domingo, abril 05, 2009

fim de tarde

É claro que não foi do jeito que eu imaginava. Nem podia ser. Aquela hora em que as pessoas passam voltando para casa, a cidade gemendo buzinas e sirenes, a correria louca desatinada e ele ali , sentado , tomando um café e pensando no que vai me dizer. Então chego e trago um sorriso meio tímido, meio assustado. Ele acende um cigarro e joga a fumaça para o ar e me pergunta o que fazer. Falo sobre o trânsito, da casa velha que ficava perto do Arrudas e de contas a pagar.-Você já viu aquele filme? Ele responde que não e sussurra uma melodia dos Beatles: "I'm so tired".... Pergunto o que almoçou hoje e ele me ignora. Raspa a garganta e acende outro cigarro. Disparo na fala, insinuo ciúmes, imito a cena de um filme que vi algum dia. Peço um uísque com gelo. Ele diz que bebo demais, que é cedo pra começar. Não retruco, concordo em silêncio. Ele também pede um, sem gelo. Pego um embrulho, guardado na bolsa e entrego pra ele. Ele me olha com os olhos molhados e escuros como a noite que chega. Não consigo ficar parada e peço mais um uísque, vou ao banheiro, molho o rosto na água fria, as lágrimas são quentes . Percebo quando estou voltando que a mesa está vazia. Tem um guardanapo e um trecho de " I"m so tired" , escrito com tinta azul: " I wonder should I get up and fix myself a drink?" Ele volta. O copo na mão. "I'd give you everything I've got for a little peace of mind". Vamos de mãos dadas para casa.

(texto escrito há mais tempo)

34 comentários:

JC disse...

Conseguiste escrever neste poste o qe se passa em tantas e tantas famílias pelo mundo fora. A realidade nua e crua de tantos casais.
A vida é feita d encontros e desencontros.
Beijinhos

Anita Mendes disse...

"Tem um guardanapo e um trecho de " I"m so tired" , escrito com tinta azul: " I wonder should I get up and fix myself a drink?" Ele volta. O copo na mão"
esse trecho é simplismente perfeito!
drika, fico boba com suas prosas...Amo demais!
A simplicidade das coisas banais ,do dia dia são definitivamente o seu forte.
Lindo!
Beijos, Anita.

Guru Martins disse...

...éh, mineirinha!!!
a tempos que não vejo
uma net-escritora com
essa pegada, essa abstração
feminina tão ampla e sem
afetação tão característica
da feminilidade expressa em
outras poetisas. Em torno do
seu umbigo outros universos
giram com gravidade própria,
sem que a sua se sinta afetada,
aliás, parece que voce se beneficia disso. Isso te faz
nova e aprisionadora.
Fiquei um bom tempo por aqui...

bj

Renata disse...

E o que haveria no embrulho?...

(lindo)

Cosmunicando disse...

o Martins conseguiu escrever mais ou menos o que me sucitou esse teu texto, Adriana... bom demais!
bjos

Mirse disse...

Muito bom, Adriana!
Um dejá-vu que ninguém ousa e você ousou e ficou lindo. Os diálogos com respostas "In ENGLISH" enriqueceram mais ainda. O choque da água fria com as lágrimas quentes...enfim, BELÍSSIMO!
Parabéns, amuga!

Beijos

Mirse

Maria Clara Pimenta disse...

Excelente mini-conto. Parabéns, Adriana Godoy.

Venho lhe visitando, discretamente, há algum tempo. Por meio do blog da H.F. cheguei até o seu espaço que é fantástico.

Estou linkando o endereço de seu blog no Simplesmente Poesia para melhor acompanhar as suas escritas.

Abraços,
Maria Clara.

Lou disse...

Gosto de texto que nos remete a uma reflexão quase que "casualmente" e nos "atropela" com a vida real.

Beijos,
Lou

Adriana Godoy disse...

JC, Anita, Guru, Renata, Cosmunicando,Mirse, Maria Clara, Lou,

Cada comentário deixa uma vontade de escrever mais. Cada um é especial pra mim. Obrigada mesmo. Beijos.

Guru Martins disse...

...sobre "SAPIENCIA"
normalmente evito publicar
esse tipo de texto-e tenho outros-pois são muito chocantes
e nascem de observações e vivencias
não muito diferentes e penso que a arte tem o compromisso primeiro com a beleza, mas a muito custo resolvo publica-los...
E após isso, receber uma referencia de alguém da tua estatura, suaviza muito em mim,
o meu rigor e prevenção a respeiito de tocar em outro ambiente emocional dos nossos
bem vindo frequentadores.
Obrigado, querida, sua apreciação vale muito!!!

bj

Adriana disse...

gosto muito da cena, da boa descrição...o desfecho está bonito, de mãos dadas...seguimos assim.

BAR DO BARDO disse...

confissão: há tempo fiz uma peça (amadora, mais ou menos) em resende (rj), chamava-se tupinim - e eu como protagonista. a cena mais difícil tinha como fundo musical...

adivinha???

um beijo.

Adriana Godoy disse...

Guru, que elogio,heim? Continue publicando, isso sossega o coração.Muitíssimo obrigada. Bj

Adriana, que bom o seu comentário.Bj

Bardo, I'm so tired sempre me inspirou. Bj

nina rizzi disse...

em minha primeira visita aqui lhe disse do meu encanto com essa trua foto do perfil. por ela suscitar exatamente o que escreve nesse texto.

sabe que é minha cara, né?! :)
beijo :)

Luciano Fraga disse...

Uma maravilha, pra variar, lembrei-me dos versos de Cazuza:
Nós

Não e só pensar no fim
nas profecias,
não, não, não , não
é pensar que um dia
sob algum luar
vou te mandar um recado,
um reggae bem gingado,
alucinado de amor,
amassado num guardanapo...
Grande abraço, vida longa.

Adriana Godoy disse...

Nina, fico feliz com isso. Bj

Luciano, meu dileto poeta, que ótima lembrança. Adoro sua visita. Beijo.

António Gallobar disse...

Um belissimo texto com muitos pontos de vista, muito interessante,
parabens

Vou estar mais atento
Antonio Gallobar

Tomaz disse...

Trilha sonora e alcoólica maravilhosa, e o texto atenua a intensidade do momento de lágrimas quentes, mãos dadas e whisky.

Muito belo.
Beijão.

pianistaboxeador21 disse...

A urbanidade é só a casca, por trás há toda uma dor, uma ternura, uma delicadeza disfarçada de cidade e de cotidiano. As pessoas são ppedaços de desespero.

E Beatles e a melhor banda do mundo. E o álbum branco é, junto com o revólver, o meu predileto.

Beijo,

Daniel

Adriana Godoy disse...

Tomaz,o seu comentário desce como um bom uísque. Bj

Daniel, que sensibilidade para entender o texto e tirar essas palavras! Putz, delírio! Também amo o álbum branco e os Beatles são a maior banda da terra mesmo!! Beijo.

Gallobar,(não sei como apareceu em meu blog), obrigada pela visita.

Isabel Estercita Lew disse...

Adriana, belíssima a pintura do Rafael. Teu texto tem um visual carregado, até imagino as cores... é realmente a descrição de uma cena de filme realista, tem muito do Artur Miller, sei lá gostei e gosto muito de teu estilo.

Beijos

fred disse...

Outro ótimo texto e outra magnífica ilustração.
Beijos

Adriana Godoy disse...

Isabel, é bom receber um comentário como esse. Sempre incentiva. Obrigada mesmo. Bj

Fred, sua visita sempre inspira também. Obrigada. Bj.

Renato Barros disse...

Imagino essa cena direitinho. Mesmo vc sempre dizendo que é "eu lírico", vejo vc de verdade , em um daqueles bares de esquina,na Savassi, os carros, o barulho, a confusão, e vc tomando seu chopp ou com um copo de cerveja(não uísque) com N. e falando aquelas coisas que só vc sabe...ê Dri, juro que desta vez vc se entregou´. Gostei muito. Beijos.

Adriana Godoy disse...

Renato, não sei o que dizer. Não vou confirmar nem negar o que vc disse. Às vezes, as coisas se misturam muito e fica difícil determinar até onde sou eu mesma ou não. Não importa. Aliás, isso é o menos importante, ok? Obrigadíssima pelo comentário e suas constantes visitas.
A gente toma uma geladinha qualquer dia desses. Bj

Compulsão Diária disse...

Adriana, dá filme. Eu vi!
Jim Jarmusch faria com prazer. A cena tá pronta pra ele. Avisa lá!
Genial, genial.
Se todos os casai fossem assim seriam eternos.

Adriana Godoy disse...

C.Diária, obrigada pelo comentário, nem sei o que dizer. Bj

cra disse...

cidade

Adriana Godoy disse...

Cra, cidade sem sol com buzina e carros.

V.M.Paes disse...

Demais Adriana... tenso, e lindo.

bjo.

Adriana Godoy disse...

Valeu, V.M.Paes, sempre boa sua visita.Bj

THORPO disse...

"a cidade gemendo buzinas e sirenes, a correria louca desatinada" - pintou um quadro perfeito.
Bem narrado, entrei fácil no texto.

Aline Miranda disse...

Gostei muito. Imagino o final de tarde barulhento e alaranjado carioca...

voltarei amis vezes .
inté

Barone disse...

"Ele me olha com os olhos molhados e escuros como a noite que chega."