quinta-feira, fevereiro 12, 2009

Beco da Lua

um dia senti que aquele era o lugar
um beco com casas velhas e malcheirosas
que abria o seu sorriso para o mundo
um beco cujo cheiro de café
misturava-se ao cheiro das moças
que acabavam de ser possuídas

o Beco da Lua
era o nome escrito com letras exóticas
em uma placa iluminada
diferente do próprio lugar

o beco do mundo
em que cabiam
Terezas e Raimundos
Martas e Aparecidas
Antônios e Josés

eram a alma do beco
a música a lua o quintal
a terra a lama a chuva
as paixões os temporais

às vezes quando a lua
insistia em iluminar
viam-se rostos cansados e aflitos
olhos opacos e vazios
fantasmas pálidos e passivos

era o beco maldito
da miséria e do pecado
da luxúria e do abrigo
dos sonhos e dos perdidos
dos gatos e dos vadios
dos poetas e dos mendigos
dos bêbados e dos drogados
dos felizes e dos atirados
dos doutores e dos iletrados
dos caçadores e dos bandidos
das mulheres sem seus homens
dos sedentos de carinho

era o beco da lua
que sorria timidamente
para o outro lado da cidade
em busca de outros delírios
em busca de novos fantasmas



(Um dia tive um bar, era o Beco da Lua,
numa tarde chuvosa destruíram o beco e construíram um edifício de luxo no lugar.Dizem que até hoje muitos fantasmas da cidade rondam por ali procurando um abrigo)

26 comentários:

Guga Shultze disse...

Guga Schultze said...

Eu me lembro do beco e parece que era noite, sempre. Driaguiden, você morou lá, até. Isso é uma coisa que dá o que pensar. O poema está mais fiel que o deus dos crentes, está justo, repousando na memória como um gato no tapete. Os gatos não gostam de ser incomodados, gostam mais de incomodar. O poema é assim também, provoca a gente e a gente não pode fazer muita coisa com ele, só lembrar. Leva a gente longe.
Beijão, Guga.

Pano de Fundo disse...

Blogger Titi e Marina said...


Blogger Pano de Fundo said...

Dri,
concordo com tudo o que o Schultze diz aí do lado, e mais um pouco, porque apesar de ser o "beco" é um pouco a "favela" também...
Me rendo vou ser bloggueria pra poder dar palpite nos blogs d'ocês que estão demais...Melhor coisa é descobrir isso, que G não significa só música, quer dizer muito mais palavra!!!! E vcs sabem usá-la muito bem. Que o vô e a vó tejam conosco nessa viagem!!!!!!!!Bjos
Andrea

Tarcísio Buenas. disse...

fantasmas sem teto!

o beco da lua é dos meus, e esse blog também.

bj

BAR DO BARDO disse...

esse bar de beco parece comum ao mundo inteiro.

vc tem uma vertente marginal bem delícia...

agora entendo o gosto amargo que prefere café e cigarro pela manhã...

fiquei até meio spleen.

ui!

Hercília Fernandes disse...

Adriana,

deliciosamente forte, deixa-nos um travo gostoso no céu da boca. Parabéns!

Becos me trazem "boas" lembranças, pois morei parte da vida em um casarão antigo, ainda em mãos familiares, ao lado de um.

Neles sempre se pode encontrar muitas coisas, inclusive fantasmas, gatos pingados e luz néon...

Excelente texto, minha amiga. Gosto muito dessa sua literatura marginal, aquela que traz à tona os ratos escondidos no porão humano.

Bravo!

H.F.

Luciano Fraga disse...

Lindo, adoro becos e botecos, meus fantasmas sempre se divertem por lá, sentem-se em casa e voltam sempre comigo, abraço.

pianistaboxeador21 disse...

Com certeza, eu tb teria passado por lá, pelo beco da lua.
É difícil suportar tantos edifícios.
Cada vez nos empurram mais pra longe, um dia cairemos do planeta.
é certo que há uma guerra e que estamos perdendo a guerra, Van gogh está aí pra provar, se fodeu a vida toda e hj empresta seu nome aos clientes mais abastados de um banco.

Beijo,

Daniel

Ca:mila disse...

excelente poema!

gosto do ritmo e das imagens apresentadas aqui,

há bares que vêm pra bem


beijos

Anita Mendes disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Anita Mendes disse...

me imagino sentada e passiva admirando as personagens que por ali poderiam passar como em frente da tela do cotidiano, trocando de canal em tragos brutos.
todos becos tem historias pra contar, mas nem todos tem uma lua. um abraco, Anita.

Marcia Barbieri disse...

Muito bom, me senti no beco da lua,no beco do mundo...


beijos ternos

Thaís Nóbrega disse...

sempre adoro as tuas coisas.

:)

nina rizzi disse...

eu gostava muito de conhecer. seria mais um recanto marginal. êba.

V.M.Paes disse...

Adorei caminhar pelo beco através de suas palavras. Texto Fantástico.

bj.

Bob disse...

Ola, tudo bem.Adorei seu blog, vamos fechar parceria, com troca de links ou banners?aguardo resposta.Um super abraço.

http://poemasepoesias-blog.blogspot.com/

Tomaz disse...

Me deu até vontade de tomar um trago no Beco da Lua após essa leitura, ou então um bom café, sentindo o cheiro das moças...O lugar fica no passado, mas a energia dos fatos ali acontecidos, paira no ar...Muito Bom !
Abraços.

Bernardo Sampaio disse...

Muito bom esse teu poema. Uma leitura que nos transporta diretamente a esse beco da lua. Adorei os poucos textos q vi aqui.
Voltarei mais vezes.

:*

Adriana disse...

um beco de lua,um bico de Adriana,belo poema.

Guru Martins disse...

..."Beco da Lua"
Avenida do contorno/BH
árvore esplêndida
reinando no centro do pátio
aconchegancia e galera encantada...
ali comi um mexidão providencial
na madrugada com Maurício Tizumba
depois de um espetáculo
no Palácio das Artes...
eh, voce tem muito o que contar
conte menina, conte...

bj

Compulsão Diária disse...

Nos becos de lua, das garrafas, verdadeiras rotas de fuga para a solidão nas cidades.
Meus becos . Vico d`o Scunizio siciliano. Beco dos moleques de rua.

Barone disse...

Beleza de poema.

Lou disse...

Beco e poesia... dupla instigante! Belo poema, Adrina!

Adorei o espaço.

Abraços,
Lou

Cunhadão disse...

Engraçado lembrar disso: qd eu tinha uns 15 anos de idade saí de uma festa e fui me encontrar com o Marcelo, meu irmão lá no "Beco da rua", ele trabalhava com o Henrique e ia lá pra tomar umas, tocar violão e todas essa coisas típicas da histórias da sua família. Me lembro q fique na porta um tempão esperando por ele já q ele me recomendou mil vezes q eu não deveria entrar pq menores não podiam entrar...claro q hj sei q não era isso já q na época a coisa não era tão cobrada como hj. Mas a lembrança ficou marcada pra sempre, a rua, o beco, a dúvida, a curiosidade.... hj acho graça de saber q 9 anos depois eu estaria casada com os irmãos do dono do bar. Coisas da vida...

Cunhadão disse...

kkkk, os irmãos do dono do bar não: com o irmão dos donos do bar, agora sim, kkkkk
bj

Cosmunicando disse...

adorei isso... povoado de imagens meio submundo, ficou fantástico.
bjos

Carlota Joaquina disse...

Um dia fui encontrar com meu irmão, o Marcelo, que tava lá no beco da Lua, e quando cheguei na entrada do beco, ele já tava lá me esperado...nem me deixou entrar, kkkkkk, ele ainda tinha esperança de me poupar de algumas dessas influências todas, rs.....um pena, pq menos de dez anos depois acabei encontrando todos vcs, mas o beco já tinha virado esse prédio de luxo cheio de fantasmas....