quarta-feira, junho 24, 2015

até ontem

vim como quem não quer nada
e entrei na noite como se dela tivesse nascido
até ontem não gostava das pessoas do dia
não gostava das cores do calor
e de tudo que se fazia de dia

entrava na noite e nela me perdia
com os olhos fundos a cara pálida
encontrava gente com essa mesma cara
às vezes muito maquiadas
e pareciam artistas de cinema-mudo
olhava para elas como se soubesse o que faziam ali
escondidas no fundo dos bares ouvindo blues e jazz
o nariz e os olhos dançando

reconhecia quem era da noite
e quem estava ali vindo do dia
podia pensar que eram felizes
suas roupas brilhavam e brilhavam seus cabelos
falavam dos poetas góticos e dos impressionistas
dos beatniks e do cinema francês
conheciam um bom vinho e a pior cachaça
e pensavam que podiam mudar alguma coisa
neste mundo tão pobre
e mesmo nobres
comiam pão com mortadela

e eu vim com a noite e nela me escondia
e me encantava com a vida desse seres
e fazia parte desse mundo escuro
de pouca luz e gestos serenos

até ontem gostava deles
e posso ser um deles
mas hoje vi a luz do sol
e deixei que aquecesse minha cama fria

Um comentário:

Marcos Satoru Kawanami disse...

Adriana,

Tristes mas belos versos de profundo lirismo.

;*
Marcos