quinta-feira, maio 29, 2014

a cidade é outra

visto de cinza a cidade
as ruas têm prédios demais
e  não se cansam de criar outros a cada dia
as britadeiras perfuram minha cabeça
 escondem as sirenes e buzinas
os gritos dos gatos o canto dos bêbados
as construções apagam a lua
  espantam o vento
 silenciam os poetas
as montanhas são dilaceradas dinamite e cimento
a cidade que era minha
vai embora de mim
espalha pó nos cabelos embaça meus olhos
e deixa um gosto estranho na saliva
a cidade é outra
eu sou outra
mas ainda posso ver através da fumaça do cigarro
um sol pálido que começa a nascer

segunda-feira, abril 28, 2014

dias doces







arte: rascunho para tela/ rafael godoy
                                           
                                               queria ser o que não fui
mas sou o passado
com o corpo podre e gasto

ainda gosto de abrir a janela
e sentir as manhãs frias de abril
me batendo na cara, nos cabelos
e ver meus gatos brincando no sol


ainda posso ouvir os stones
dylan miles tom e chico no sofá de casa
fumar o meu cigarro sem grilhões
e beber meu vinho sossegadamente

parece que o caminho para a morte
pode ser mais doce em dias como esses

segunda-feira, abril 14, 2014

apelo



arte: rafael godoy

traz para mim os dias que não vivi
todas as noites perdidas
e o sorriso que não tenho mais

vai lá e busca o que me cure
sem que doa ou que arda
apenas que alivie

encontre o que deixei cair na estrada
os poemas esquecidos nas gavetas
e as músicas que não ouço mais

molhe os pés no mar
porque aqui só há montanhas
e jogue uma flor pra iemanjá

deixe seu cheiro espalhado
compre uma garrafa de champanhe
velas amarelas e incensos de baunilha

estou aqui do outro lado e juro
tem uma lua enorme no céu da cidade

sábado, março 22, 2014

marcha à ré

eles estão voltando e vão marchar pela volta da ditadura, pela volta da mais terrível desigualdade social, pela volta da tortura nos porões sujos da repressão. eles vão continuar perseguindo gays, negros, pobres que julguem suspeitos ou qualquer um que pareça comunista ou revolucionário. eles vão marchar em nome de deus, em nome da família e vão amarrar nossas conquistas e nossos sonhos nos postes e vão querer escarrar na nossa cara e vão querer nos chutar, espancar, nos virar de cabeça pra baixo e prender nossa voz , vão querer que os excluídos continuem excluídos e vão massacrar os nordestinos, os desvalidos, os miseráveis. eles não vão deixar que o porteiro que trabalha em seu condomínio viaje no mesmo avião que eles, não vão repartir o bolo, vão se lambuzar só eles e varrer a sujeira pra debaixo do tapete. eles estão voltando e minha angústia, o meu espanto, e a minha indignação também. eles vão queimar os livros que achem perigosos e invadir os computadores e fazer uma grande fogueira. aí, meu amigo, os demônios virão e se sentirão em casa. e vão dançar sobre nossos corpos feridos, vão pisotear nossos cadáveres e vomitar na nossa cara. e então eles dirão que fizeram justiça e vão lamber as mãos sujas dos generais. fiquemos atentos, há muitos lobões azedos, azeredos e azevedos. há muitos jabores, garcias , castanhedes e mainards. há muitas sherazades, leitão e leitoas enfurecidas. fiquemos atentos, olhos, ouvidos e corações alertas. ainda há esperança, ainda há a poesia, a arte, a música e há um país e um sonho que não podemos esquecer nunca. fiquemos atentos. muito atentos.

sexta-feira, março 21, 2014

em que mares?

em que mares, em que ruas, em que partes mais remotas do mundo você se escondeu?
há quantas andam suas ideias de como seria o mundo ou o fim dele?
o mundo não acabou, você não acabou e eu estou acabada
quase morta
em que sonhos se meteu que eu não estou neles?
ficava te olhando como vendo um filme
e quando você dava o primeiro trago era um delírio
e eu ia olhando a fumaça como um incenso mágico
e eu ia te vendo como um deus na neblina
agora vem uma tristeza lá do fundo e eu não consigo mais lembrar
nem pensar que você não vem mais

quinta-feira, março 20, 2014

saturno


saturno na lente mágica
as retinas prenhas
os anéis que tu me deste
nesta noite clara
não eram de vidro
mas quebraram a monotonia
e me tornaram por um segundo
a noiva do universo

terça-feira, fevereiro 25, 2014

só assim





 

aquela hora fazia pensar mais.
não sabia por que, quando o dia anoitecia, uma angústia louca tomava seu peito com força.
ficou por uns bons momentos olhando o pôr-do-sol, olhando a sombra de um  pássaro na luz quase morta da tarde.
e cada vez mais queria que tivesse só a noite, só o escuro, só o som das pessoas indo embora ou entrando nos bares.
e cada vez mais queria que ela aparecesse no meio da escuridão e lhe dissesse que estava tudo bem, que essa sensação iria passar. 
queria que ela mexesse em seus cabelos e que ele pudesse enfiar a cara nos seus peitos e sentir o perfume que não sentia há muito tempo.  
queria que ela falasse do último filme que viu e da música que  ela gostava de dançar.
queria que ela bebesse com ele até a última gota e o seduzisse de todas as maneiras, mesmo que fosse mentira, mesmo que fosse só nesse fim de tarde.
só assim ele teria um pouco de paz, só assim ele não teria que fechar as cortinas todas as manhãs até que finalmente a noite viesse.

quarta-feira, fevereiro 19, 2014

há um clima de conspiração nos rodeando. há uma torcida pra que tudo dê errado no país. há a pressão dos eua pra não deixar o país respirar sem seus grilhões. há a intenção clara e forte de desmoralizar a venezuela, cuba e todos que ousam enfrentar o tio sam. há uma corrente do mal à direita e dos desavisados que têm orgasmos múltiplos cada vez que uma notícia alarmante chega na grande mídia. há os que clamam por um governo militar, que têm saudade dos generais. há os que vomitam sua (in)verdades na nossa cara todos os dias, todos os minutos e têm como seus arautos mainards, reinaldos azevedos, datenas, boners e jabores. há os que clamam por prender os corruptos quando eles se corrompem todos os dias, nas coisas mais triviais. há os que defendem o uso da tortura e de violência contra os ladrões nossos de cada dia, mesmo que seja por milícias ou grupos de justiceiros de classe média alta. há os que defendem a pena de morte. há os que pregam em nome de jesus e se lambuzam nos preconceitos, subornos, humilhações, promiscuidades e roubam dos ignorantes o pouco que têm.
mas há ainda os que acreditam que dias melhores virão, que é possível um país, que é possível acreditar. e eu quero estar no meio deles.

segunda-feira, fevereiro 10, 2014

esse dia de verão



o peso do sol nas ruas
o  cheiro da chuva que nunca vem
o despertar involuntário 
o gosto do café rápido na língua
a vida esquecida em alguma esquina
o dia escorrendo pelos olhos 
o sangue secando lentamente
o coração sempre no mar
o pôr-do-sol como um inferno indo embora



sexta-feira, dezembro 27, 2013

como um trem





tem aquela sensação de que o ano novo não seja tão novo e que tudo vai ficar do jeito de sempre. tem aquela esperança de que algo mude no planeta. tem a manhã em que você acorda e acredita que tudo pode dar certo. tem um aperto no peito quando você pensa em coisas ruins que podem acontecer com as pessoas mais queridas. tem uma alegria genuína quando você sabe que vai encontrar alguém que te faz tanta falta. tem uma tristeza latente quando você vê a desumanidade cravejada todo dia na sua cara. tem aquele medo de pensar que você pode ser feliz de verdade e de que isso não seja verdade. tem uma  frase que você lê ou um poema que te fazem ganhar o dia. tem um sonho escondido debaixo do travesseiro. tem a vida que está batendo na sua porta mas você não deixa entrar. tem uns olhos e um sorriso que você nunca esquece. tem a cerveja que você toma com os amigos. tem a música que você ouve e o vento na janela. tem aquela vontade de que o ano novo seja verdadeiramente lindo como um trem que se movimenta tranquilo e furioso sobre os velhos trilhos.

sábado, dezembro 21, 2013

desenho: carcarah

de noite veio um bêbado
andando no meio da rua escura e chuvosa
trombou numa árvore enfeitada de luzes de natal
ficou olhando aquele pisca-pisca
e imaginou na sua garrafa uísque bom quando era pinga ruim

pensou que tivesse em outro país
começou a cantar em inglês uma velha canção
viu neve onde havia chuva fina
um cão perdido de rua era sua rena
adormeceu sorrindo
e de manhã já era natal

sexta-feira, dezembro 13, 2013

nem que seja por um breve momento

arte: ricardo ferrari
dei de ser melancólica perto do natal
e eu que fugia disso terrivelmente
me vejo postando músicas e poemas para amigos
como se uma árvore de natal inteira
tivesse atravessado minha garganta
eu que odeio papai noel e shoppings
me vejo com um sentimento contaminado
e impróprio
mas querendo imensamente
que todos os meus amigos e minha família
sejam imensamente inundados
nem que seja por um breve momento
de uma alegria incomensurável
como se uma uma dose gigante de morfina
tivesse se espalhado fortemente
em seus corações

(embora republicado, continua valendo)

terça-feira, novembro 26, 2013

enquanto dorme



                                                               arte: rafael godoy                                                       


enquanto dorme
um homem se atira do oitavo andar do prédio ao lado
um cão perdido procura abrigo
dois carros capotam na estrada
e alguns pardais tomam banho na água suja

enquanto dorme
a chuva cai e estende suas mão úmidas
nas ruas e no rosto das pessoas
e minha juventude escorre
pelos bares sujos da cidade

enquanto dorme
me deito ao seu lado
e olho para o seu rosto calmo e sereno
calmo e sereno

sábado, novembro 09, 2013

você nem sabe


você nem sabe que gosto de capuccino com creme
depois pitar um cigarro olhando a tarde
nem que grito e choro quando meu time joga
nem de quando me levanto de madrugada para ver a noite ir embora
e depois fechar a persiana para dormir de novo com o sol lá fora
não sabe que gosto da noite da lua
do vento que sopra do outro lado da cidade
nem que gosto da cidade e das montanhas
não sabe que gosto de conversar sobre o planeta e as pessoas
e da música do clube da esquina
nem que gosto de tomar cerveja com velhos amigos
e saber que vale a pena
dos gatos que ficam por aqui e sempre me observam
nem sabe do poema que fiz quando olhei para os seus olhos
e que joguei fora- vômito saindo da garganta
não sabe que seu cheiro está em meu corpo
como ferroada de marimbondo bravo
não sabe que depois de ontem
me dissolvi como açúcar no café quente
e ainda estou aqui ao lado do telefone

( publicado no livro: Maria Clara: Universos Femininos)

sábado, novembro 02, 2013

por ali


(para o vu que se foi em 10/06/2009)

caminhei por ali onde um amigo dos mais queridos
acabava de ser enterrado e o céu estava nublado
um vento frio entrava nas frestas da roupa

fiquei olhando aquele lugar cheio de árvores e um lago quase azul
e olhei os nomes de quem já estava debaixo da terra úmida
e pensei em cada nome que li e nas pessoas que poderiam ter sido

olhei a terra mexida e cheia de flores em cima do cimento
e sabia que ele estava ali com o corpo frio
e não queria pensar nele debaixo da terra

me lembrei de quando viajamos
das cervejas que tomamos e das músicas que cantamos
dos lugares e das pessoas
de como era bom estar do seu lado mesmo em silêncio
nos risos cúmplices e nos momentos de raiva
de como implicava comigo quando eu derrubava alguma coisa
ou trocava as palavras de um jeito distraído
e quando ele fazia palhaçadas e ria de si mesmo e do mundo

me lembrei de sua família perdida sem sua presença
dos filhos sem pai e do fogão a lenha

me lembrei de uma vida inteira com sua voz sua música sua dança
de um dia quando saímos de manhã e voltamos só de madrugada
e das longas conversas sobre a vida essa mesma vida que ele perdeu
e de deus de sentidos de indagações de confidências de perplexidades

caminhei por ali e pensei que ele estava debaixo da terra
e não queria pensar nisso
já era noite e os faróis dos carros brilhavam
no céu nublado somente uma estrela
e na terra um cheiro de flores

(publicado em junho de 2009)

quarta-feira, outubro 23, 2013

tá difícil, cara. quando esse sol mais quente que sua cama não deixa você dormir. tá foda ficar pensando em um tanto de coisa que você não queria. e ficar puta com tanta gente falando merda e sabendo que ninguém vai te entender. tá foda saber que ninguém percebe que você só quer poder ficar com a cabeça quase vazia, sem pensar nessa vida com tanta desgraça alheia. que você só quer poder olhar as coisas de um jeito mais otimista, mas quando você sai de casa  vê um cachorro todo ferido tentando achar algo pra comer ou beber, que mesmo assim abana o rabo quando você passa e te segue pra nenhum lugar. que na esquina tem um  bêbado de ontem dizendo que o mundo já acabou só que ninguém percebeu. você quer ser otimista e sente que não pode sonhar mais. e sente que não acredita mais em quase nada. aí faz força pra seguir e pensar que a vida é essa coisa assim meio esquisita, meio sacana, mas que tem muitas coisas boas. que você pode ainda esperar a chuva e deixar que ela limpe um pouco a cidade e a sua alma. que tem amigos. que tem um amor que talvez possa tá te esperando em algum lugar.

quinta-feira, outubro 17, 2013

depois de toda essa discussão sobre biografia autorizada ou não, chego à conclusão de que muita gente simplesmente esquece o que esses caras fizeram, esquece sua arte, seu talento e a enorme contribuição que deram pro país. sou contra biografia autorizada, censura prévia, acho que perde a força, fica capenga, unilateral, mas, mesmo com a antipatia e desconfiança que tenho pela paula lavigne , acho que caras como chico, caetano, gil, milton e outros têm o direito de se posicionarem . isso decepciona muitos, isso me decepciona, mas não pode, definitivamente, fazer que toda arte e história deles sejam jogadas no lixo, que eles sejam fuzilados no paredão da ignorância. os velhos gagás(como muitos os chamam) são parte de uma história que não podemos esquecer nunca. e vou continuar a ouvir e gostar de chico até morrer e quando ele diz que é contra alguma coisa, no mínimo, temos que pensar sobre.

sábado, outubro 12, 2013

você acorda e pensa num modo mais fácil de não pensar que o dia poderá ser uma merda. você acorda e não quer esse frio invadindo o seu corpo nem esse sol feio nesse céu indefinido de quase chuva. olha pro lado, faz um café, dá uma ajeitada na casa, põe água e comida pros gatos, come uma fruta. fuma o primeiro cigarro. ouve a primeira música. liga o computador e não tem nada de muito novo. quando percebe, tá na hora do almoço e nenhuma fome, mas você tem que comer. você tem que sair e fazer as coisas na rua. tem que trabalhar, fazer sacolão, conversar um pouco com o vizinho. tem que saber da mãe, dos irmãos, dos filhos. tem que se inteirar das notícias do mundo e pensar que o mundo é isso. não se incomodar com a evangélica moralista pseudoambientalistahonesta que se une aos ruralistas, nem com o ódio da mídia conservadora e muito menos com o assalto que acabou de acontecer na esquina. tem que esquecer da briga com sua amiga, da desesperança na educação, da noite que escapou por entre os dedos. você olha e vê a vida quase como uma repetição. você pensa e quase não vê sentido nessa coisa toda. aí, de repente, pensa nos amigos distantes, na cerveja gelada, naquele dia na praia, lê alguns versos de seu poeta preferido, vê a planta na área que cresceu muito da noite pro dia e o seu gato esticado com a barriga pra cima tentando driblar o tédio. lembra dos filhos e de como são bacanas e bonitos. você entra no banho e a água e o sabonete parecem limpar sua alma. o dia pode não ser mais uma merda. e ainda tem a noite.

(republicado com pequenas alterações)

segunda-feira, outubro 07, 2013

anjo caído

arte: rafael godoy

Ele entrou e disse que estava frio lá fora. Bebeu o café quase frio e acendeu um cigarro. Disse que aquele dia tinha visto algumas pessoas estranhas que o seguiam. Jurou que não era paranoia. Perguntou sobre os gatos e se esticou no sofá. Falou sobre o possível apocalipse mas disse que não acreditava em anjos. Elogiou a música que tocava, acho que Coltrane, e falou que nesse momento vinha uma paz quase inevitável ou que a vida tinha algum sentido. Pediu pra eu soltar os cabelos e sentir o cheiro do xampu que gostava. E ainda, com voz baixa e com os braços fortes, me puxou para o seu lado e me deu um beijo longo e forte. Sua boca tinha gosto de menta, provavelmente, alguma bala ou chiclete para tirar o gosto do cigarro. Estava intensamente sensual, com os cabelos despenteados e cheiro de chuva. Dormi em seus braços e quando acordei já tinha ido embora. Ele era assim, aparecia em qualquer hora, dizia coisas sem sentido ou ficava preso em seu silêncio. Eu entendia esse homem de poucas palavras e gestos definitivos. E ele sabia disso. Talvez fosse ele um anjo caído por acaso em minha vida.

( republicado, a falta de inspiração continua )





sexta-feira, outubro 04, 2013

quando a escuridão




a luciano fraga
arte: carcarah

quando a escuridão parece mais escura que é
e você está no meio do mar em um pequeno bote
vê uma mancha preta maior que a escuridão
pensa que não haverá mais jeito
desta vez não tem saída
então olha para cima e não vê estrelas
olha para baixo as águas são geladas e negras
você ali no pequeno bote
no meio daquele oceano imenso e gelado
sem tempo sem brisa sem cor sem som
e aparecem uns olhos esverdeados
que brilham e não são estrelas
são maiores que a escuridão e o frio
e você se agarra a eles a seu brilho
você acorda em sua cama e uns olhos verdes escuros
mais escuros que aquelas águas te olham
então você dorme e quase sonha quase se esquece
e quase pensa que está salvo