quarta-feira, maio 22, 2013

mil noites e um abismo

 
 
arte: rafael godoy
você precisaria de mil noites pra começar a me entender
pra sentir a lua e o gosto da cerveja descendo como um rio doce na garganta

você precisaria de mil dedos pra me tocar
e talvez nem alcançasse o ponto mais primitivo do prazer

você precisaria de atravessar estradas curvas e escuras
pra saber a cor do vento e a intensidade dos pássaros noturnos 

você precisaria ficar à beira de mil abismos
pra entender que nossos abismos são os mais profundos e quase inatingíveis

você precisaria ouvir  as canções mais viscerais
e saber que um poema pode mudar sua cabeça previsível
 
você precisaria  saber que quando estamos com  amigos de verdade
podem aparecer estrelas cadentes nos olhos

cara, mas você não sabe nada
não sabe nada

5 comentários:

Lara Amaral disse...

Há pessoas que nem essa intensidade de palavras adianta; um olhar mais firme já as derruba. Ótimo, Dri!

Beijo.

Marcos Satoru Kawanami disse...

Adriana,

Voltaire criou o personagem Pangloss, que ensinou o otimismo a Cândido; na sua novela, Voltaire satirizou os seus personagens, mas foi o autor que passou a vida triste em seu pessimismo, enquanto Cândido enxergava o bem em um mundo contraditório.

=D
Marcos

Tania regina Contreiras disse...


Alguém que precisaria ser outro alguém. Mas é dessa inconsciência que germina o poema, e isso salva.

Beijos,

Assis Freitas disse...

há um desconhecimento que incita



beijo

Grã disse...

Eu, não sei nada.
Hei de viver e morrer sem nada saber.
Mas penso que teria apenas uma noite para te conhecer e entender (ou não)
depois de lá tudo seria consequência e desdobramento, entende?
depois de lá,
você seria então um nome
e esse nome teria uma ocupação
e essa ocupação te daria algo (com uma mão)
e subtrairia algo (com as duas).
Passada a primeira noite,
você não seria mais um cheiro, um rosto, um olho,
seria um contexto...
seria mais?
Depois de lá, talvez eu lhe perdesse a essência
e, começando a te conhecer, eu soubesse menos de você.
Talvez eu te despisse e véu a véu, soubesse cada vez menos de seu céu.

Mas eu teria, aquela noite...
aquela noite prá te conhecer.