quarta-feira, abril 27, 2011

cenas da terra

aquarela/ rafael godoy
a henrique bardo pimenta


ouvi os gritos de quem estava sendo engolido pela terra
e deles não tive pena

as casas continuavam brancas como fantasmas perdidos
e as crianças corriam loucas pelos passeios

uma mulher acabava de comer uma maçã vermelha e doce
e jogava as cascas para os pombos e abutres

uma velhinha empurrava com a bengala
as fezes dos pardais ensandecidos

o rio transbordava e jogava seus excrementos
contaminando o canal e as pessoas

um bando de velhos jogava cartas
nos bancos da praça abandonada

o poeta tentava achar a palavra que faltava
para completar seu poema de mil versos

os cães mastigavam uma carne transparente
não se sabia se era de gente ou de bicho

cavalos selvagens não corriam
apenas observavam o ritmo da natureza

a terra continuava a engolir os desvalidos e os afortunados
um homem lançava pedras no lago escuro

enquanto isso alguém tocava John Coltrane
e enfeitiçava a lua pálida

a terra parou e vomitou seus mistérios
e vomitou seus filhos seus bichos
sua decadência seus deuses sua arte

e finalmente adormeceu

(texto republicado)

20 comentários:

Celso Mendes disse...

puxa, poema de uma intensidade que impressiona. e os dias se passam até que tudo adormeça, talvez para sempre... gostei demais!

abraços!

Anita Mendes disse...

esse é com certeza um dos seus mais perfeitos poemas! Belo, belo, belo! como é bom vir por aqui! te quero sempre, drika! beijos ,anita.

MIRZE disse...

DRI!

Um poema de uma beleza ímpar, que só sua maestria consegue fazer.

Beijos, amiga querida!

Mirze

Wilson Torres Nanini disse...

Adriana,

um barco (bar) ébrio em pé de telúricas e também concretas imagens. E o Bardo merece a oferenda, com certeza.

Abraços!

nina rizzi disse...

adoro esse texto.

e, quanto à sua pergunta de quandos, não é só lá. é por enquanto, é quandos. sei lá.

rsrs..

beijo e frô, bunitona :)

Sam disse...

senti vento nos cabelos e perfume na face, enquanto corriam os cavalos e meu olhar, acompanhava-os.

Que lindo, Dri.
Meu carinho,
Samara Bassi.

Assis Freitas disse...

belo, belo


beijo

Rico Salles disse...

Olá, vim conhecer seu espaço, muito encantador, de qualidade.

Cristiane disse...

Adriana!
Que lindeza... quantas imagens criando-se encadeadas por precisas palavras. Inspiração, talento.

Saudade daqui, volto sempre.
Bjos

daufen bach. disse...

Olá minha querida amiga!

igual a ti, ausente da net, ausente dos blogs, raramente apareço e, que surpresa chegar hoje e te reencontrar!
Tua poesia, como sempre única!
Beijo no teu coração.

daufen bach.

sopro, vento, ventania disse...

querida Adriana,
um texto como esse é pra se rezar, e pedir a Deus para fazer dele semente para outros tantos.
muito bonito!
Dá incômodo, ardência no peito e alegria por poder ler e se entender a partir dele.
um beijo

Adriana Karnal disse...

bonito...o bardo nos inspira.

carikaturARTE disse...



Mág.iC.a Go.dóy!

Ar.g.te!

Plac! Plac!

:o)

don vito andolina disse...

Hola, íntimo blog, profundas entradas,si te gusta la palabra infinita, la poesía, te invito al mio,será un placer,es,
http://ligerodeequipaje1875.blogspot.com/
gracias, buen día, besos de agua...

Luciano Fraga disse...

Adriana querida amiga, texto inquietantemente assombroso, a mãe terra devora/adormece e gera em sua coreografia silenciosa, beijo.

pianistaboxeador21 disse...

belo, belo, belo.

dade amorim disse...

Uma resenha do que acontece no planeta, uma proposta de olhar.
Muito bom, Adriana.
Beijos.

Melina F. disse...

Impecável!

BAR DO BARDO disse...

Este bardo esteve fora dos paramentos tecnológicos por um período.

Não é muito que ele agradeça - e de novo e de novo e de no... v... gênesis!

Adriana Godoy disse...

Ainda bem que, mesmo sendo repeteco, vc continue gostando...Beijo