quarta-feira, junho 30, 2010

sábado à tarde numa esquina

desenho de carcarah

foi bom te ver com esses olhos que já me olharam na esquina onde eu às vezes tomava cerveja. você estava mais velho e mais triste e brincava com um cachorro que ficava por ali. tinha ainda um jeito de menino. fiquei te olhando como um filme, querendo dizer alguma coisa. você me viu esquecida de mim. falou algo sobre os dias lindos de inverno. depois veio o silêncio e o pôr-do-sol, a rua, o movimento repentino, o asfalto negro e novo, os prédios acesos, o céu escuro, vazio de estrelas. eu estava na esquina no sábado à tarde e vi seus olhos de novo. agora é noite, agora só a fumaça dos carros, e te vejo como um deus inacessível e estranho.

32 comentários:

Anita Mendes disse...

um cíclico desespero romântico que só em ti se repete!
AMOOOO!!!
beijokas, dri.

Hercília Fernandes disse...

Belo texto, Godoy!

Sua prosa é poesia, sua poesia é prosa. Nos banha com enorme beleza, mesmo quando "é noite" e há "um deus inacessível e estranho".

Lindas imagens, amei!

Beijo,
H.F.

Otto_M disse...

Ler esse teu texto me trouxe uma sensação de fugacidade, volatilidade diante da vida. Um vazio tão grande quanto o do céu sem estrelas. Gostei. Posso te seguir?

tonhOliveira disse...



Doce delírio, li e rio...

be:)os!

Marcos Satoru Kawanami disse...

dum lado Fusca, do outro Zé do Caixão, num viaduto em SP; só falta o Karmanguia pra completar meu sonho de consumo.

ah, falta também a carteira de motorista; tem pra vender?

sopro, vento, ventania disse...

Concordo com a Hercília,
sua prosa é poesia, sua poesia é sua prosa. E todo o seu texto é o espelho de que precisamos para nos vermos melhor.

bjs.
Cynthia

Mirze Souza disse...

DRI!

Demais essa prosa poética! Chega a emocionar e nos transportar para o local do encontro!

Beijos

Mirze

nina rizzi disse...

dri, amei a tua propoética, mais beat que nunca, deliciosa como sempre.

e eu vejo os teus olhos em todas flores amarelas. como pólen e alongamento dos meus.

carcarah?

beijos.

tania não desista disse...

...e me levou a passear...no tempo do ontem ...do hoje.
..e me levou a enxergar olhos e mutações...e um alguém inacessível!
legal adriana!
bjo
taniamariza

Luciano Fraga disse...

Adriana,um show! Transportei-me em sonhos e dos mais leves, vendo algo fugindo entre meus dedos.Há quem duvide, mas existem coisas inacessíveis mesmo, beijo querida.

Ribeiro Pedreira disse...

a lembrança dos olhos ficou na esquina, na cerveja.
"agora só a fumaça dos carros"

guru martins disse...

...capenga ontem teve aqui
capenga ontem teve aqui
deu dois merréis pra mamãe
deu dois merréis pra papai
o que tem para mim?
quando eu entrar você entra
quando eu sair você sai
passe bem ou passe mau
mas tudo na vida é passageiro
camará...

pois é, bj

Talita Prates disse...

gosto muito quando escreves assim
:prosa-poética com esse fluxo de consciência repleto de sentidos e sobressaltos.

um bjo, Dri.

Talita.

j maria castanho disse...

Décimo Oitavo Cálice

Quando até a literatura é estrangeira
Na regra dos noves fora mais antiga
É condição redobrada ser a primeira
A contar de quanto trauteio a cantiga
De ficar absorto a soletrá-la pertinaz
Já que o corpo por repouso tudo aceita
Incluindo ler, que só à mente deleita,
Seja a tarde longa e calma ou fugaz
Que sempre voará se no fazer apraz.

Medido o tempo por esta clepsidra
Onde cada segundo é uma frase lida
A pingar da pipeta do entendimento
Tece enredos quem só decepa a Hidra
Lhe sega as cabeças do medo à vida
Tira à serpente gigante o tormento
E lhe dá em troca o jeito sagaz melado
De um S com asas dito voo soletrado
E no sibilo de uma língua enrolado.

A primeira letra de um nome, portanto
Só anda repetido adiante, se avança
Revestido na aliança serena do canto
Em que o compasso é passo e balança
Braço dado fazendo do par a esperança
Deste Alentejo como um lamento cantado
Na sesta amena ao ritmo arado do beijo
Que é outro tanto do canto do S no desejo.

Boca a desenrolar-se é só mandorla da fé
Num zero que a cabala indica, mas que é
O seixo do ábaco se a unidade multiplica
Por dez, por cem, por mil e até o infinito
Estica, dando ao ver o que só se acredita
Existir, sendo esse anel o aro de espírito
Suficiente à matéria como forma de lente
Prà visão num oito alcançar o ponto fito
Que nunca é visto só pelo olhar da gente.

Quem já viu longe e para lá do horizonte
Que a eternidade tem por coisa tão certa
Como uma árvore, colina, rio, ou monte
Habitado por família unida, sã e desperta?
Então, esse sabe até reconhecer a aresta
Que há no distante Sol cuja seta acerta
Raio de alerta e sobre a alma o rio apresta
Ao tempo contínuo, sem fim, sólida ponte!

j maria castanho disse...

Décimo Oitavo Cálice

Quando até a literatura é estrangeira
Na regra dos noves fora mais antiga
É condição redobrada ser a primeira
A contar de quanto trauteio a cantiga
De ficar absorto a soletrá-la pertinaz
Já que o corpo por repouso tudo aceita
Incluindo ler, que só à mente deleita,
Seja a tarde longa e calma ou fugaz
Que sempre voará se no fazer apraz.

Medido o tempo por esta clepsidra
Onde cada segundo é uma frase lida
A pingar da pipeta do entendimento
Tece enredos quem só decepa a Hidra
Lhe sega as cabeças do medo à vida
Tira à serpente gigante o tormento
E lhe dá em troca o jeito sagaz melado
De um S com asas dito voo soletrado
E no sibilo de uma língua enrolado.

A primeira letra de um nome, portanto
Só anda repetido adiante, se avança
Revestido na aliança serena do canto
Em que o compasso é passo e balança
Braço dado fazendo do par a esperança
Deste Alentejo como um lamento cantado
Na sesta amena ao ritmo arado do beijo
Que é outro tanto do canto do S no desejo.

Boca a desenrolar-se é só mandorla da fé
Num zero que a cabala indica, mas que é
O seixo do ábaco se a unidade multiplica
Por dez, por cem, por mil e até o infinito
Estica, dando ao ver o que só se acredita
Existir, sendo esse anel o aro de espírito
Suficiente à matéria como forma de lente
Prà visão num oito alcançar o ponto fito
Que nunca é visto só pelo olhar da gente.

Quem já viu longe e para lá do horizonte
Que a eternidade tem por coisa tão certa
Como uma árvore, colina, rio, ou monte
Habitado por família unida, sã e desperta?
Então, esse sabe até reconhecer a aresta
Que há no distante Sol cuja seta acerta
Raio de alerta e sobre a alma o rio apresta
Ao tempo contínuo, sem fim, sólida ponte!

Adriana Godoy disse...

Tenho que dizer que é muito bom ler os seus comentários. Isso sempre inspira e faz continuar. Beijão.

Batom e poesias disse...

Bateu uma melancolia...Rever o inacessível...

Bom demais, Adriana.
bjs

Rossana

Renata de Aragão Lopes disse...

Todo o texto é lindo,
mas ficarei com o trecho:

"você me viu esquecida de mim."

Beijo,
doce de lira

On The Rocks disse...

pô, lindão!

eu tava na esquina observando tudo - kkkk...

bj

Wania disse...

Dri

Dobrando as esquinas do tempo, mas as lembranças acompanham...


Bonito texto! Descreves sempre muito bem estas atmosferas urbanas!


Bjs

Sylvia Araujo disse...

Lindo esse anoitecer.

Beijoca

Ivan Bueno disse...

Adriana,
Normalmente costumo comentar com não poucas palavras. Li, reli e senti. Daí me calei. Só o que posso dizer é que achei lindo.
Beijo grande,

Ivan Bueno
blog: Empirismo Vernacular
www.eng-ivanbueno.blogspot.com

Fabio Rocha disse...

Que beleza... E eu te vejo como uma rosa... Beijos

On The Rocks disse...

adriana,

tem selinho para você no on the rocks.

bj

Ana Lag. disse...

Olá Adriana,

D+...sem palavras,
Recorda meu PASSADO.

Até mais,


Ana Lag.

Ana Lag. disse...

Olá Adriana,

D+...sem palavras,
Recorda meu PASSADO.

Até mais,


Ana Lag.

Ana Lag. disse...

Olá Adriana,

D+...sem palavras,
Recorda meu PASSADO.

Até mais,


Ana Lag.

dade amorim disse...

Delícia, Adriana.

Um beijo.

José Carlos Brandão disse...

Nós nos perdemos de nós mesmos. Perdemos o outro, porque somos outros. Viver dói.
Um beijo.

aluisio martins disse...

lindo e vital estranhamento - a melhor forma de tornar a si...
lindo texto...

BAR DO BARDO disse...

vc é poeta que NUNCA perde a mão

me impressiono

parabéns!

Ígor Andrade disse...

Oi Adriana!
Mesmo quieto, sem comentar muito, sempre acompanho você e as meninas da Maria Clara. Vocês são demais!
Abração!