terça-feira, setembro 25, 2012

Nessa hora

arte: rafael godoy


Nessa hora a chuva cai.
Não tenho planos, não penso o que vou fazer amanhã, muito menos daqui a alguns meses. Meus filhos estão longe, a casa vazia.
Os gatos me olham e parecem dizer: será que ela não vai fazer nada? E ao mesmo tempo gostam da minha presença, aninham-se aos meus pés.
Não consigo procurar amigos e nem parentes. Nem fazer qualquer coisa para comer. Quando me dá fome, tomo um café que está ali, ao meu alcance e mastigo um pão de forma velho com manteiga.
A geladeira , como disse alguém, um deserto frio e árido. Não tem bebida, nem vinho, nem cerveja. O cigarro me acompanha em meus devaneios. Gosto de chegar na área e olhar a chuva.
Busco compreender algumas coisas em mim, mas isso também passa. Não estou alegre, nem triste, nem nada. O telefone toca e é um convite, pode ser bom. Não quero também. Tenho que me vestir, me arrumar, sair de casa ou preparar a casa para alguém. Então dou uma desculpa qualquer e fujo de qualquer compromisso. Gosto da casa assim, com a cama desfeita, mas aconchegante. Com algumas coisas fora do lugar, que fui eu que deixei. Os livros ali, assim jogados. Leio, mas não me prendo a nenhum. Um poema aqui, outro lá. Trechos de obras já lidas. Às vezes um livro inteiro em poucas horas. Mas é assim que gosto. Vejo tevê e procuro alguma coisa que preste. É difícil, mas consigo. Também, se quiser, mudo o canal a qualquer momento e brinco com as imagens. Ouço uma música que há muito não escuto e me surpreendo: como eu gostava daquela música! E acho uma merda. Durmo em alguns momentos e tenho sonhos estranhos, como ir ao fundo de uma piscina funda, muito funda, cheia de folhas e lama e conseguir voltar à superfície, ilesa. E quando volto à tevê, assisto a uma cena semelhante. Só que o cara não teve a mesma sorte. Afogou-se.
Tocam o interfone. Pode ser o gás, o correio, alguém pedindo alguma coisa, ou mesmo, um amigo. Mas não atendo. Não quero sair dessa inércia. Parece que a chuva parou. E eu parada aqui e os gatos me olham.
 
(republicado)

11 comentários:

Hercília Fernandes disse...

Eu adorei o texto, Godoy.

Você tem o dom de descrever estes estados/vivências comuns a muitos. Suas cenas levam-nos a uma imediata identificação.

Excelente!

Beijos,
H.F.

José Carlos Brandão disse...

Umtexto bem com a cara do dia de hoje, Adrina. Deveria ser triste, deveria ser depressivo, mas fica no ar um ar leve (nem essa redundância ar-ar tem importância). É, também estou sem votade nenhuma. Isso é ruim e isso é bom.
Beijo.

nilson disse...

A vida fica nublada.
Cinza.
A inércia agradável.
Como é bom gostar de não gostar de nada. Nem de ninguém.

Assis Freitas disse...

chuva, gatos, inércia: a existência esférica


beijo

Adriana Godoy disse...

HF, bom que gostou, beijo;

Adriana Godoy disse...

JC, gostei de sua percepção. Beijo

Adriana Godoy disse...

JC, gostei de sua percepção. Beijo

Adriana Godoy disse...

Nilson, a inércia agradável..boa! beijo

Adriana Godoy disse...

Assis, é isso! Beijo

Luciano Fraga disse...

Adriana, belo, sensível esse texto. Chuva fininha, casa com solidão... Beijo.

Adriana Godoy disse...

Oi, poeta! De vez em quando é bom mesmo! Beijo