sexta-feira, março 21, 2014

em que mares?

em que mares, em que ruas, em que partes mais remotas do mundo você se escondeu?
há quantas andam suas ideias de como seria o mundo ou o fim dele?
o mundo não acabou, você não acabou e eu estou acabada
quase morta
em que sonhos se meteu que eu não estou neles?
ficava te olhando como vendo um filme
e quando você dava o primeiro trago era um delírio
e eu ia olhando a fumaça como um incenso mágico
e eu ia te vendo como um deus na neblina
agora vem uma tristeza lá do fundo e eu não consigo mais lembrar
nem pensar que você não vem mais

quinta-feira, março 20, 2014

saturno


saturno na lente mágica
as retinas prenhas
os anéis que tu me deste
nesta noite clara
não eram de vidro
mas quebraram a monotonia
e me tornaram por um segundo
a noiva do universo

terça-feira, fevereiro 25, 2014

só assim





 

aquela hora fazia pensar mais.
não sabia por que, quando o dia anoitecia, uma angústia louca tomava seu peito com força.
ficou por uns bons momentos olhando o pôr-do-sol, olhando a sombra de um  pássaro na luz quase morta da tarde.
e cada vez mais queria que tivesse só a noite, só o escuro, só o som das pessoas indo embora ou entrando nos bares.
e cada vez mais queria que ela aparecesse no meio da escuridão e lhe dissesse que estava tudo bem, que essa sensação iria passar. 
queria que ela mexesse em seus cabelos e que ele pudesse enfiar a cara nos seus peitos e sentir o perfume que não sentia há muito tempo.  
queria que ela falasse do último filme que viu e da música que  ela gostava de dançar.
queria que ela bebesse com ele até a última gota e o seduzisse de todas as maneiras, mesmo que fosse mentira, mesmo que fosse só nesse fim de tarde.
só assim ele teria um pouco de paz, só assim ele não teria que fechar as cortinas todas as manhãs até que finalmente a noite viesse.

quarta-feira, fevereiro 19, 2014

há um clima de conspiração nos rodeando. há uma torcida pra que tudo dê errado no país. há a pressão dos eua pra não deixar o país respirar sem seus grilhões. há a intenção clara e forte de desmoralizar a venezuela, cuba e todos que ousam enfrentar o tio sam. há uma corrente do mal à direita e dos desavisados que têm orgasmos múltiplos cada vez que uma notícia alarmante chega na grande mídia. há os que clamam por um governo militar, que têm saudade dos generais. há os que vomitam sua (in)verdades na nossa cara todos os dias, todos os minutos e têm como seus arautos mainards, reinaldos azevedos, datenas, boners e jabores. há os que clamam por prender os corruptos quando eles se corrompem todos os dias, nas coisas mais triviais. há os que defendem o uso da tortura e de violência contra os ladrões nossos de cada dia, mesmo que seja por milícias ou grupos de justiceiros de classe média alta. há os que defendem a pena de morte. há os que pregam em nome de jesus e se lambuzam nos preconceitos, subornos, humilhações, promiscuidades e roubam dos ignorantes o pouco que têm.
mas há ainda os que acreditam que dias melhores virão, que é possível um país, que é possível acreditar. e eu quero estar no meio deles.

segunda-feira, fevereiro 10, 2014

esse dia de verão



o peso do sol nas ruas
o  cheiro da chuva que nunca vem
o despertar involuntário 
o gosto do café rápido na língua
a vida esquecida em alguma esquina
o dia escorrendo pelos olhos 
o sangue secando lentamente
o coração sempre no mar
o pôr-do-sol como um inferno indo embora



sexta-feira, dezembro 27, 2013

como um trem





tem aquela sensação de que o ano novo não seja tão novo e que tudo vai ficar do jeito de sempre. tem aquela esperança de que algo mude no planeta. tem a manhã em que você acorda e acredita que tudo pode dar certo. tem um aperto no peito quando você pensa em coisas ruins que podem acontecer com as pessoas mais queridas. tem uma alegria genuína quando você sabe que vai encontrar alguém que te faz tanta falta. tem uma tristeza latente quando você vê a desumanidade cravejada todo dia na sua cara. tem aquele medo de pensar que você pode ser feliz de verdade e de que isso não seja verdade. tem uma  frase que você lê ou um poema que te fazem ganhar o dia. tem um sonho escondido debaixo do travesseiro. tem a vida que está batendo na sua porta mas você não deixa entrar. tem uns olhos e um sorriso que você nunca esquece. tem a cerveja que você toma com os amigos. tem a música que você ouve e o vento na janela. tem aquela vontade de que o ano novo seja verdadeiramente lindo como um trem que se movimenta tranquilo e furioso sobre os velhos trilhos.

sábado, dezembro 21, 2013

desenho: carcarah

de noite veio um bêbado
andando no meio da rua escura e chuvosa
trombou numa árvore enfeitada de luzes de natal
ficou olhando aquele pisca-pisca
e imaginou na sua garrafa uísque bom quando era pinga ruim

pensou que tivesse em outro país
começou a cantar em inglês uma velha canção
viu neve onde havia chuva fina
um cão perdido de rua era sua rena
adormeceu sorrindo
e de manhã já era natal

sexta-feira, dezembro 13, 2013

nem que seja por um breve momento

arte: ricardo ferrari
dei de ser melancólica perto do natal
e eu que fugia disso terrivelmente
me vejo postando músicas e poemas para amigos
como se uma árvore de natal inteira
tivesse atravessado minha garganta
eu que odeio papai noel e shoppings
me vejo com um sentimento contaminado
e impróprio
mas querendo imensamente
que todos os meus amigos e minha família
sejam imensamente inundados
nem que seja por um breve momento
de uma alegria incomensurável
como se uma uma dose gigante de morfina
tivesse se espalhado fortemente
em seus corações

(embora republicado, continua valendo)

terça-feira, novembro 26, 2013

enquanto dorme



                                                               arte: rafael godoy                                                       


enquanto dorme
um homem se atira do oitavo andar do prédio ao lado
um cão perdido procura abrigo
dois carros capotam na estrada
e alguns pardais tomam banho na água suja

enquanto dorme
a chuva cai e estende suas mão úmidas
nas ruas e no rosto das pessoas
e minha juventude escorre
pelos bares sujos da cidade

enquanto dorme
me deito ao seu lado
e olho para o seu rosto calmo e sereno
calmo e sereno

sábado, novembro 09, 2013

você nem sabe


você nem sabe que gosto de capuccino com creme
depois pitar um cigarro olhando a tarde
nem que grito e choro quando meu time joga
nem de quando me levanto de madrugada para ver a noite ir embora
e depois fechar a persiana para dormir de novo com o sol lá fora
não sabe que gosto da noite da lua
do vento que sopra do outro lado da cidade
nem que gosto da cidade e das montanhas
não sabe que gosto de conversar sobre o planeta e as pessoas
e da música do clube da esquina
nem que gosto de tomar cerveja com velhos amigos
e saber que vale a pena
dos gatos que ficam por aqui e sempre me observam
nem sabe do poema que fiz quando olhei para os seus olhos
e que joguei fora- vômito saindo da garganta
não sabe que seu cheiro está em meu corpo
como ferroada de marimbondo bravo
não sabe que depois de ontem
me dissolvi como açúcar no café quente
e ainda estou aqui ao lado do telefone

( publicado no livro: Maria Clara: Universos Femininos)

sábado, novembro 02, 2013

por ali


(para o vu que se foi em 10/06/2009)

caminhei por ali onde um amigo dos mais queridos
acabava de ser enterrado e o céu estava nublado
um vento frio entrava nas frestas da roupa

fiquei olhando aquele lugar cheio de árvores e um lago quase azul
e olhei os nomes de quem já estava debaixo da terra úmida
e pensei em cada nome que li e nas pessoas que poderiam ter sido

olhei a terra mexida e cheia de flores em cima do cimento
e sabia que ele estava ali com o corpo frio
e não queria pensar nele debaixo da terra

me lembrei de quando viajamos
das cervejas que tomamos e das músicas que cantamos
dos lugares e das pessoas
de como era bom estar do seu lado mesmo em silêncio
nos risos cúmplices e nos momentos de raiva
de como implicava comigo quando eu derrubava alguma coisa
ou trocava as palavras de um jeito distraído
e quando ele fazia palhaçadas e ria de si mesmo e do mundo

me lembrei de sua família perdida sem sua presença
dos filhos sem pai e do fogão a lenha

me lembrei de uma vida inteira com sua voz sua música sua dança
de um dia quando saímos de manhã e voltamos só de madrugada
e das longas conversas sobre a vida essa mesma vida que ele perdeu
e de deus de sentidos de indagações de confidências de perplexidades

caminhei por ali e pensei que ele estava debaixo da terra
e não queria pensar nisso
já era noite e os faróis dos carros brilhavam
no céu nublado somente uma estrela
e na terra um cheiro de flores

(publicado em junho de 2009)

quarta-feira, outubro 23, 2013

tá difícil, cara. quando esse sol mais quente que sua cama não deixa você dormir. tá foda ficar pensando em um tanto de coisa que você não queria. e ficar puta com tanta gente falando merda e sabendo que ninguém vai te entender. tá foda saber que ninguém percebe que você só quer poder ficar com a cabeça quase vazia, sem pensar nessa vida com tanta desgraça alheia. que você só quer poder olhar as coisas de um jeito mais otimista, mas quando você sai de casa  vê um cachorro todo ferido tentando achar algo pra comer ou beber, que mesmo assim abana o rabo quando você passa e te segue pra nenhum lugar. que na esquina tem um  bêbado de ontem dizendo que o mundo já acabou só que ninguém percebeu. você quer ser otimista e sente que não pode sonhar mais. e sente que não acredita mais em quase nada. aí faz força pra seguir e pensar que a vida é essa coisa assim meio esquisita, meio sacana, mas que tem muitas coisas boas. que você pode ainda esperar a chuva e deixar que ela limpe um pouco a cidade e a sua alma. que tem amigos. que tem um amor que talvez possa tá te esperando em algum lugar.

quinta-feira, outubro 17, 2013

depois de toda essa discussão sobre biografia autorizada ou não, chego à conclusão de que muita gente simplesmente esquece o que esses caras fizeram, esquece sua arte, seu talento e a enorme contribuição que deram pro país. sou contra biografia autorizada, censura prévia, acho que perde a força, fica capenga, unilateral, mas, mesmo com a antipatia e desconfiança que tenho pela paula lavigne , acho que caras como chico, caetano, gil, milton e outros têm o direito de se posicionarem . isso decepciona muitos, isso me decepciona, mas não pode, definitivamente, fazer que toda arte e história deles sejam jogadas no lixo, que eles sejam fuzilados no paredão da ignorância. os velhos gagás(como muitos os chamam) são parte de uma história que não podemos esquecer nunca. e vou continuar a ouvir e gostar de chico até morrer e quando ele diz que é contra alguma coisa, no mínimo, temos que pensar sobre.

sábado, outubro 12, 2013

você acorda e pensa num modo mais fácil de não pensar que o dia poderá ser uma merda. você acorda e não quer esse frio invadindo o seu corpo nem esse sol feio nesse céu indefinido de quase chuva. olha pro lado, faz um café, dá uma ajeitada na casa, põe água e comida pros gatos, come uma fruta. fuma o primeiro cigarro. ouve a primeira música. liga o computador e não tem nada de muito novo. quando percebe, tá na hora do almoço e nenhuma fome, mas você tem que comer. você tem que sair e fazer as coisas na rua. tem que trabalhar, fazer sacolão, conversar um pouco com o vizinho. tem que saber da mãe, dos irmãos, dos filhos. tem que se inteirar das notícias do mundo e pensar que o mundo é isso. não se incomodar com a evangélica moralista pseudoambientalistahonesta que se une aos ruralistas, nem com o ódio da mídia conservadora e muito menos com o assalto que acabou de acontecer na esquina. tem que esquecer da briga com sua amiga, da desesperança na educação, da noite que escapou por entre os dedos. você olha e vê a vida quase como uma repetição. você pensa e quase não vê sentido nessa coisa toda. aí, de repente, pensa nos amigos distantes, na cerveja gelada, naquele dia na praia, lê alguns versos de seu poeta preferido, vê a planta na área que cresceu muito da noite pro dia e o seu gato esticado com a barriga pra cima tentando driblar o tédio. lembra dos filhos e de como são bacanas e bonitos. você entra no banho e a água e o sabonete parecem limpar sua alma. o dia pode não ser mais uma merda. e ainda tem a noite.

(republicado com pequenas alterações)

segunda-feira, outubro 07, 2013

anjo caído

arte: rafael godoy

Ele entrou e disse que estava frio lá fora. Bebeu o café quase frio e acendeu um cigarro. Disse que aquele dia tinha visto algumas pessoas estranhas que o seguiam. Jurou que não era paranoia. Perguntou sobre os gatos e se esticou no sofá. Falou sobre o possível apocalipse mas disse que não acreditava em anjos. Elogiou a música que tocava, acho que Coltrane, e falou que nesse momento vinha uma paz quase inevitável ou que a vida tinha algum sentido. Pediu pra eu soltar os cabelos e sentir o cheiro do xampu que gostava. E ainda, com voz baixa e com os braços fortes, me puxou para o seu lado e me deu um beijo longo e forte. Sua boca tinha gosto de menta, provavelmente, alguma bala ou chiclete para tirar o gosto do cigarro. Estava intensamente sensual, com os cabelos despenteados e cheiro de chuva. Dormi em seus braços e quando acordei já tinha ido embora. Ele era assim, aparecia em qualquer hora, dizia coisas sem sentido ou ficava preso em seu silêncio. Eu entendia esse homem de poucas palavras e gestos definitivos. E ele sabia disso. Talvez fosse ele um anjo caído por acaso em minha vida.

( republicado, a falta de inspiração continua )





sexta-feira, outubro 04, 2013

quando a escuridão




a luciano fraga
arte: carcarah

quando a escuridão parece mais escura que é
e você está no meio do mar em um pequeno bote
vê uma mancha preta maior que a escuridão
pensa que não haverá mais jeito
desta vez não tem saída
então olha para cima e não vê estrelas
olha para baixo as águas são geladas e negras
você ali no pequeno bote
no meio daquele oceano imenso e gelado
sem tempo sem brisa sem cor sem som
e aparecem uns olhos esverdeados
que brilham e não são estrelas
são maiores que a escuridão e o frio
e você se agarra a eles a seu brilho
você acorda em sua cama e uns olhos verdes escuros
mais escuros que aquelas águas te olham
então você dorme e quase sonha quase se esquece
e quase pensa que está salvo

terça-feira, setembro 24, 2013

constatação 2

arte: rafael godoy


 queria não ter esses olhos e essa pele
nem  essa alma perdida que se comove com o mundo



(ando mesmo sem inspiração, mas às vezes um texto antigo reflete o sentimento de agora)

sábado, setembro 21, 2013

lobos



 
 
 
 
quando lobos da cidade com seus olhos de neon
sobem solitários a ladeira fria do bairro
mesmo que não tenha lua e a noite seja de ventos
pensam em suas vidas na fumaça e no uísque que deixaram nos bares
nas mulheres que beijaram e juraram ser únicas
pensam que amanhã pode ser diferente mesmo sabendo que não
entram em casa e olham suas mulheres
dormindo amassadas e quase puras e os filhos no quarto ao lado

esses lobos viram anjos subitamente
vestem a camiseta branca e escovam os dentes
como se fossem limpar os restos do pecado
desejam bons sonhos em silêncio
se enroscam em suas mulheres sob o edredon macio

à noite se esquecem e voltam aos lugares perdidos
beijam mais mulheres e bebem mais uísque
marcam seu território com mãos, línguas e histórias inventadas
e a lua aparece azulada e tímida
esses lobos uivam e seus olhos são de neon 
 
 
(republicado)

sexta-feira, setembro 13, 2013

pode ser


 
 

 gravura em metal: rafael godoy



vem aqui e me abrace forte
pode até usar aquele perfume que te dei um dia
e me morder os lábios com força

pode contar as histórias que sei de cor
e cantar a música que um dia foi nossa
meus olhos vão brilhar como se fosse a primeira vez

diz que a lua nasceu hoje só pra nós dois
e que vai me cobrir quando esfriar de madrugada

se eu te der o meu amor intenso e quente como agora
talvez você fique aflito e saia
ou pode ser que goste
e ainda fique por algum tempo

não terei coragem de te dizer essas palavras
mas em algum lugar vão estar escondidas
sob o tapete nos lençóis
ou na poeira que sobe e sai pela janela

domingo, setembro 08, 2013

tava pensando por que não paro de fumar. sei que esse troço mata, causa um tanto de doença, blablablablablá. tem dia que nem fumo, fico com preguiça de sair pra comprar. aí pensei numa série de motivos pra não parar. além de gostar de fumar depois do café, olhando o fim de tarde, quando tô criando alguma coisa, quando tô ouvindo música, quando tô bebendo com amigos, quando fico nervosa com meu time ou discutindo com alguém, quando tô triste, alegre, ou nenhum dos dois. mas o que me faz não parar é que essa vida tá ficando chata demais, cheia de regras demais. as pessoas que não fumam ou grande parte delas olham pra gente como se tivéssemos alguma doença contagiosa, como se esse mundo fosse a coisa mais limpa do mundo, como se a fumaça dos carros, o estresse, a falta de humanidade, a falta de gentileza, o preconceito, a tortura, a miséria, a indiferença, o som alto de música tipo funksertanejouniversitárioeletrônica, a direita oportunista ou pastores evangélicos não fizessem mais mal que a porra de um cigarro, que eles são fodas porque não fumam e a gente é uma merda por acender um careta. e vou continuar fumando até que me provem que essa vida mereça que eu pare.

quinta-feira, agosto 22, 2013

entendo que poderia ser diferente mas não foi
não quero desculpas para mim ou para o que fiz
entendo que ficar em silêncio seria o melhor caminho
que engolir todos os desatinos que me disse seria mais fácil
e ficar quieta como muitas vezes fiquei me daria mais conforto
mas não foi o que aconteceu
cuspi maribondos e lagartos
soltei todos os demônios presos na alma
atravessei os rios e desertos mais gelados de mim
estradas áridas e intermináveis
senti o calor do inferno bem perto e não fugi
dessa vez não
então veio a noite e a solidão.
veio o vento e os sons inaudíveis do silêncio
e uma terrível sensação de paz.

quarta-feira, agosto 14, 2013

até ontem

arte: rafael godoy
vim como não quer nada
e entrei na noite como se dela tivesse nascido
até ontem não gostava das pessoas do dia
não gostava das cores, do calor
e de tudo que se fazia de dia


entrava na noite e nela me perdia
com os olhos fundos, a cara pálida
encontrava gente com essa mesma cara
às vezes muito maquiadas
e pareciam artistas de cinema mudo
olhava para elas como se soubesse o que faziam ali
escondidas no fundo dos bares ouvindo blues e jazz
o nariz e os olhos dançando

reconhecia quem era da noite
e quem estava ali vindo do dia
podia pensar que eram felizes
suas roupas brilhavam e brilhavam seus cabelos
falavam dos poetas góticos e dos impressionistas
dos beatniks e do cinema francês
conheciam um bom vinho e a pior cachaça
e pensavam que podiam mudar alguma coisa
neste mundo tão pobre
e mesmo nobres
comiam pão com mortadela.

eu vim com a noite e nela me escondia
e me encantava com a vida dessas pessoas
e fazia parte desse mundo escuro
quase escondido quase feliz

até ontem gostava desses seres
e talvez ainda seja um deles
mas hoje vi a luz do sol
e deixei que aquecesse minha cama fria
(republicado por absoluta falta de  inspiração)

domingo, agosto 11, 2013

sua presença




a meu pai






quando ele se foi deixou sua presença invisível 
uma máquina de escrever 
um relógio que sempre marcava a mesma hora 
uma lata de rapé pequena, palavras cruzadas 
um livro de camões que sabia de cor 
brinquedos de madeira, máscaras de monstros
e o tapete queimado de cigarro 

quando entrei no quarto 
o seu cheiro 
o som de seu riso e de sua sabedoria 
o abraço no ar que até hoje busco 

quando ele se foi 
tinha um bem-te-vi na janela 
e hoje também tem um 
me pego com o coração pequeno 
e sinto meu velho pai me abençoando

quinta-feira, agosto 08, 2013

amanheceram estrelas




arte: ricardo ferrari

essa noite não aconteceu
nem a seguinte

amanheceram estrelas
a cama azul
seu cheiro perdido nas fronhas
sua insensatez na pasta de dente sem tampa

ainda vejo sua sombra na porta
e os demônios que sempre te perseguiram

mas o dia está claro
e acho que posso pensar em outras coisas
que não sejam seus olhos me implorando
pra ficar

e juro queria que ficasse
mas o seu inferno não me cabe mais


(poema publicado mas muito alterado) 

terça-feira, julho 30, 2013

constatações 3 ou divagações de uma cinquentona


tá bom, você me disse que eu precisava sair de casa, respirar outros ares, ficar com outras pessoas.
mas não tô conseguindo, entende?
gosto de ficar aqui com meus gatos, minha música, meus filmes.
ontem até vi pânico na floresta 5.
porra, todo mundo morre de maneira mais cruel e no final  só os bandidos escapam e felizes.
aí você me pergunta: por que eu vejo filmes como esse tipo c? eu que gosto de filmes de arte e afins?
talvez algum tipo de superação ou punição subliminar, será? de noite até sonhei com algumas cenas.
gosto de fumar sem ter ninguém me enchendo o saco.
gosto de pendurar a roupa no varal e depois ficar olhando as cores perfumadas ventando na área.
gosto de poder ouvir as músicas que me fazem viajar pra qualquer lugar de mim ou do mundo.
gosto de não atender o telefone.
gosto de não ter horário pra comer.
gosto de não ir ao médico.
gosto de ler poemas fodas e textos fodas e descobrir uma porrada de coisas que mexem com a alma.
e passear pelo facebook mas nem sempre.
gosto de andar com roupa velha e rasgada.
gosto de voltar pra casa sempre.
gosto de tomar café olhando a tarde.
aí você me disse que era depressão mas não tô triste.
até danço e canto e brinco no sol com os gatos.
vejo amigos e gosto de ficar com eles e saber que estão por perto.
gosto de me desesperar pelo meu time e gritar quando ele ganha.
gosto de tomar uns porres e só falar merda.
gosto de beijar na boca e namorar de vez em quando.
e cozinhar quando tenho vontade.
gosto do frio e de dias cinzentos.
gosto de ficar com o pessoal lá de casa e muito.
mas ver minha mãe daquele jeito me dói demais e às vezes não consigo e sempre choro
e sempre me pergunto por que que ela ainda não quer ir embora.
gosto de saber que meus filhos estão bem.
mas não consigo lidar com a desumanidade nunca. 
gosto de saber que ainda posso fazer o que gosto.

 
 

segunda-feira, julho 22, 2013

saturno





 


saturno na lente mágica
as retinas prenhas
os anéis que tu me deste
nesta noite clara
não eram de vidro
mas quebraram a monotonia
e me tornaram por um segundo
a noiva do universo

segunda-feira, julho 15, 2013

estamos mais velhos, mano

(hoje é o  aniversário dele)

estamos mais velhos, mano
quando saímos daquela porta
não sabemos se vamos voltar
 os passos são mais lentos
você disse que a música era pra mim
mas minha negra cabeleira
não se mantém sem tinta escura
seus cabelos são brancos e poucos
mas você é um menino grande
e o seu sorriso se espalha na sala
em que brincamos tanto na infância

estamos mais velhos, mano
mas quando estamos juntos nos tornamos meninos
e rimos das mesmas coisas
e brigamos e choramos juntos
e nos embebedamos pelas esquinas
dividimos o mesmo cigarro a poesia
 "a noite a lua e até solidão"

estamos mais velhos, mano
e gosto de pensar que envelhecemos juntos
               e gosto de pensar que você está por perto e sempre

sexta-feira, julho 12, 2013

Na primeira manhã

Na primeira manhã em que abriu a janela para rua, o som intragável de uma música eletrônica fez vibrar seus dois ouvidos. Desde esse dia então pensou que melhor seria ficar trancado até as tripas se dissolverem e saírem por suas orelhas e poros para não ter que escutar aquele som. Um som que devia ficar preso no inferno atormentando as almas pecadoras da Terra. Quando se lembrou da frase de Sartre "o inferno são os outros' riu para si mesmo. O verdadeiro inferno é essa música, concluiu. Pensou em um livro que tinha lido há muitos anos" Os demônios descem do Norte" e era quase profético ao narrar a saga dos evangélicos que vinham da América do Norte e se espalhavam pelo mundo. Eram pensamentos vagos. O Tinhoso devia estar feliz, o capeta e seu tridente em riste. Quis abrir a janela, quis pensar que estava errado, que tinha exagerado em suas percepções. Não pôde. Ao som torturante da música eletrônica, como um marca-passo estúpido e insistente, no meio de tantos que dançavam, havia um ar de triunfo, quase satânico e um sorriso escondido em uns olhos vermelhos. O inferno era agora, finalmente o diabo tinha vencido.

domingo, junho 23, 2013

tô com preguiça disso tudo. desse papo todo contra o governo e todos os políticos de maneira geral, de marina silva e joaquim barbosa. do não reconhecimento dos avanços que o governo lula e dilma conseguiram. do não mensalão tucano. tô com preguiça desses evangélicos autointitulados de donos da moral e bons costumes. tô com preguiça desse discurso vazio e sem embasamento. da rede globo. da polícia. dos manisfestantes. de todas as pecs. a classe média acordou? o povão já tá acordado todos os dias às cinco da matina pra pegar o ônibus e trabalhar. gostei das manifestações. mostraram que o povo está no limite. os administradores não podem mais brincar e zombar como zombam do povo. mas tô com preguiça do que vem por aí. de onde isso vai parar. e um certo medo

sábado, junho 15, 2013

e quando vier o dia

e quando vier o dia
os homens estarão feridos
as crianças tristes e perdidas
e estupefatas as mulheres

quando vier o dia
ficarão pássaros com asas queimadas
e o grito insano da cidade

estaremos sedados
a noite e o país em pedaços
melhor fechar as janelas
e não ouvir

mas é mais forte o grito das gentes
mais forte que todo o gás que faz chorar
e  que todas as balas de borracha que ferem

queremos não ver queremos não ouvir
mas a alma não sossega
e chora por esse país  por essa gente
e torce por esse país  e por essa gente

e alguns dirão que não há guerra
melhor fechar as janelas


                                                      (texto republicado e muitíssimo alterado)