domingo, agosto 28, 2005

ELES

imagem do google
No dia em que estava acorrentada
aos pés da mesa de meu pai
Vieram todos eles
De uma só vez e sussuraram maldições

Vieram todos de uma só vez
Nenhuma pena tiveram
Vociferavam palavrões
Diziam coisas impróprias
Não ligaram para os meus olhos
Não ligaram para meu choro mudo

Acorrentada ainda estava
E dançavam à minha volta
Mostravam seus corpos nus e retorcidos
E quase ingênuos e quase maus
Deliravam em seu êxtase

Falavam línguas estranhas
E exibiam sua enormes línguas
Viscosas e vermelhas
Às vezes as tocavam em mim
E eram quentes
E eram úmidas

Ainda acorrentada
Ainda atormentada
Vi pouco a pouco
Todos eles indo em direção à porta
Que estava entreaberta

E fugiam delicadamente
Saíam em harmonia
E eu ali acorrentada
E eu ali apavorada

E quando meu pai chegou
Abriu o cadeado
E me soltou das correntes
Perguntou:
"Está com fome, menina?"

Nenhum som saiu de minha garganta

Ele pegou o chicote
E me deu algumas chibatadas
E me disse: "Faço isso para o seu bem"

Respondi docilmente:
Sim, meu pai
E fiquei olhando aquela porta
Esperando que eles voltassem

E de novo meu pai saiu
E de novo me acorrentou
Mas nunca mais eles vieram
Nunca mais ouvi as suas línguas

Estava finalmente amaldiçoada
A solidão para sempre
Apenas um som
A voz de meu pai
Que perguntava sempre:

"Está com fome, menina?"

E eu disse naquele dia:
"Sim, meu pai"
Ele guardou o chicote
E vi em seus lábios
Um ligeiro sorriso

( texto escrito há mais tempo)

4 comentários:

Lucinana disse...

Tô achando, Driaguida, que nossa família tem tantos talentos ocultos, que deveríamos reunirmo-nos, e desocultá-los todos....Não esperava menos de vc...Qdo vim aqui, sabia q iria encontrar algo de acordo com sua verve, mesmo....ou seja...esplendorosa..

Luisa disse...

Dri, achei bom e forte. Transmite um clima pesado, pisado, pesadelo. A imagem fica na nossa cabeça. Mais que a imagem, o clima. Beijo.

Guga Schultze disse...

Ei, Dri. Você é uma santa apocalíptica, uma profetisa das profundas, uma quiromante dos quintos dos infernos, todos os infernos e paraísos reunidos num só caldeirão sem fundo, ou algo assim. Esse poema do Eles é calafrio puro. Quem são eles? A gente pergunta mas, no fundo, a gente sabe a resposta (mas não pode dizer por que ela não sai da boca). Jê sui gostê avec toi. Jê sui gostê avec le poemá. Jê sui gostê avec vus avon escrevê les beles poemás pour mon coraçon. Beijos do Guga.

Carla Godoy disse...

De todos, talvés seja este o meu preferido...talvés!

bj Cunhadão