sábado, maio 23, 2009

cenas da terra

paisagem/estudo para aquarela/ rafael godoy

(para Henrique Bardo Pimenta)

ouvi os gritos de quem estava sendo engolido pela terra
e deles não tive pena

as casas continuavam brancas como fantasmas perdidos
e as crianças corriam loucas pelos passeios

uma mulher acabava de comer uma maçã vermelha e doce
e jogava as cascas para os pombos e abutres

uma velhinha empurrava com a bengala
as fezes dos pardais ensandecidos

o rio transbordava e jogava seus excrementos
contaminando o canal e as pessoas

um bando de velhos jogava cartas
nos bancos da praça abandonada

o poeta tentava achar a palavra que faltava
para completar seu poema de mil versos

os cães mastigavam uma carne transparente
não se sabia se era de gente ou de bicho

cavalos selvagens não corriam
apenas observavam o ritmo da natureza

a terra continuava a engolir os desvalidos e os afortunados
um homem lançava pedras no lago escuro

enquanto isso alguém tocava John Coltrane
e enfeitiçava a lua pálida

a terra parou e vomitou seus mistérios
e vomitou seus filhos seus bichos
sua decadência seus deuses e sua arte

e finalmente adormeceu

32 comentários:

nina rizzi disse...

caralho, dri. é tri-tudos! meio... john fante. todo eu! assim, nem a-dor-meço, é só esplendores (achava que nunca usa-ria esta palavra).

bei.joaninha :)

Adriana disse...

Adriana,
Só mesmo John Clotrane para amenizar essa imagens, se isso é possível.Ainda bem q tudo adormeceu.Duro, mas belo poema.

BAR DO BARDO disse...

Meu Deus, quem sou para merecer tal obra de arte?!

Onde me encontro?... Aqui? "o poeta tentava achar a palavra que faltava / para completar seu poema de mil versos"...

Cara, você fez um texto, literário e literalmente, fantástico! Puxa, parece uma cena de filme autoral, da cineasta Adriana Godoy.
A terra engolindo a vida e a devolvendo por meio de engulhos...

Não, eu não estou nesse poema, eu já estou é no céu!

Obrigado pela homenagem. Você me faz um artista mais envaidecido e talvez um pouquinho melhor.

Um beijo.

- Henrique Pimenta

Adriana Godoy disse...

Me-nina, caralho! Beijos.

Xará, sempre pertinente e presente. Obrigada, mesmo.

Pimenta, sonetista dileto e amante de poemas "difíceis" não sei em que parte do inferno ou do céu nos encontramos, mas sempre. Não é nada esses escritos diante de sua obra. Mas no ato me lembrei de você e queria que soubesse. Suas palavras me fizeram extremamente feliz e envaidecida. Beijo, Bardo Camões.

Compulsão Diária disse...

mad -max ao som de coltrane. nos versos o estro de adriana.
show de bola. show de gala. imagens fortíssimas feito a do urso;

Luciano Fraga disse...

Amiga poeta,que roteiro!Assim você mata(prazer) nosso amigo Henrique.Trilhas e pistas de uma relação perversa que estabelecemos com nossa mãe.Ela aceita, engole, produz e com o seu cio nos alimenta, mas para nossa tristeza agora ela reage. Forte, belo tal música de Coltrane, beijo.

Lou disse...

Imagens contundentes! Belo e reflexivo texto-homenagem, Adriana!

Abraços, minha cara!
Lou

Taninha Nascimento disse...

Olá, Adriana!

Vê-la produzindo é uma alegria! Fico feliz que estejas bem!!

De fato, teu poema parece cena de cinema com trilha sonora e tudo...

Bacana!! Chocante!! Muito bom!!

Beijos,

Taninha

José Carlos Brandão disse...

Alucinante!
Ó espíritos da terra! Tudo é poesia quando a alucinação habita em nós.
Gostei.
Beijo.

Anita Mendes disse...

Drika, so vc pra fazer um poema desses!
a urbana fotografia, a simplicidade do cotidiano e a sensibilidade do momento fazem esse poema o que ele deveria ser.
muito lindo ,drika!
beijos pra ti, Anita.

António Gallobar disse...

Adoreiamiga Adriana, parece uma cena fantastica de cimena,assim como gostei da aguarela com cenas da terra, imagem bem condizente com o belo poema, se passar pelo meu canto espreite o ultimo poema do novo blog, a tua imagem também deveria ficar lá muito bem... Muitos parabens adorei. Um bom Domingo amiga. Beijinho

Cynthia Oliveira disse...

lindo o poema e as imagens que evoca.
e, ainda, obrigada pelas visitas no meu blog. e, ah, sim, o que fiz pra você é de coração, e, sim, você merece muito mais do que isso, poeta rara e pessoa cara que é.
bjs.
Cynthia

Aline Christal disse...

Você acreditaria se eu falasse que estou sem palavras? Fiquei sem voz...rs

Mesmo sem letras também, adorei seu blog...

Renata de Aragão Lopes disse...

Sua imaginação é algo que sempre me surpreende! "Cenas da terra" é um escândalo!

Parabéns, querida!

Vinícius Paes disse...

Demais Adriana... mesmo. E que a terra engula todos.
(mas devolva Coltrane)haha



beijos.

Mirse disse...

Belíssimo , Adriana!

Sabe o que é sentir cada verso e ir ficando apavorada!

Realismo e lirismo da mais alta classe!

Henrique merece, nosso grande Bardo!

Parabéns, amiga!

Beijos

Mirse

Guru Martins disse...

ufa!
alguma coisa
de bom
tinha que
rolar
no fim
de tanta
loucura...
tu é uma boa
roteirista.

bj

Isabel Estercita Lew disse...

Adri, a imagem da terra vomitando seus mistérios, filhos, bichos, decadência, deuses e arte, depois de engolir tudo, é forte e crua demais, também a dos cães mastigando uma carne transparente sem saber se eram bichos ou gente. Gostei muito da crueza e da paixão de teu poema.
Muito bela a aquarela de teu filhote.

Beijooooooooo

Estercita

Hercília Fernandes disse...

Belíssimo, Adriana. Nem encontro palavras para externalizar o quanto seu texto é belo!

Intenso, paisagístico-humano, onírico. É como a Nina sa bia mente falou: "tudos".

Muito, muito bom mesmo, Godoy.

Bravíssimo!

Beijos :)
H.F.

Adriana Godoy disse...

C.D., que legal você ter se lembrado do urso. Obrigada pelas palavras.

Luciano, meu querido poeta, seu comentário é outra poesia. Beijo.

Lou, obrigada pela presença e comentário.

Taninha, gostei de sua percepção. Obrigada.

José Carlos, tudo é poesia mesmo? Obrigada pelo comentário.

Anita, adoro seus comentários. Sempre pertinentes e criativos. Beijo.

Galobbar, que bom que veio de novo. Sempre boa a sua visita. Beijinhos.

Cynthia, agradeço de novo seu texto e comentário. Obrigada pelo carinho. Bj

Aline, volte sempre. Obrigada.

Renata, gostei do escândalo. Obrigada e beijo.

Vinicius, sempre boa a sua presença. Beijão. Coltrane sempre.

Mirse, que bom seu comentário. Uma viagem. Obrigada mesmo. Bj

Guru, é bom receber você, mesmo que não seja com música. Obrigada pela "roteirista'.Bj

Isabel, gostei demais de suas palavras. Uma percepção e tanto. Volte sempre. Beijos

Hercília, você que é tudos. Sempre gentil. Beijo.

Tomaz disse...

Denso e mórbido... E pior: acima de tudo é, mesmo que estranhamente, bastante real !

beijão.

Joe_Brazuca disse...

Esses spots, que iluminam toda uma terra, criam sinergia e bailam interdependentes ao som de Coltrane...
Cinematográfico !...
Melhor descrição de nossos cotidianos,impossível...E ainda com um toque surreal mixado com uma pitada de João Cabral de M. Neto, à inexorabilidade do fim...

Muito bom, Poetisa ! ( o homenageado merece !)

um abraço
Joe

Adriana Godoy disse...

Tomaz, acho que é mesmo, estranhamente real. Gostei de seu comentário. Bj

Brazuca, que boa a sua visita e tão especial comentário, nem sei o que dizer, somente obrigada. Volte sempre. Bj

Renato Barros disse...

Essas cenas me tiraram do trabalho por alguns momentos e me dei conta da profundidade e ao mesmo tempo quase cotidianos versos. Que riqueza de imagens e a quantas indagações nos levam. Belíssim, Dri. Fiquei encantado. Beio enorme.
R.B.

Barone disse...

Apocalíptica.

Adriana Godoy disse...

Barone, exato. Bj

Mauro Lúcio de Paula disse...

Adriana,
estou sempre visitando o seu blogue, mas ainda não me sentia suficientemente capaz de comentar a sua poesia. A poesia feminina sempre é tão contundente, precisa e muito intimista. Falam sempre com a alma e o ventre. Os seus versos em forma poesia são dedicados a outréns e isso muito bacana demonstra quanto você rodeada de gente. É isso que eu quero dizer da sua poesia é sempre presente e cheia de presenças, de bichos e de natureza. A sua poesia é linda, é visceralmente viva, cheia de vida.
Gostaria ser o homenageado, não precisava ser bar, poderia ser buteco ou butequim (bricadeira!!!)
Parabéns,

Mauro Lúcio de Paula

Adriana Godoy disse...

Renato, adorei seu comentário e sua visita. Já tem um bom tempo, né? Beijo grande, querido.

Mauro, gostaria de homenagear a tantos poetas que admiro tanto, mas não é tarefa fácil, e nem sempre é possível. De qualquer modo, agradeço a sua visita e comentário e espero a sua volta. Obrigada mesmo. Beijo.

pianistaboxeador21 disse...

Desculpe a demora. Li, ainda volto pra comentar.

Beijo

tania não desista disse...

cada trecho um poema ...
cada elemento uma poesia...realismo
..seres vivos...humanos... bichos vorazes...ferozes ...música...feitiço...dormência...cruel e bela harmonia... muito bom!
e a linda aquarela ... me conduz de volta à tranquilidade

daufen bach. disse...

Adriana,

(John Coltrane...Jhony Casch...esses caras sao os caras...rs)

Bom, que doideira boa, gostosa essa!
estava lendo ontem noite sobre os poetas de da decada de 70, os ditas "poetas marginais", a poesia underground pichada, jogada no vento, nos mimeografos...afixadaa nos postes... uma galera para lá de animada, pessoal da Navilouca, Tropicalia, e eu fiquei pensando.. uma vontade danada de reunir os loucos de hoje, esses poetas de hoje, "marginais", que nao picham nos muros, mas enviam poesias nos bites e megabites...um trihão de nós existem. Comecei a pensar em alguns nomes que seriam "fora de série", ímpares... e tu encabeçava a lista...rs. (nao sei se isso é vantagem kkkkkkkkkk..).
Tua poesia sempre acorda um rebelde.

abraço terno a ti.

daufen bach.

Adriana Godoy disse...

Daniel, sem pressa, aguardo, saudade.

Tânia, que bom o seu comentário e o final " a linda aquarela me conduz de volta à tranquilidade". Adorei, volte sempre.

Daufen, pô, com um comentário desse, me sinto meio no ar, esse lance de poesia marginal...eu encabeçando a lista...nossa, assim é maldade, não mereço mesmo, mas gostei da ideia. "Tua poesia sempre acorda um rebelde"
bom demais.
Obrigada mesmo. Um beijo.