quarta-feira, setembro 16, 2009

na segunda manhã

(texto de Danilo de Abreu Lima, dando continuidade ao meu outro texto: "na primeira manhã")

“O inferno era agora, finalmente o diabo tinha vencido. O inferno era agora, finalmente o diabo tinha vencido.”

...e assim, perdivagando nesses pensamentos endemoniados acabei dormindo e o dia se esvaiu assim meio perdido aturdido no centro daquele ciclope daquele som de cabeças sendo cortadas pauleira desdentando bocas e esfacelando crânios e eu a pensar meu deus que poderá ainda vir meu deus meu deus por que tanta doideira numa só tacada será que você já está antecipando o fim eu penava e lembrava o inferno de signos de Pasolini se bem que era muito mais amador e cheio de humor do que esse: esse som( não música, som) ensurdecedor, é foda agüentar esta zuera,mano! E assim eu acabei caindo num sono meio azucrinado sonhando pesadelos acordado viajando nas ondas do inferno e vendo os diabinhos gargalhando lá no fundo do quadro. Perdivagava assim vagabundo na vagazona do entrevigília e sonho e de repente acordei...já não era mais quele dia tinha passado a noite e já era outro dia e já era a manhã do segundo dia... e eu abri a janela, desconfiado, descerrei a persiana devagar como quem não quer nada como caramujo saindo do caracol para se esbaldar na luz do sol e e não houv-ia mais aquela coisa aqueles baticuns aqueles tuntistuntunnnn malditos...ah, havia um solindo lá fora e ...nem entendi ou não acreditava: havia vivaldis sinfônicos voando no ar, eram a primavera o verão o outono e o inverno todos juntos em doces sons que se amalga-amavam nos ouvidos antes surdos- beethoveeeeeens vindos nas asas de abelhas que zumbiam nonas e quintas e maravilhas de Mozart navegando os ares que eram assim meio gelatinosos meio gosmentos de tanta música a pairar parar no ar eu até via eles lá os quatro cavaleiros empunhando rocks dos sessenta
e...ei, será que tomei alguma coisa ontem pra dormir e me ficou essa ressaca essa doideira me fazendo ver o que não é?
.mas não, o diabo não havia vencido e o inferno não era aqui, e agora...ainda havia espaços abertos e flores flores e florestas se abrindo...pensei nos lilazes e nas luzes nas margaridas brancas, sabe aquelas de árvore tipo os ipês aquele escândalo de beleza que até doem nos olhos pensei naqueles velhos interiores e nas pessoas gentes que nem sabem que existem essa música e essas noites e esses desvarios e esses vazios e esses vícios.. pensei nos passarinhos, sim nos passarinhos e no mato e no verde e...
e sei que o diabo não venceu a parada... muitos tamos noutra, ainda, e o mundo ainda tem redenção!

8 comentários:

Adriana Godoy disse...

Danilo, gostei demais...realmente um delírio delicioso e mágico. Essa intertextualidade é muito interessante. Obrigada por esse texto. Beijo.

nina rizzi disse...

adoro diálogos, vcs sabem, e, juntos, são das min duplas preferidas :)

beijos aos dois sóis ;)

Adriana Karnal disse...

Sem reictar chavões, mas vc é Danilo tudo a ver.Gostei demais.

Úrsula Avner disse...

Oi Adriana, seu texto interagiu muito bem com o do Danilo, num diálogo afinado e "endiabrado" , rs rs rs. Bj.

Marcos Satoru Kawanami disse...

a Redenção é a certeza que persevera.

Isabel Estercita Lew disse...

O Danilo vez uma emenda maravilhosa em tua veia poética e o sangue continuou fluindo mudando de rumo afugentando capetas trazendo vivaldis, beethoveeeeeens, vida

Parabéns!

Estercita

Lara Amaral disse...

Que legal! Bonito esse texto!

Vinícius Paes disse...

Muito doido. Alucinógeno, do principio ao fim. Gostei.

Beijo.