quarta-feira, setembro 21, 2016

sem ele

Tutuco, meu gato branco e velho morreu hoje. Em um canto que sempre gostava de ficar. Tinha quase 18 anos. Meu companheiro, personalidade única. Tantas lembranças. Tantos momentos de alegria, de amor, de contemplação. Olhava pra ele e vinha aquela paz, aquela calma. Ver seus movimentos, curtir suas manias, saber do que ele gostava e de quando precisava ficar só. Saber o que queria e entender seu comportamento e ele entender o meu. Sua companheira de tantos anos, Chiquinha, agora está só. Anda pela casa como se soubesse que perdeu parte dela. Assim como eu. Uma dor inevitável. Um choro silencioso, molhado e profundo. Tutuco era meu gato, um pouco da minha alma, a gente se parecia. Então, se houver anjos de gatos, que eles cuidem dele. Meu Tutuco, pra sempre em mim.

terça-feira, maio 17, 2016

tchau, baby

tchau, baby, foi a sua despedida
mas você tinha os olhos molhados
e um sorriso seco nos lábios
te olhei da janela
e não queria mais que você se fosse
pelo menos nesse momento
porque te achei bonito debaixo da chuva
e pensei em um filme noir
daqueles que só os franceses entendem
e não entendi porque te mandei embora
mas já era tarde pra nós - eu sabia
e gritei pra mim mesma
tchau, baby
não sei se chorei

sexta-feira, maio 06, 2016

assim

dri, ele me falou
saia dessa letargia
rompa a casca
me lembrei de basho
e o que sempre quis como epitáfio:
"casca oca
a cigarra
cantou-se toda"
pensei: foda-se mil vezes o mundo
e foda-se qualquer movimento
foda-se essa lua enorme e redonda
foda-se a a quinta, a sexta, foda-se a paixão
foda-se esse congresso e essa direita golpista
foda-se tudo
e recitei o verso de pessoa:
"à parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo"
os sonhos, sinto muito, márcio borges, envelheceram
pelo menos hoje
mas sei que estão ainda escondidos em algum abismo de mim
e foda-se se já morri em grande parte
me lembro também de ana cristina cesar:
"tenho ciúmes deste cigarro que você fuma
tão distraidamente"
e tem os amigos, os filhos, os babys
o cigarro que fumo e tem você que não fuma
e penso que a poesia pode salvar
mas nesse dia nem nisso acredito
e foda-se eu com esses pensamentos
amanhã pode ser diferente

quinta-feira, fevereiro 04, 2016

brilho

entre farpas e farrapos
na mais estranha noite de verão
ele apareceu e disse ter visto
estrelas cadentes
e no seu espanto e beleza 
percebi que era ele que brilhava

sexta-feira, janeiro 22, 2016

constatações

tá bom, você me disse que eu precisava sair de casa, respirar outros ares, ficar com outras pessoas.
mas não tô conseguindo, entende?
gosto de ficar aqui com meus gatos, minha música, meus filmes.
ontem até vi pânico na floresta 5.
porra, todo mundo morre de maneira mais cruel e no final  só os bandidos escapam e felizes.
aí você me pergunta: por que eu vejo filmes como esse tipo c? eu que gosto de filmes de arte e afins?
talvez algum tipo de superação ou punição subliminar, será? de noite até sonhei com algumas cenas.
gosto de fumar sem ter ninguém me enchendo o saco.
gosto de pendurar a roupa no varal e depois ficar olhando as cores perfumadas ventando na área.
gosto de poder ouvir as músicas que me fazem viajar pra qualquer lugar de mim ou do mundo.
gosto de não atender o telefone.
gosto de não ter horário pra comer.
gosto de não ir ao médico.
gosto de ler poemas fodas e textos fodas e descobrir uma porrada de coisas que mexem com a alma.
e passear pelo facebook mas nem sempre.
gosto de andar com roupa velha e rasgada.
gosto de voltar pra casa sempre.
gosto de tomar café olhando a tarde.
aí você me disse que era depressão mas não tô triste.
até danço e canto e brinco no sol com os gatos.
vejo amigos e gosto de ficar com eles e saber que estão por perto.
gosto de me desesperar pelo meu time e gritar quando ele ganha.
gosto de tomar uns porres e só falar merda.
gosto de beijar na boca e namorar de vez em quando.
e cozinhar quando tenho vontade.
gosto do frio e de dias cinzentos.
gosto de ficar com o pessoal lá de casa e muito.
gosto de saber que meus filhos estão bem.
mas não consigo lidar com a desumanidade nunca. 
gosto de saber que ainda posso fazer o que gosto.

sexta-feira, janeiro 15, 2016

não te amei logo de cara
levou exatamente quarenta e sete dias e uma noite
foi quando vi que seus olhos choraram 
quando te contei sobre as noites de chuva
em uma casa velha que eu morava 
foi quando te falei de um poema
sobre a solidão das pessoas nas noites de um bar
e você mordeu levemente os lábios
e me pediu mais uma dose de uísque
levou exatamente quarenta sete dias e uma noite
para eu ver que você era a pessoa que eu queria ao meu lado
quando chovesse ou quando o dia fosse claro
e te vejo agora como te vi aquela noite
e no rádio toca uma música
e você me chama pra ouvir
e talvez vamos dançar juntos mais uma vez

domingo, dezembro 06, 2015

ele disse que talvez voltasse aquela noite

ele deixou no sofá um papel de bombom
e uma taça vazia de vinho
ele deixou na casa o som dos passos que trouxe da rua
e a porta aberta do banheiro
ele deixou seu território marcado
e disse que talvez voltasse aquela noite
e me faria esquecer das sombras e dos abismos
que traria mais duas garrafas de vinho francês
ele disse que talvez voltasse aquela noite
com um livro de poemas que eu já tinha
ele não voltou aquela noite
mas um vento frio veio de algum lugar
e entrou sem timidez pela fresta de alguma janela

terça-feira, outubro 06, 2015

o cara que veio entregar pizza

arte: rafael godoy

o cara que veio entregar pizza olhou o filme que passava na tv
eu com a pizza na mão e ele olhando a tv
o cara me disse que a vida parecia aquele filme
que contava a história de um mundo sem futuro
a terra deserta vermelha só com mortos-vivos
o cara que veio entregar pizza me disse que teve um sonho
igual ao filme que passava
e ele olhava o filme e a pizza esfriava na minha mão
o cara que entregava pizza não quis o dinheiro
o seu olhar ficou triste
e ele disse que entendeu tudo
o cara que entregava pizza foi encontrado vagando
pelas ruas da cidade
o céu era vermelho e as pessoas
entravam nos shoppings com olhos sem vida

sexta-feira, setembro 04, 2015

constatação

                                                                 arte: rafael godoy

queria não ter esses olhos
essa pele
nem essa alma perdida 
que se comove com o mundo

terça-feira, junho 30, 2015


quando a noite veio me esmagar com suas mãos frias
quando não tive saída abri a porta da sala

e você entrou

seus olhos eram mais gelados
que o silêncio dos pássaros noturnos
mas suas mãos ágeis deixaram em mim
o gosto quente e claro das manhãs de inverno

segunda-feira, junho 29, 2015

tem uma inconfundível e inexplicável melancolia
quando é inverno e o dia é claro e frio
só isso que posso dizer agora
só isso que me faz querer ficar aqui parada
sentindo o vento gelado
e tentando entender a humanidade
ou a falta dela
é isso que talvez me faça querer a noite
e tomar o vinho que está guardado no armário da sala

quarta-feira, junho 24, 2015

até ontem

vim como quem não quer nada
e entrei na noite como se dela tivesse nascido
até ontem não gostava das pessoas do dia
não gostava das cores do calor
e de tudo que se fazia de dia

entrava na noite e nela me perdia
com os olhos fundos a cara pálida
encontrava gente com essa mesma cara
às vezes muito maquiadas
e pareciam artistas de cinema-mudo
olhava para elas como se soubesse o que faziam ali
escondidas no fundo dos bares ouvindo blues e jazz
o nariz e os olhos dançando

reconhecia quem era da noite
e quem estava ali vindo do dia
podia pensar que eram felizes
suas roupas brilhavam e brilhavam seus cabelos
falavam dos poetas góticos e dos impressionistas
dos beatniks e do cinema francês
conheciam um bom vinho e a pior cachaça
e pensavam que podiam mudar alguma coisa
neste mundo tão pobre
e mesmo nobres
comiam pão com mortadela

e eu vim com a noite e nela me escondia
e me encantava com a vida desse seres
e fazia parte desse mundo escuro
de pouca luz e gestos serenos

até ontem gostava deles
e posso ser um deles
mas hoje vi a luz do sol
e deixei que aquecesse minha cama fria

quarta-feira, junho 10, 2015

o caso do camaleão


sempre odiei reunião de condomínio e raramente participei de uma, a não ser quando fui síndica, porque não tinha jeito de escapulir. mas um dia, o rafa, meu primogênito, disse que tinha visto um rato passeando pelo apê. na época o prédio era habitado praticamente por senhores e senhoras mais ou menos idosos. fiquei intrigada e preocupada com aquilo e lá fui eu à reunião pra falar com o síndico e com os moradores, a fim de saber se eles também tinham visto algum roedor no edifício. minha casa era a mais movimentada e barulhenta de todas, com dois adolescentes, os amigos, os amigos dos amigos deles e os meus amigos. os anciãos achavam que minha casa era um ninho de perdição. um antro de drogados. não nos viam com bons olhos. mas mesmo assim resolvi enfrentá-los. o meu horror a ratos era maior e eu tinha que dar uma resposta pro rafa. pois bem. cheguei lá na cara dura e expus o fato. todos me olharam como se eu fosse um et e cochicharam entre si e, quase ao mesmo tempo, disseram: "não era rato, era camaleão!". pensei: "mas camaleão na zona urbana, no brasil?" e eles reforçaram: "você nunca viu camaleões nas paredes do prédio, nos corredores?" eu disse que não e respondi: "meu filho viu um rato!". eles afirmaram: "mas não é rato, é camaleão! o controle remoto de sua casa, por exemplo, pode ser um camaleão disfarçado!" "seu filho deve estar chupando drogas!" saí da reunião convicta de que eles estavam certos, abri a porta do apê, o rafa me olhando ansioso, e eu disse muito brava: "rafa, você tá chupando drogas?"

sexta-feira, abril 24, 2015

anjo caído


Ele entrou e disse que estava frio lá fora. Bebeu o café quase frio e acendeu um cigarro. Disse que aquele dia tinha visto algumas pessoas que o seguiam. Jurou que não era paranoia. Perguntou sobre os gatos e se esticou no sofá. Falou sobre o possível apocalipse, mas disse que não acreditava em anjos. Elogiou a música que tocava, acho que Coltrane, e falou que nesse momento vinha uma paz quase inevitável ou que a vida tinha algum sentido. Pediu pra eu soltar os cabelos pra sentir o cheiro do xampu. E ainda, com voz baixa e com os braços fortes, me puxou para o seu lado e me deu um longo beijo. Sua boca tinha gosto de menta, provavelmente, alguma bala para tirar o gosto do cigarro. Estava intensamente sensual, com os cabelos despenteados e cheiro de chuva. Dormi em seus braços e quando acordei já tinha ido embora. Ele era assim, aparecia em qualquer hora, dizia coisas sem sentido ou ficava preso em seu silêncio. Eu entendia esse homem de poucas palavras e gestos definitivos. E ele sabia disso. Talvez fosse ele um anjo caído por acaso em minha vida.


arte: rafael godoy

quinta-feira, abril 23, 2015

sabe aquela hora em que você começa a pensar mais. era assim. quando o dia anoitecia, vinha aquela angústia louca. ficava por um bons momentos vendo o pôr do sol, olhando a sombra do pássaro na luz quase morta da tarde. e cada vez mais queria que só tivesse a noite e o som das pessoas indo embora ou entrando nos botecos. e vinha aquela vontade de encher a cara e escrever tudo que tava lá dentro de sua cabeça. entrava em algum copo sujo e encontrava aquele filósofo bêbado de plantão que não falava coisa com coisa. e vinha aquele amigo que sempre tinha um problema pra contar. e vinha a solidão inevitável de sentir que não fazia parte de nada. e se via rindo com o amigo falando besteiras.  mas o que queria mesmo era tentar tirar de dentro de sua cabeça aquilo que o atormentava sempre que o dia estava indo embora. só queria fazer um verso que ninguém esquecesse. e quando amanhecia não lembrava de quase nada. encontrava alguns pedaços de papel amassado com frases soltas e palavras sem sentido. então só queria dormir e pensar que o mundo às vezes podia ser um bom lugar pra sonhar.

quarta-feira, abril 22, 2015

Pero Jaz


Pero Vaz, vazio de alma e rico de letras
Não entendia a nudez das índias
A beleza de nossas terras
Pensava ele ser o arauto do nosso esplendor
Dono da natureza escravo de seu rei

Pero Vaz Caminha caminhou
Por terras nunca dantes caminhadas
E naufragou no seu assombro
Mergulhou fundo no seu espanto

Mandou ao rei carta que dizia
Não compreender por que o sol
Estava na terra em pequenos pedaços de areia
Que o verde se encontrava também em minerais
Chamados esmeraldas
Que o vermelho do sangue
Derramado em seu caminho
Em lutas contra os imberbes primitivos
Concentrava-se em pedras chamadas rubis
Dizia ser as vergonhas das índias
Vergonhosas demais
E sem pelos ou roupas para cobri-las
Cobriu-as de pegajosos excrementos
Despejados de seus rins
Como também o fizeram todos os lusitanos
Que na terra estavam, sendo jesuítas ou ateus
E fertilizaram nosso solo com suas impurezas
E violaram o sagrado mistério de nossas mulheres

E ali nascia um novo povo
Crianças mamelucas mestiças mulatas
Com cabeças pequenas demais para pensar
Com o cheiro acre-podre de seus pais

E crescendo viram a terra que não lhes pertencia
Que jamais seria genuinamente sua
E deixaram entrar nobres, bárbaros e plebeus
Varões, eunucos, negros,
Brancos, amarelos,garanhões

E quanto mais gente se formava
Mais a terra lhes era tirada
E desde mil e quinhentos anos
A terra continua lhes sendo roubada

E mesmo que clamem os profetas
Mesmo que chorem os da natureza amantes
Mesmo que sequem todos os rios
Mesmo que acabem todas as matas
Mesmo que não exista mais fauna
Mesmo que morra mais e mais gente
A terra nunca lhes pertencerá

E Pero Vaz de Caminha
Na sua ignorante sabedoria
Jaz em sua terra zombando daquela gente

E no ano da graça de dois mil e tantos
Acharam em seu túmulo
Esmeraldas, ouro e rubis
Encontraram em seu túmulo
Uma pergaminho de brilhantes
E uma inscrição com tinta de pau-brasil
Com os dizeres amaldiçoados:
"Mesmo que se plante nesta terra
E aqui se plantando tudo dá
Mesmo que germinem todas as sementes
A esse povo não caberá nenhum quinhão"

E feliz jaz Pero Vaz em seu leito de morte
Coberto de todos os brilhantes
Sabendo que a sua praga vingará
E assim foi
E assim será
(poema feito de brincadeira, a partir de uma aula de literatura sobre a carta de Caminha aos alunos do ensino médio)

sábado, março 21, 2015

lançamento do meu livro: "Mil Noites e um Abismo"






Lançamento do primeiro livro solo de Adriana Godoy. 'Mil noites e um abismo' (Editora Crivo) reúne poemas da autora, já publicados em seu blog (driaguida.blogspot.com.br) e em seu perfil do Facebook. 
Adriana Godoy gosta da noite, dos bares, da lua, dos perdidos e, talvez, por isso, seus textos quase sempre remetem à noite e aos abismos interiores. 

Sobre a autora: 
Adriana Godoy é mineira, nasceu em Belo Horizonte onde sempre viveu. Formada em Letras pela UFMG, trabalha como professora e revisora.
Desde pequena escreve, mas foi a era dos blogs que tornou seus textos mais conhecidos. 
A autora participa de outros blogs e revistas literárias; alguns de seus poemas também foram publicados no livro 'Maria Clara: universos femininos', coletânea organizada por Hercília Fernandes, em 2010.

terça-feira, fevereiro 24, 2015

fragmento


                                                       arte: rafael godoy

                                         "minha juventude ficou perdida nas noites da cidade
                                         e nos olhos intensamente brilhantes dos meus filhos"

quinta-feira, janeiro 29, 2015

entre insônia e fantasmas
despejo na noite
o que não colhi do dia

domingo, janeiro 11, 2015

foi aquilo que me disse que me tirou do chão e me fez querer sair dali correndo, mesmo com tanto calor e com tanta gente em volta. foi só uma frase que me fez arrepender de ter saído e ter bebido tanta cerveja e vodka com o sol na cabeça à lô borges, mas não tinha trem azul, só você do meu lado. tava tudo bem, juro que tava gostando. a música tava boa, o lugar bom. eu podia fumar sem ninguém me olhar com cara de nojo. porque era aberto, sem toldo, só com aquelas árvores que podiam dar alguma sombra. eu podia te beijar sem ter medo de alguém ver porque isso não era importante naquele momento. eu podia lembrar de coisas que vivemos juntos há muito tempo e a gente rir feito criança. a conversa tava boa, lembranças de coisas e pessoas que tinham ficado no passado junto com você. mas aí tinha que falar aquela merda. não precisava, cara. mas você falou. e em uma fração de segundo nada daquilo ali fazia mais sentido.

domingo, janeiro 04, 2015

cenas de rua


no vago tom da noite
a árvore parada e morna
com seus galhos feito mãos inúteis
assombram os que passam distraídos
o passeio é um deserto esticado
 a rua com asfalto recente geme
quando carros deslizam loucamente
com suas buzinas ensurdecedoras

do outro lado da rua
um homem fuma solitariamente
não sorri, apenas olha a fumaça que sobe
a moça passa: "tem fogo"?
nesse momento o seu corpo é uma fogueira
a moça mostra o cigarro apagado e ergue a mão
"tem fogo?"- repete
ele todo é uma fogueira
a moça sorri com o cigarro apagado
o homem arde e olha a fumaça que sobe
a moça já virou a esquina

um cão atravessa a rua
as pessoas dormem com janelas fechadas
a luz vermelha e azul do carro de polícia
a sirene que berra
um bêbado solitário conversa com a noite
uma lua pálida no céu
o homem com um cigarro aceso entre os dedos
caminha lentamente para nenhum lugar

sábado, novembro 22, 2014

sempre fica um vazio







arte: rafael godoy

sempre fica um vazio
um vazio abissal
que nem todos os deuses anjos ou demônios
poderão te salvar

sábado, novembro 15, 2014

expurgo

arte: rafael godoy


entre bruxos e velas
vomito veneno e vísceras
ensandecida e crédula
no meu último ato místico
e me salvo sem pudor
de seus pecados

segunda-feira, novembro 10, 2014

vou te dar meu último verão




vou te dar meu último verão
todo o outono amarelo
e quando me alcançar
vai ver que sou o mais puro inverno
não dos trópicos
mas dos lugares mais frios da terra
terras da sibéria
não adianta me dizer para abrir as janelas
o sol me é estrangeiro
tenho em mim geleiras ancestrais
meu coração não bate
vacila descompassado
 selvas do universo me rondam
e mesmo assim você vai me recriar
e  me amar com tudo que sou
porque você
precisa de uma criatura só sua
mesmo inventada 
mesmo com essas sombras geladas


                                                                                                                           arte: rafael godoy


                                                                    

sábado, setembro 13, 2014

eu e meus gatos

enquanto escrevia ela deslizava em cima do teclado, e as letras foram aparecendo numa língua desconhecida que talvez só os gatos entendam. e ela queria chamar minha atenção de qualquer jeito. miava baixinho e me olhava com aqueles olhos verdes e infinitos. por um momento parei e fiquei observando essa gata que me acompanha há 14 anos. chiquinha é o nome dela e está presente em quase tudo que faço. ela sabe que vou chegar até mesmo antes de mim, me espera na porta junto com tutuco, meu gato velho e branco. ele talvez seja minha alma em forma de gato. fiquei pensando nessas coisas de todos os dias, nessas companhias tão presentes, no meu apartamento com pelos, nas cadeiras e sofás meio destruídos por causa deles, na ausência de alguns amigos que têm horror a pelos ou a gatos. fico pensando que eles não conhecem o mundo lá fora, que a realidade deles é essa mesma e mesmo que eu deixe a porta aberta, eles só saem até o corredor e voltam rápido. e parecem que gostam disso aqui. quando ficam na janela olham lá fora com alguma indiferença a não ser que algum inseto ou pássaro passeie por ali. aí o instinto é mais forte, a gata em posição de ataque, os pelos arrepiados, olhos paralisados e, se der, dá o bote. o velho gato branco se esconde diante de qualquer presença estranha, mesmo que seja uma formiga ou qualquer pessoa desconhecida. enquanto escrevo eles estão aqui ao meu lado, esperando alguma coisa, algum sinal. mas eles sabem que estou aqui e eu sei que eles estão por perto. a gente vai envelhecendo junto e a gente sabe que não vai durar muito.

domingo, agosto 31, 2014

camaleoa

O messianismo de Marina assusta. Sua inconstância agride. Seu discurso quase surrealista traz indignação. Sua ligação com o agronegócio, Itaú, Monsanto indica o caminho que fará. Seu fundamentalismo evangélico atormenta, aterroriza. Collor seria o salvador da pátria, o caçador de marajás. Marina se coloca como a escolhida do senhor, a que vem para redimir o Brasil de todos os males. O discurso é quase o mesmo de Collor. Ela apoia quem pode trazer benefícios a sua campanha e tal qual camaleão muda seu discurso ao sabor da melhor maré. E assim, alguns incautos e não tão incautos dizem que vão votar nela. Uns para extirpar o PT, num ódio quase atávico e irracional ao partido que, mesmo cometendo erros, proporcionou ao Brasil as maiores e mais fundamentais mudanças pra seu povo e para o mundo. Não come mais na mão do FMIi e nem limpa o chão de merda do Tio Sam. Tornou-se respeitado. Outros vão votar por acreditar que ela significa a mudança, a terceira via. Confesso, tenho muito receio de que as más profecias se concretizem e a camaleoa assuma o poder. Isso seria o retrocesso em todos os níveis, em todos. Estado de alerta geral: a luta agora será mais complexa e árdua. Fiquemos atentos.

quarta-feira, agosto 20, 2014

vale conferir

 
HELL-O-RIZONTE CAFE

nesse sábado agora, dia 23, eu e os outros meliantes na foto, mais joao guilherme dias - o mito sem facebook -, estaremos no Edith Café, lendo contos e poemas de Adriana Godoy, Wir Caetano, Fabrício Marques, Mario Alex Rosa e outros autores mineiros. na presente data, a partir da 11h, atenderemos pelo nome de mutável saralho band. cola lá pra ver a gente se divertindo. (foto de Joao Alves)
— com Diogo Fabrin e outras 2 pessoas.

sexta-feira, agosto 08, 2014

`a la mamma

vem logo que te faço um macarrão à la mamma
e ainda tem um vinho italiano que ganhei ontem
você pode dizer cobras e lagartos
que vou te ouvir quase calada
pode até dizer que estou sempre errada
que vou continuar querendo sua companhia
vem pra cá agora enquanto você não tem medo
do peso da minha ironia e dos meus olhos negros
o jantar será servido e pode até ter flores sobre a mesa
e o seu chinelo vai continuar no mesmo lugar
pode ser que eu saia antes de você chegar
mas isso já não terá a menor importância

terça-feira, agosto 05, 2014

quero a noite


 arte: rafael godoy


ainda que o corpo clame
sinto em mim um deserto morno
a luz que bate de manhã e me faz fechar a cortina
tenta entrar pelas frestas da outra janela
bem-te-vis gritam em desarmonia
cadê os pardais?
os projetos em cima da escrivaninha me olham
os livros que não consegui ler empilhados
e bananas apodrecendo na fruteira
ontem dormi em outra cama
e ouvi : amor, quer café ou suco?
hoje ouço os carros e as pessoas indo pro trabalho
e sei que breve estarei lá misturada nas ruas e nas pessoas
o genocídio na palestina e as enchentes
as atrocidades sem medida e as tragédias
os deuses devem estar dormindo há séculos
esse sol me atordoa quero a noite
e a brisa que soprava do mar

quinta-feira, julho 31, 2014

entre bougainvilleas e demônios

entre bougainvilleas e demônios

não que essa bougainvillea não me inspire
ou esse bem-te-vi solitário não me diga alguma coisa
existe entre mim e as coisas lá fora um abismo escuro
e a estrada não aponta o sol
esperava que você fosse ao inferno comigo
e me dissesse que nem tudo estava perdido
mas preferiu pegar o primeiro voo e bater suas asas aflitas
ir para um mundo onde não estou
pra que então o telefone depois
e dizer que sente a minha falta
cara os dias e noites são todos meus
os anjos e os demônios me pertencem
e sei que quando acordar eles vão estar lá
mas você não