bote
vê uma mancha preta maior que a escuridão
pensa que não haverá mais jeito
desta vez não tem saída
então olha para cima e não vê estrelas
olha para baixo as águas são geladas e negras
você ali no pequeno bote
no meio daquele oceano imenso e gelado
sem tempo sem brisa sem cor sem som
e aparecem uns olhos esverdeados
que brilham e não são estrelas
são maiores que a escuridão e o frio
e você se agarra a eles a seu brilho
você acorda em sua cama e uns olhos verdes escuros
mais escuros que aquelas águas te olham
então você dorme e quase sonha quase se esquece
e quase pensa que está salvo

terça-feira, setembro 24, 2013

constatação 2

arte: rafael godoy


 queria não ter esses olhos e essa pele
nem  essa alma perdida que se comove com o mundo



(ando mesmo sem inspiração, mas às vezes um texto antigo reflete o sentimento de agora)

sábado, setembro 21, 2013

lobos



 
 
 
 
quando lobos da cidade com seus olhos de neon
sobem solitários a ladeira fria do bairro
mesmo que não tenha lua e a noite seja de ventos
pensam em suas vidas na fumaça e no uísque que deixaram nos bares
nas mulheres que beijaram e juraram ser únicas
pensam que amanhã pode ser diferente mesmo sabendo que não
entram em casa e olham suas mulheres
dormindo amassadas e quase puras e os filhos no quarto ao lado

esses lobos viram anjos subitamente
vestem a camiseta branca e escovam os dentes
como se fossem limpar os restos do pecado
desejam bons sonhos em silêncio
se enroscam em suas mulheres sob o edredon macio

à noite se esquecem e voltam aos lugares perdidos
beijam mais mulheres e bebem mais uísque
marcam seu território com mãos, línguas e histórias inventadas
e a lua aparece azulada e tímida
esses lobos uivam e seus olhos são de neon 
 
 
(republicado)

sexta-feira, setembro 13, 2013

pode ser


 
 

 gravura em metal: rafael godoy



vem aqui e me abrace forte
pode até usar aquele perfume que te dei um dia
e me morder os lábios com força

pode contar as histórias que sei de cor
e cantar a música que um dia foi nossa
meus olhos vão brilhar como se fosse a primeira vez

diz que a lua nasceu hoje só pra nós dois
e que vai me cobrir quando esfriar de madrugada

se eu te der o meu amor intenso e quente como agora
talvez você fique aflito e saia
ou pode ser que goste
e ainda fique por algum tempo

não terei coragem de te dizer essas palavras
mas em algum lugar vão estar escondidas
sob o tapete nos lençóis
ou na poeira que sobe e sai pela janela

domingo, setembro 08, 2013

tava pensando por que não paro de fumar. sei que esse troço mata, causa um tanto de doença, blablablablablá. tem dia que nem fumo, fico com preguiça de sair pra comprar. aí pensei numa série de motivos pra não parar. além de gostar de fumar depois do café, olhando o fim de tarde, quando tô criando alguma coisa, quando tô ouvindo música, quando tô bebendo com amigos, quando fico nervosa com meu time ou discutindo com alguém, quando tô triste, alegre, ou nenhum dos dois. mas o que me faz não parar é que essa vida tá ficando chata demais, cheia de regras demais. as pessoas que não fumam ou grande parte delas olham pra gente como se tivéssemos alguma doença contagiosa, como se esse mundo fosse a coisa mais limpa do mundo, como se a fumaça dos carros, o estresse, a falta de humanidade, a falta de gentileza, o preconceito, a tortura, a miséria, a indiferença, o som alto de música tipo funksertanejouniversitárioeletrônica, a direita oportunista ou pastores evangélicos não fizessem mais mal que a porra de um cigarro, que eles são fodas porque não fumam e a gente é uma merda por acender um careta. e vou continuar fumando até que me provem que essa vida mereça que eu pare.

quinta-feira, agosto 22, 2013

entendo que poderia ser diferente mas não foi
não quero desculpas para mim ou para o que fiz
entendo que ficar em silêncio seria o melhor caminho
que engolir todos os desatinos que me disse seria mais fácil
e ficar quieta como muitas vezes fiquei me daria mais conforto
mas não foi o que aconteceu
cuspi maribondos e lagartos
soltei todos os demônios presos na alma
atravessei os rios e desertos mais gelados de mim
estradas áridas e intermináveis
senti o calor do inferno bem perto e não fugi
dessa vez não
então veio a noite e a solidão.
veio o vento e os sons inaudíveis do silêncio
e uma terrível sensação de paz.

quarta-feira, agosto 14, 2013

até ontem

arte: rafael godoy
vim como não quer nada
e entrei na noite como se dela tivesse nascido
até ontem não gostava das pessoas do dia
não gostava das cores, do calor
e de tudo que se fazia de dia


entrava na noite e nela me perdia
com os olhos fundos, a cara pálida
encontrava gente com essa mesma cara
às vezes muito maquiadas
e pareciam artistas de cinema mudo
olhava para elas como se soubesse o que faziam ali
escondidas no fundo dos bares ouvindo blues e jazz
o nariz e os olhos dançando

reconhecia quem era da noite
e quem estava ali vindo do dia
podia pensar que eram felizes
suas roupas brilhavam e brilhavam seus cabelos
falavam dos poetas góticos e dos impressionistas
dos beatniks e do cinema francês
conheciam um bom vinho e a pior cachaça
e pensavam que podiam mudar alguma coisa
neste mundo tão pobre
e mesmo nobres
comiam pão com mortadela.

eu vim com a noite e nela me escondia
e me encantava com a vida dessas pessoas
e fazia parte desse mundo escuro
quase escondido quase feliz

até ontem gostava desses seres
e talvez ainda seja um deles
mas hoje vi a luz do sol
e deixei que aquecesse minha cama fria
(republicado por absoluta falta de  inspiração)

domingo, agosto 11, 2013

sua presença




a meu pai






quando ele se foi deixou sua presença invisível 
uma máquina de escrever 
um relógio que sempre marcava a mesma hora 
uma lata de rapé pequena, palavras cruzadas 
um livro de camões que sabia de cor 
brinquedos de madeira, máscaras de monstros
e o tapete queimado de cigarro 

quando entrei no quarto 
o seu cheiro 
o som de seu riso e de sua sabedoria 
o abraço no ar que até hoje busco 

quando ele se foi 
tinha um bem-te-vi na janela 
e hoje também tem um 
me pego com o coração pequeno 
e sinto meu velho pai me abençoando

quinta-feira, agosto 08, 2013

amanheceram estrelas




arte: ricardo ferrari

essa noite não aconteceu
nem a seguinte

amanheceram estrelas
a cama azul
seu cheiro perdido nas fronhas
sua insensatez na pasta de dente sem tampa

ainda vejo sua sombra na porta
e os demônios que sempre te perseguiram

mas o dia está claro
e acho que posso pensar em outras coisas
que não sejam seus olhos me implorando
pra ficar

e juro queria que ficasse
mas o seu inferno não me cabe mais


(poema publicado mas muito alterado) 

terça-feira, julho 30, 2013

constatações 3 ou divagações de uma cinquentona


tá bom, você me disse que eu precisava sair de casa, respirar outros ares, ficar com outras pessoas.
mas não tô conseguindo, entende?
gosto de ficar aqui com meus gatos, minha música, meus filmes.
ontem até vi pânico na floresta 5.
porra, todo mundo morre de maneira mais cruel e no final  só os bandidos escapam e felizes.
aí você me pergunta: por que eu vejo filmes como esse tipo c? eu que gosto de filmes de arte e afins?
talvez algum tipo de superação ou punição subliminar, será? de noite até sonhei com algumas cenas.
gosto de fumar sem ter ninguém me enchendo o saco.
gosto de pendurar a roupa no varal e depois ficar olhando as cores perfumadas ventando na área.
gosto de poder ouvir as músicas que me fazem viajar pra qualquer lugar de mim ou do mundo.
gosto de não atender o telefone.
gosto de não ter horário pra comer.
gosto de não ir ao médico.
gosto de ler poemas fodas e textos fodas e descobrir uma porrada de coisas que mexem com a alma.
e passear pelo facebook mas nem sempre.
gosto de andar com roupa velha e rasgada.
gosto de voltar pra casa sempre.
gosto de tomar café olhando a tarde.
aí você me disse que era depressão mas não tô triste.
até danço e canto e brinco no sol com os gatos.
vejo amigos e gosto de ficar com eles e saber que estão por perto.
gosto de me desesperar pelo meu time e gritar quando ele ganha.
gosto de tomar uns porres e só falar merda.
gosto de beijar na boca e namorar de vez em quando.
e cozinhar quando tenho vontade.
gosto do frio e de dias cinzentos.
gosto de ficar com o pessoal lá de casa e muito.
mas ver minha mãe daquele jeito me dói demais e às vezes não consigo e sempre choro
e sempre me pergunto por que que ela ainda não quer ir embora.
gosto de saber que meus filhos estão bem.
mas não consigo lidar com a desumanidade nunca. 
gosto de saber que ainda posso fazer o que gosto.

 
 

segunda-feira, julho 22, 2013

saturno





 


saturno na lente mágica
as retinas prenhas
os anéis que tu me deste
nesta noite clara
não eram de vidro
mas quebraram a monotonia
e me tornaram por um segundo
a noiva do universo

segunda-feira, julho 15, 2013

estamos mais velhos, mano

(hoje é o  aniversário dele)

estamos mais velhos, mano
quando saímos daquela porta
não sabemos se vamos voltar
 os passos são mais lentos
você disse que a música era pra mim
mas minha negra cabeleira
não se mantém sem tinta escura
seus cabelos são brancos e poucos
mas você é um menino grande
e o seu sorriso se espalha na sala
em que brincamos tanto na infância

estamos mais velhos, mano
mas quando estamos juntos nos tornamos meninos
e rimos das mesmas coisas
e brigamos e choramos juntos
e nos embebedamos pelas esquinas
dividimos o mesmo cigarro a poesia
 "a noite a lua e até solidão"

estamos mais velhos, mano
e gosto de pensar que envelhecemos juntos
               e gosto de pensar que você está por perto e sempre

sexta-feira, julho 12, 2013

Na primeira manhã

Na primeira manhã em que abriu a janela para rua, o som intragável de uma música eletrônica fez vibrar seus dois ouvidos. Desde esse dia então pensou que melhor seria ficar trancado até as tripas se dissolverem e saírem por suas orelhas e poros para não ter que escutar aquele som. Um som que devia ficar preso no inferno atormentando as almas pecadoras da Terra. Quando se lembrou da frase de Sartre "o inferno são os outros' riu para si mesmo. O verdadeiro inferno é essa música, concluiu. Pensou em um livro que tinha lido há muitos anos" Os demônios descem do Norte" e era quase profético ao narrar a saga dos evangélicos que vinham da América do Norte e se espalhavam pelo mundo. Eram pensamentos vagos. O Tinhoso devia estar feliz, o capeta e seu tridente em riste. Quis abrir a janela, quis pensar que estava errado, que tinha exagerado em suas percepções. Não pôde. Ao som torturante da música eletrônica, como um marca-passo estúpido e insistente, no meio de tantos que dançavam, havia um ar de triunfo, quase satânico e um sorriso escondido em uns olhos vermelhos. O inferno era agora, finalmente o diabo tinha vencido.

domingo, junho 23, 2013

tô com preguiça disso tudo. desse papo todo contra o governo e todos os políticos de maneira geral, de marina silva e joaquim barbosa. do não reconhecimento dos avanços que o governo lula e dilma conseguiram. do não mensalão tucano. tô com preguiça desses evangélicos autointitulados de donos da moral e bons costumes. tô com preguiça desse discurso vazio e sem embasamento. da rede globo. da polícia. dos manisfestantes. de todas as pecs. a classe média acordou? o povão já tá acordado todos os dias às cinco da matina pra pegar o ônibus e trabalhar. gostei das manifestações. mostraram que o povo está no limite. os administradores não podem mais brincar e zombar como zombam do povo. mas tô com preguiça do que vem por aí. de onde isso vai parar. e um certo medo

sábado, junho 15, 2013

e quando vier o dia

e quando vier o dia
os homens estarão feridos
as crianças tristes e perdidas
e estupefatas as mulheres

quando vier o dia
ficarão pássaros com asas queimadas
e o grito insano da cidade

estaremos sedados
a noite e o país em pedaços
melhor fechar as janelas
e não ouvir

mas é mais forte o grito das gentes
mais forte que todo o gás que faz chorar
e  que todas as balas de borracha que ferem

queremos não ver queremos não ouvir
mas a alma não sossega
e chora por esse país  por essa gente
e torce por esse país  e por essa gente

e alguns dirão que não há guerra
melhor fechar as janelas


                                                      (texto republicado e muitíssimo alterado)

segunda-feira, junho 10, 2013

a cidade é outra

visto de cinza a cidade
as ruas têm prédios demais
e eles não se cansam de criar outros a cada dia
as britadeiras perfuram minha cabeça
 escondem as sirenes e buzinas
os gritos dos gatos o canto dos bêbados
as construções apagam a lua  espantam o vento
 silenciam os poetas
as montanhas são dilaceradas dinamite e cimento
a cidade que era minha
vai embora de mim
espalha pó nos cabelos embaça meus olhos
e deixa um gosto estranho na saliva
a cidade é outra
eu sou outra
mas ainda posso ver através da fumaça do cigarro
um sol pálido que começa a nascer

quinta-feira, junho 06, 2013

A noite de Heitor

De algum lado da cidade vinha um frio estranho para essa época do ano. Heitor abriu a janela, a pequena janela do seu quarto fedido e imundo. Colocou o rosto para fora e sentiu um vento meio de lado, que não parecia pertencer àquele lugar. Olhou para cima, para baixo, para os lados e viu que não tinha ninguém nas outras janelas, só ouviu um ruído, quase como um sopro. Lembrou-se da noite que tinha tido com uma mulher. Uma noite quente, extremamente, quente. Os lençóis estavam fora do colchão, e havia restos de uísque nos copos, pontas de cigarro nos cinzeiros e um cheiro de quase morte. No chão, além da calça jogada, um batom sem a tampa, um papel de chocolate. Entrou no chuveiro e deixou que a água quente inundasse seu corpo, sua alma. O vapor condensava-se no espelho da pia. Heitor passou a toalha no espelho e o que viu o assustou. Era um outro homem o que estava ali: mais velho, mais cansado, mais triste. A última imagem que tinha de si não era essa. Pegou o aparelho de barbear, ensaboou o rosto e fez a barba. Entrou debaixo do chuveiro e ficou algum tempo se limpando com o sabonete de erva-doce que alguém havia lhe dado. Enxugou-se com uma toalha limpa. Ao abrir a porta da sala, notou um bilhete debaixo da porta. Era dela, de Valeska, a mulher da noite. Uma lufada de ar gelado rompeu pela porta e o envolveu. Ficou ali parado, olhando o vazio do corredor.

quinta-feira, maio 30, 2013

quero um amigo só hoje que tome cerveja comigo e diga que nem tudo está perdido. que atravesse a tarde falando besteiras e rindo de coisas bobas. que me ajude a passar pro outro lado da rua e tenha um isqueiro pra acender meu cigarro e não se importe com a fumaça. só hoje quero esse amigo que nesse dia cinza e frio me empreste um casaco que esquente minha alma. só hoje quero um amigo que diga aqueles versos que fazem a diferença e ouça aquela música que só eu gosto. que quando meu time fizer gol grite mais alto que eu e exploda de alegria. que entenda o que eu digo sem eu ter que fazer força. hoje quero esse amigo que anda escondido em algum lugar da cidade, que não sabe que quero ele perto, bem perto.

segunda-feira, maio 27, 2013

como é que a gente fica assim nesse intervalo entre a segunda e o resto dos dias? como que a gente ultrapassa esse abismo mortal que insiste em apertar o peito e deixa o coração batendo esquisito? tá bom, você pode ouvir a música certa e observar os gatos brincando com a sombra da persiana. você pode pensar em não ir ao trabalho e tomar cerveja durante o dia ou ver um filme tipo b e ler todos os textos que não leu durante a outra semana ou simplesmente tomar dois dormonids e dormir durante dois dias e meio. mas aí se lembra que a geladeira está vazia e que tem uma porrada de coisas pra fazer. que o telefone toca e estão te oferecendo uma viagem incrível e que ainda não viu o amigo que chegou de longe. você se lembra que a sua cabeça não é a mesma de quanto você podia fazer isso e ficar sem culpa. e inevitavelmente chega à conclusão de que você está velha e cansada e que a vida te venceu pelo menos nessa segunda-feira.
                                                                                (republicado)

sexta-feira, maio 24, 2013

CÓDIGO DA VIDA

SE LEONARDO DÁ VINTE
PEDRO DÁ DEZ
MIGUEL DÁ CINCO
VOCÊ NÃO DÁ NADA!

QUE TIPO DE HOMEM
PENSA QUE É?
VAI DAR COM OS BURROS N'ÁGUA!
MISERÁVEL, FILHO DA PUTA!

quarta-feira, maio 22, 2013

mil noites e um abismo

 
 
arte: rafael godoy
você precisaria de mil noites pra começar a me entender
pra sentir a lua e o gosto da cerveja descendo como um rio doce na garganta

você precisaria de mil dedos pra me tocar
e talvez nem alcançasse o ponto mais primitivo do prazer

você precisaria de atravessar estradas curvas e escuras
pra saber a cor do vento e a intensidade dos pássaros noturnos 

você precisaria ficar à beira de mil abismos
pra entender que nossos abismos são os mais profundos e quase inatingíveis

você precisaria ouvir  as canções mais viscerais
e saber que um poema pode mudar sua cabeça previsível
 
você precisaria  saber que quando estamos com  amigos de verdade
podem aparecer estrelas cadentes nos olhos

cara, mas você não sabe nada
não sabe nada

sábado, maio 18, 2013

estamos atrasados

                              arte: rafael godoy
  
estamos atrasados, meu amor
o rio já correu
o sol já se foi
e o dia ainda não foi embora

perdemos a noite escura
mais negra que os olhos do diabo
perdemos a hora de dançar com as árvores
com seus galhos como as mãos da morte

o vento está morno e fraco
as flores não têm cheiro
perdemos o trem
que atravessa a cidade
não vamos a lugar nenhum
o tempo já passou

ficamos aqui de mãos dadas
como duas crianças perdidas
as ruas são longas
e estreitas as esquinas

estamos atrasados, meu amor
o mundo esmaga os nossos sonhos
lentamente, irreversivelmente








sábado, maio 11, 2013

o que vou deixar para os meus filhos?




arte: ricardo ferrari

o que vou deixar para meus filhos?
há mães que deixam fotos organizadas em álbuns.
há mães que deixam uma conta na poupança para o futuro deles.
há mães que dão exemplo de uma vida serena e comportada.

o que vou deixar para os meus filhos?
algumas fotos coladas sem ordem , alguns cedês,
algumas histórias esquisitas, tristes ou engraçadas,
alguns livros que provavelmente não vão ler,
uma infância linda em um tempo de quintais,
alguma tristeza de não os ter amado como precisavam.

o que vou deixar para meus filhos?
um olhar que está nos olhos deles,
um jeito tímido de sorrir,
uma foto minha na parede,
e a certeza de que são a melhor coisa que deixei.  

(republicado)

terça-feira, maio 07, 2013

segunda-feira, maio 06, 2013

quando vim ontem pela rua

                                                                   arte: rafael godoy

quando vim ontem pela rua vi um cachorro morto. fiquei olhando para ele imaginando como teria sido a sua vida de cachorro. então lembrei da minha vida e vi que não era muito diferente.me vi morta com a cabeça no passeio e o resto do corpo na rua. imaginei outro cachorro me cheirando com o focinho frio e o bafo quente. vi que ele saiu correndo, como quem corre do diabo.


(republicado)

quinta-feira, abril 25, 2013





Hoje é o aniversário de minha mãe. 88 anos. E faz  mais de dois anos que ela está  se alimentando através de sonda, respirando pela máquina, sem falar, sem nunca mais falar. No entanto, seus olhos brilham e nos dizem coisas que não sabemos o que é, mas sentimos forte, muito forte.
Mamãe continua imóvel numa cama e é aniversário dela. Não sei se sabe que hoje é seu dia. Talvez ela pense na família, na grande família em volta da mesa ou espalhada pela casa, na música, nos risos, nos abraços, no amor e na solidão de cada um de seus filhos. Seus oito filhos. Talvez pense no seu companheiro que já se foi há muito tempo. Talvez sua festa seja em outro lugar. Um lugar que não podemos alcançar. Hoje é aniversário de minha mãe e não sei comemorar. Não consigo comemorar. Só sei dizer do amor que tenho por ela pra sempre.

terça-feira, abril 23, 2013

vem com aquele papo que todo político não presta com aquele discurso da globo que os eua são mais importantes que essa gente que passa  todo dia em sua rua às seis da matina pra pegar o ônibus e pegar a vida por mais um dia. eles dizem que os eua são mais importantes que todos países da américa latina e todos os países do mundo e podem insistir que o vencedor da eleição na venezuela  não é legítimo porque o candidato não é o que eles querem. os eua podem inventar uma guerra e destruir um país porque eles precisam do petróleo e matam e dizimam e torturam em nome da democracia. ensinam a guerra e vendem armas e vendem sua ideologia de terror e os culpados são dois jovens e todos os árabes muçulmanos latinos brancos amarelos negros vermelhos que ousem desafiá-los. você vem com esse papo que eles estão certos que a bomba que explode lá é mais importante que a fome na áfrica. que a o jeito que eles lidam com o resto do mundo é mais que justo. que eles não conseguem dormir mais sem pensar no inimigo que está á espreita e podem atacar a qualquer momento. que os eua são mais importantes que a noite que vem com estrelas que o vento que sopra em sua janela nessa manhã fria e clara de abril. você vem e eu queria que meu país fosse mais igual que em cada esquina tivesse mais livrarias e que todas as  pessoas pudessem ler e sentir a poesia que está escondida em cada beco em cada casa em cada ato de amor ou de solidão. que as pessoas pudessem tomar mais vinho mais uísque e pudessem fumar o seu cigarro sem grilhões. que as ruas tivessem mais teatros e cinemas e bares. que mainards jabores azevedos felicianos fossem espécies em extinção. que os poetas fossem ouvidos que houvesse mais bortolottos  kerouacs e leminsks.  que chico e os stones fossem eternos e que  essa música que toca pudesse trazer algum tipo de paz.

quarta-feira, abril 17, 2013

quero a noite




arte: rascunho de mulher/ rafael godoy


ainda que o corpo clame
sinto em mim um deserto morno
a luz que bate de manhã e me faz fechar a cortina
tenta entrar pela fresta de outra janela
os projetos em cima da escrivaninha me olham
os livros que não consegui ler empilhados
e bananas apodrecendo na fruteira
ontem dormi em outra cama
e ouvi : amor, quer café ou suco?
hoje ouço os carros e as pessoas indo pro trabalho
e sei que breve estarei lá misturada nas ruas e nas pessoas
as notícias mais terríveis a desumanidade
as atrocidades sem medida as tragédias
os deuses devem estar dormindo há séculos
esse sol me atordoa quero a noite
e a brisa que soprava do mar

domingo, abril 14, 2013

pássaro noturno

 
 
 
 
 
venho te dizer que não  preciso mais de seu sorriso claro
nem de seus olhos úmidos quando se despede
acordei antes do dia e vi alguns pássaros noturnos procurando  luz
quando a manhã chegou, desapareceram
descobri que sou um pássaro sem canto e sem asas
preciso ficar no escuro algum tempo
quando o inverno chegar talvez saia com o frio
e me esconda debaixo de blusas negras e quentes
não tem espaço pra você, meu amor
sua alegria não pode se perder em mim
nem sua juventude enroscar-se na minha pele gasta
sou um pássaro noturno e preciso do escuro
não mais de seu brilho nem  de sua beleza

sábado, abril 06, 2013

Ora direis





 

Havia 25 milhões de estrelas aquela noite. Foi o que consegui contar. Apertava meus olhos com força para ver se não estava imaginando coisas. Mas não adiantava. Elas se mexiam. Na minha visão míope pareciam bailarinas ensandecidas. Era como dançassem uma dança meio triste, meio azul. As estrelas falavam. O Bilac não saía de minha cabeça: " Ora direis ouvir estrelas, certo perdeste o senso"... E eu as ouvia sim, nitidamente, intimamente. E com medo de mim, fechei a janela. Mas pela fresta, ainda percebia um movimento silencioso daqueles olhos brilhantes, daqueles milhões de olhos brilhantes me olhando.

terça-feira, abril 02, 2013

lobos



 
 



quando lobos da cidade com seus olhos de neon
sobem solitários a ladeira fria do bairro
mesmo que não tenha lua e a noite seja de ventos
pensam em suas vidas na fumaça e no uísque que deixaram nos bares
nas mulheres que beijaram e juraram ser únicas
pensam que amanhã pode ser diferente mesmo sabendo que não
entram em casa e olham suas mulheres
dormindo amassadas e quase puras e os filhos no quarto ao lado

esses lobos viram anjos subitamente
vestem a camiseta branca e escovam os dentes
como se fossem limpar os restos do pecado
desejam bons sonhos em silêncio
se enroscam em suas mulheres sob o edredon macio

à noite se esquecem e voltam aos lugares perdidos
beijam mais mulheres e bebem mais uísque
marcam seu território com mãos, línguas e histórias inventadas
e a lua aparece azulada e tímida
esses lobos uivam e seus olhos são de neon 

(republicado)

sexta-feira, março 29, 2013

insônia




arte: rafael godoy

a noite inútil não terminava nunca
o sono vinha mas os olhos não fechavam
vi assombrações nos rodapés das paredes do quarto
espremidas cor de barro querendo sair
faziam sons estranhos e se moviam
criaturas horríveis desfiguradas

se cresse talvez rezasse
mas nada saía de mim
apenas o medo um frio medonho
uma imobilidade assustadora

os seres pareciam conversar
sei que alguns saíram
e deram voltas em minha casa
rodearam minha cama
nem meus gatos apareceram
se esconderam em algum armário
se acovardaram

mas finalmente chegou a manhã
fechei os olhos
dormi com a cortina aberta
o sol sobre mim

domingo, março 24, 2013

vejo-o fazendo café

                   arte: rafael godoy


trago a vida entalhada em contas papéis livros
lembro quando via sessão da tarde e a tarde não passava nunca
hoje as tardes passam e não vejo
a noite vem como o dia
a noite é a mesma
mesmo quando você vem e diz que me ama
então olho o homem que atravessa a rua
e está com flores na mão
o livro que li há dez anos
vai ser o mesmo se o ler hoje?
vejo-o fazendo café
e a minha angústia costurada em seu pijama
e a vontade desesperada de fugir


quinta-feira, março 21, 2013

um brinde à mediocridade

hoje brindo à mediocridade que insiste em permear minha vida. brindo sem bebida, sem alegria, sem orgulho, mas com uma puta melancolia e tédio. o que salva são os amigos, o que salva é a arte de cada um. essa vida tem hora que é foda. nos consome e some com os sonhos de maneira ardilosa, mesmo os mais rasos. sou professora sim. não sei se escolhi isso, mas até hoje tenho levado e pasmem, gosto disso. porém, há muito que não acredito na educação. há muito não acredito nesse sistema podre e furado, injusto, cruel em que não se investe de fato nos profissionais dessa área, nos alunos, nas escolas. muita coisa mudou. está mudando, mas meu tempo não permite que eu tenha alguma esperança. quantas greves já fiz e ainda faço? até quando terei que lutar por uma coisa que deveria ser valorizada pra caralho. saí da rede particular por opção. o sistema é terrível. não vale a pena expor todos os aspectos, acho que a maioria tem alguma noção. mas só quem está dentro de uma sala de aula é que sabe realmente o que é essa merda toda. os alunos são a melhor parte, podem acreditar. por que permaneço? por uma questão de sobrevivência mesmo. e talvez por não saber fazer outra coisa. então, brindemos, senhores e senhoras, à mediocridade da sobrevivência. pode ser que hoje quando for à escola, alguma coisa aconteça e eu pense diferente.