sábado, julho 25, 2009

filosofia barata


aquarela/rafael godoy

reverencio os mistérios
mas não os creio divinos

a dor e o sofrimento não são divinos
a humanidade feder e exalar horrores
a natureza gritar e transbordar
agonizar em febre e frio por causa do homem
também não

se deus fosse a natureza
não se chamaria flor a flor
nem bicho o bicho
nem mar o mar
nem homem o homem

há mistérios multitudinários
mas ninguém escolheu
comer o pão que o diabo amassou

ser miserável ter fome e desprezo
lutar em uma guerra inaceitável e desigual
morrer aos milhões por bala perdida ou canhão
à míngua ou solidão?

não me fale em livre arbítrio
a escolha não é essa
quem escolheu sofrer até a exaustão?

reverencio os mistérios
mas não me fale em deus

39 comentários:

BAR DO BARDO disse...

1. gostaria de parabenizar aos artistas plásticos que fazem parceria com você (são da família, ainda que não sejam) - há sempre trabalhos de excelente qualidade estética.
2. assisti a duas matérias jornalísticas na televisão, uma sobre a influência do futebol em angola e a outra sobre os muitos problemas no porto de santos - e sua 'diluição' pela cidade.
3. pois bem. você aqui consegue traduzir a miséria de cá e d'além mar, como vi nas matérias citadas. fiquei surpreso, porque isso não é nada fácil de se fazer com um texto poético. mas não me surpreendi nem um pouquinho, porque quem escreveu foi a adriana godoy.
4. sua tradução é bastante dolorosa (ai!...) e verdadeira... isso machuca, confesso. confesso que fico também na dúvida quanto a serem ou a existirem mistérios que sejam divinos. deus deve pensar assim: me inclua fora dessa!
5. acho que esse é o seu estilo: lâmina na carne da consciência.
6. que diabos significa "multitudinários"?!

Anita Mendes disse...

uma facada nas costas esse teu poema hein!
e como disse tmb no blog do devir sobre um assunto parecido.. livre arbítrio é o capeta!(rs)
gosto da drika perversas nas palavras mas sensível nos sentimentos... a indgnação
tem dessas coisas.
muito bom tudo isso.

ps: faço a mesma pergunta do Bardo:
que significa "multitudinários"? (heheheh)
vou procurar agora...
Beijos enormes pra ti, Anita.

Luciano Fraga disse...

Querida poeta,como diz um certo comentarista da Tv:"tá de brincadeira",chamar uma flechada de indignação dessas de filosofia barata? Acima de tudo corajosa, suas ferrenhas palavras sairam de um canto machucado na forma de banzo e canto de navios negreiros, emocionante mesmo, beijo.

Isabel Estercita Lew disse...

Adri, concordo totalmente com você e me faço a mesma pergunta.
Seus poemas são cada dia mais viscerais. Gostei.
A aquarela do Rafa, deslumbrante.

Beijos

Estercita

Adriana Godoy disse...

Bardo querido, quando vejo um comentário seu tão abrangente me delicio toda. Realmente, acho que entendi o que tem o futebol de Angola e o porto de Santos com os desdobramentos do meu texto, será?
A tela é da família, meu filho, Rafael Godoy ou Rafael Ferrari por parte de pai. Fico feliz que goste.
Multidudinários é relativo ao coletivo, atos, geralmente criminosos, executados ou alimentados por uma multidão ensandecida.Mais ou menos isso. Obrigada, Pimenta, que sempre me incendeia a alma. beijo.

PS: depois que reli o texto me lembrei de Pessoa: "Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!"
não sei por quê.

Adriana Godoy disse...

Anita, que delícia de comentário, mas é o que penso, obrigada por suas palvras tão sensíveis sempre. Beijo.

Luciano, naveguei em suas palavras regadas à poesia. Obrigadíssima e beijo.

Estercita, acho que é mais ou menos isso. Agradeço a visita. Obrigada em relação à aquarela, também acho muito bonita, ao contrário de meu filho que queria apagá-la, vê se pode?? Beijo.

Vinícius Paes disse...

E os mistérios existem, em todo canto do infinito universo, todos eles cabem na lógica. Mas, não me venha falar de deus, enquanto não puder explica-lo.
Adriana, demais esse texto, do tipo que eu gosto de ler, realmente muito bom.

beijos.

Lara Amaral disse...

Me identifico com seus poemas. Nessa forma de desabafo, a gente lê e se inclui.

E sobre as pinturas, nossa, realmente lindas e expressivas. Parabéns para o seu filho. Parece que ele pinta inspirado em suas obras e vc escreve inspirada nas dele. Bela comunhão.

Abraços!

Talita Prates disse...

Reverência e aplausos! ********
Arrasou mais uma vez, Dri.
Bjo.

cristinasiqueira disse...

Oi Adriana,

Prefiro começar assim,muito prazer
eu sou Cristina ,também me chamam de Cris.Adoro o lírico centelhando perguntas que eclodem feito bombas neste 'mundo paraíso" que noticia a toda hora impotência quanto aos rumos sem questão.
Gostei do tom.

Com admiração,

Cris

Lou Vilela disse...

Contundente, Adriana! Com certeza ecoará por um bom tempo n'alma.

Bjs

Devir disse...

É muito bom testemunhar
(ao vivo/in loco/on line) de dentro
um arrebatamento de potência
onde parecia que
só havia sua representação

Assim, quanto mais, mais, mais
mais podemos (claro, lentamente)
esquecer filosofias importadas e
de carona, o cinema e literatura
conhecimentos jamais despresíveis;
porém passivos
contra circunstâncias baratas

O problema com esse deus
é que
pensa pensa pensa
tanto que o problema
não é dele

2009 anos atrás
havia um só filho de deus
um só traidor
e o resto era a maioria
mas a coisa mudou, (é, mudou!) hoje
a maioria não se entende
ninguem sabe quem é filho
ou quem é traidor
e o resto...
não é mistério
todo mundo sabe o quer saber.

Adriana Godoy disse...

Paes, sempre estamos em sintonia , obrigada. Beijo


Lara, geralmente, escolho as imagens depois, mas obrigada pelo elogio ao trabalho de meu filho e por seu comentário. Bj


Talita, valeu mesmo. bj

Cristina,prazer também e obrigada pela visita.

Lou, agradeço suas palvras. beijo.

Devir, tô começando a te entender. Volte sempre. bj

Devir disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
José Carlos Brandão disse...

Adriana, a ilustração é muito boa, e o poema, perturbador. A tela e o poema perturbam, com dor, repetindo-me. Avassalam.
Bento XVI, em Auschwitz, perguntou-se: “Onde estava Deus?” E era um papa perguntando. E isso não é falta de fé, apenas excesso de dor. Somos humanos e sucumbimos.
Lembro Adorno perguntando: Será possível a poesia depois de Auschwitz? Nós, poetas, responderíamos que é quando ela é mais necessária. A poesia não é apenas a beleza pela beleza.
Também já se perguntou se será possível Deus depois de Auschwitz. A resposta é a mesma: é quando Deus é mais necessário.
Por outro lado, acreditavam em Deus os responsáveis por Auschwitz. Isso é negar Deus? Apenas quer dizer que Deus não é um antídoto contra o mal.
Questões das questões, vamos longe e não vamos a lugar nenhum. Mas vamos juntos: sou solidário com você. Irremediavelmente: sou humano.

Um beijo

Renata de Aragão Lopes disse...

Maravilhoso, Adriana!

Conhecia crimes multitudinários,
mas não mistérios... : )
O uso do adjetivo caiu tão bem!

Gostei do tom de revolta,
mantido da primeira
à derradeira estrofe.
E estou certa de que até aqueles
que crêem em Deus
já se fizeram,
vez ou outra,
este questionamento...

O cerne do dilema encontra-se,
a meu ver,
nestes versos:

"não me fale em livre arbítrio
a escolha não é essa
quem escolheu sofrer até a exaustão?"

De fato, ninguém escolhe
isso para si.
Mas atos isolados,
inclusive de tempos remotos,
produzem consequências incomensuráveis.
Penso que a humanidade,
dia após dia,
cria todo o mal.
Não somos um,
mas todos.
Uma pena que, ao fazermos
uma mínima decisão diária,
não tenhamos isso em mente.

Beijo
e obrigada pela reflexão.

Tomaz disse...

Bravo! Ótimo texto/reflexão/vulcão...
Me faz pensar no fato de que temos sim um arbítrio, mas infelizmente somos um conjunto, e sofremos consequências das ações dos outros, assim como eles podem sofrer com as nossas, então, parece que temos poder mas ele também depende dos fatores externos...Nem sempre a ação tem a reação desejada.

Beijão!
;)

nina rizzi disse...

um cheiro de fernando pessoa, pra mim, dos maiores gênios não só da poesia, mas também da filosofia...

saber que deus existe é um consolo? talvez, mas nesse ponto em que já estamos no bonde da história não me faz nenhuma diferença.

a diferença está em poemas como este. em pessoas como vc.

beijo :)

Mirse disse...

Parabéns, amiga!

Ativista, como eu!

A verdade tem que ser ouvida. Estou com os seus dizeres nessa prosa. Principalmente agora, que "coisificaram" Deus.

Beijos!

Mirse

Adriana Godoy disse...

Devir, quando acho que começo a te entender, vc vem para embaralhar minha cabeça, não sei o que apoio, mas,enfim, gosto de suas elocubrações. bj

JC, que beleza de considerações, estamos no mesmo barco mesmo e obrigada pelo esmero de suas palavras tão bem colocadas. bj


Renata, um comentário tão elucidativo como esse emociona. Obrigada pelo zelo e carinho e pela forma como expõe suas ideias. Bj

Tomaz, entendi o que quis dizer. Obrigada mesmo. Beijo. E ainda bem que apareceu, né?

Nina, estamos na mesma frequencia, pelo menos agora. Comentário porreta. Beijo.

Mirse,seu ponto de vista é bastante interessante. Obrigada sempre e um beijinho.

Fabio Rocha disse...

Filosófico e belo. Tenho que digeri-lo... Mas parece que senti uma certa raiva contra o Deus inexistente. Belo paradoxo.

guru martins disse...

...simplesmente
muito boa e ...
sem comentário

bj

sopro, vento, ventania disse...

Há algo de luz, de toda forma, e é isso que vale. Vale a sua voz e esse poema lindo que faz uma interrogação imensa acenar que, sim, não está nada certo mesmo; o que é uma pena. É realmente uma pena não estar nada certo, mas ainda bem que há esse seu poema; poemas como esses que colocam essa grande interrogação na nossa testa. Afinal, por que é que esse mundo louco tem que ser assim, né?
um beijo, querida Adriana.

Ava disse...

Adriana, a alma em poesia...

Todo poeta que escreve com a alma, consegue esse efeito avassalador com as palavras...

Seu poema é belíssimo!


Beijos!

Barone disse...

"a dor e o sofrimento não são divinos
a humanidade feder e exalar horrores
a natureza gritar e transbordar
agonizar em febre e frio por causa do homem
também não"

Ava disse...

Adriana, fiquei deslumbrada com os trabalhos do seu filho...

Estou levando Estudos para Tetas, do post Expurgo, para ilustrar um post meu...

Os c´reditos serão dados...

Adorei os quadros aqui...Salvei em favoritos... Com medo de te perder...rs


Beijos!

Devir disse...

Rafael

O sem cabeça ou cérebro
o que equivale a uma flor
o louco de revolta indisciplinada
o gatinho curioso de manhãs a pelo
o bebesão alheio e não alheio
e o distante obscuro observador
brinda por sombras coloridas

Tim Tim

à todo esforço humano na criação!!!

Adriana, vou retirar comment ant
perdão
Tem post todinho para voce
e para todos

Meus respeitos

Adriana Godoy disse...

Ei, Devir, muito bom esse seu poema em alusão à tela de meu filho. Já conferi o seu novo post, deixo mensagem na segunda leitura.bj

Barone, sempre valiosa sua presença.bj

Ava, agradeço seu comentário e volte mais.

O Profeta disse...

O ultimo sentimento
Perdeu-se no outro lado do espelho
Onde dormem as estrelas?
Talvez sobre a cabeça de um pobre velho

E a Lua de sorriso trocista
Soltou raios de deslumbrante luar
Um amante tece um manto de ternura
Inunda o espaço uma melodia de embalar


Boa semana



Doce beijo

Ava disse...

Estudo para telas..rs

Errei o nome...

Adriana, obrigada por suas palavras...
Adorei voce por lá...

Querida, se tiver qualquer problema coma tela de seu filho, me avisa que troco...

Não quero te causar qualquer constragimento!

Os trabalhos dele são belíssimos... Não deve ter qualquer receio de divulgar...


Tenha um lindo dia!

Beijos em seu coração!

pianistaboxeador21 disse...

Querida Adriana, concordo com tudo o que disse. Quem é que vai escolher sofrer? E falar em Deus... é tão Deus. Um poema de indignação e de crítica. Gostei muito. Sempre bom te ler.
Beijo

Rafael Rodriguez disse...

são questões que vivem gritando em meus ouvidos e luto para não ficar surdo.

tô colocando as leituras em dia. sempre bom estar por aqui, em seu cantinho.

beijão.

Marcos Satoru Kawanami disse...

eê, misinfia, caboclo Fernando Pessoa tá atacado hoje...

sim, o lívre-arbítrio é uma pilhéria.


=D
marcos

Adriana Godoy disse...

Ava, sem problema. Obrigada.

Daniel, interessante seu comentário. Amo suas visistas. beijo.

Marcos, misinfia, eu? haha...também me lembrei de Fernando Pessoa...não sei se tem algum verso igual ou parecido...se tiver a culpa não é minha, como digo sempre, "o trem flui". Beijo.

Hercília Fernandes disse...

Um grande texto, minha amiga!

Enfrenta sem tabus e receios dogmatismos e acorda a consciência humana para os não-ditos existentes nos discursos, sejam eles profanos ou supostamente divinos.

Seu poema é desbravador: enfrenta mitos legitimados em nome do amor, mas que mantêm os indivíduos presos em vales de dor...

Parabéns pelo "todo" de sua escrita, Godoy. E meus cumprimentos, também, ao criador de tão bela aquarela.

Beijos :)
H.F.

Maria Paula Alvim disse...

Filosofia barata??? Ondee??? Excelente ( e contundente) poema, isto sim. Parabéns, Adriana.

Adriana Godoy disse...

Hercília, um comentário desse me deixa assim, assim!! Uau! beijo.

Maria Paula, agradeço sua visita. beijo.

Felipe da Costa Marques disse...

Texto metafísico nadificador apaixonante! (rs)

Muito Bom!

Bjs e Abs,

Felizpe

Cunhadão disse...

Bom demais, mas sabe q fico triste em constatar sua descrença? Tão normal as pessoas se esquecerem do significado da vida e te acho tão especial pra se aproximar do padrão normal...