Olhem o que o Danilo fez!
http://atipoesia.blogspot.com/2013/04/despalavrares-escrito-para-os-amigos-de.html
sexta-feira, abril 05, 2013
terça-feira, abril 02, 2013
lobos
quando lobos da cidade com seus olhos de neon
sobem solitários a ladeira fria do bairro
mesmo que não tenha lua e a noite seja de ventos
pensam em suas vidas na fumaça e no uísque que deixaram nos bares
nas mulheres que beijaram e juraram ser únicas
pensam que amanhã pode ser diferente mesmo sabendo que não
entram em casa e olham suas mulheres
dormindo amassadas e quase puras e os filhos no quarto ao lado
esses lobos viram anjos subitamente
vestem a camiseta branca e escovam os dentes
como se fossem limpar os restos do pecado
desejam bons sonhos em silêncio
se enroscam em suas mulheres sob o edredon macio
à noite se esquecem e voltam aos lugares perdidos
beijam mais mulheres e bebem mais uísque
marcam seu território com mãos, línguas e histórias inventadas
e a lua aparece azulada e tímida
esses lobos uivam e seus olhos são de neon
sobem solitários a ladeira fria do bairro
mesmo que não tenha lua e a noite seja de ventos
pensam em suas vidas na fumaça e no uísque que deixaram nos bares
nas mulheres que beijaram e juraram ser únicas
pensam que amanhã pode ser diferente mesmo sabendo que não
entram em casa e olham suas mulheres
dormindo amassadas e quase puras e os filhos no quarto ao lado
esses lobos viram anjos subitamente
vestem a camiseta branca e escovam os dentes
como se fossem limpar os restos do pecado
desejam bons sonhos em silêncio
se enroscam em suas mulheres sob o edredon macio
à noite se esquecem e voltam aos lugares perdidos
beijam mais mulheres e bebem mais uísque
marcam seu território com mãos, línguas e histórias inventadas
e a lua aparece azulada e tímida
esses lobos uivam e seus olhos são de neon
(republicado)
sábado, março 30, 2013
sexta-feira, março 29, 2013
insônia
arte: rafael godoy
a noite inútil não terminava nunca
o sono vinha mas os olhos não fechavam
vi assombrações nos rodapés das paredes do quarto
espremidas cor de barro querendo sair
faziam sons estranhos e se moviam
criaturas horríveis desfiguradas
o sono vinha mas os olhos não fechavam
vi assombrações nos rodapés das paredes do quarto
espremidas cor de barro querendo sair
faziam sons estranhos e se moviam
criaturas horríveis desfiguradas
se cresse talvez rezasse
mas nada saía de mim
apenas o medo um frio medonho
uma imobilidade assustadora
os seres pareciam conversar
sei que alguns saíram
e deram voltas em minha casa
rodearam minha cama
nem meus gatos apareceram
se esconderam em algum armário
se acovardaram
mas finalmente chegou a manhã
fechei os olhos
dormi com a cortina aberta
o sol sobre mim
domingo, março 24, 2013
vejo-o fazendo café
arte: rafael godoy
trago a vida entalhada em contas papéis livros
lembro quando via sessão da tarde e a tarde não passava nunca
hoje as tardes passam e não vejo
a noite vem como o dia
a noite é a mesma
mesmo quando você vem e diz que me ama
então olho o homem que atravessa a rua
e está com flores na mão
o livro que li há dez anos
vai ser o mesmo se o ler hoje?
vejo-o fazendo café
e a minha angústia costurada em seu pijama
e a vontade desesperada de fugir
lembro quando via sessão da tarde e a tarde não passava nunca
hoje as tardes passam e não vejo
a noite vem como o dia
a noite é a mesma
mesmo quando você vem e diz que me ama
então olho o homem que atravessa a rua
e está com flores na mão
o livro que li há dez anos
vai ser o mesmo se o ler hoje?
vejo-o fazendo café
e a minha angústia costurada em seu pijama
e a vontade desesperada de fugir
quinta-feira, março 21, 2013
um brinde à mediocridade
hoje brindo à mediocridade que insiste em permear minha vida. brindo sem bebida, sem alegria, sem orgulho, mas com uma puta melancolia e tédio. o que salva são os amigos, o que salva é a arte de cada um. essa vida tem hora que é foda. nos consome e some com os sonhos de maneira ardilosa, mesmo os mais rasos. sou professora sim. não sei se escolhi isso, mas até hoje tenho levado e pasmem, gosto disso. porém, há muito que não acredito na educação. há muito não acredito nesse sistema podre e furado, injusto, cruel em que não se investe de fato nos profissionais dessa área, nos alunos, nas escolas. muita coisa mudou. está mudando, mas meu tempo não permite que eu tenha alguma esperança. quantas greves já fiz e ainda faço? até quando terei que lutar por uma coisa que deveria ser valorizada pra caralho. saí da rede particular por opção. o sistema é terrível. não vale a pena expor todos os aspectos, acho que a maioria tem alguma noção. mas só quem está dentro de uma sala de aula é que sabe realmente o que é essa merda toda. os alunos são a melhor parte, podem acreditar. por que permaneço? por uma questão de sobrevivência mesmo. e talvez por não saber fazer outra coisa. então, brindemos, senhores e senhoras, à mediocridade da sobrevivência. pode ser que hoje quando for à escola, alguma coisa aconteça e eu pense diferente.
quarta-feira, março 20, 2013
noite de outono
arte: rafael godoy
as luzes da cidade acenderam a noite
e estou do outro lado
penso quando não pensava no tempo
e tinha sempre uma lua inventada
os pássaros escuros varrem os insetos
este espaço é muito vasto
o vento de outono entra no meu quarto
e não ouço o seu barulho
e sinto suas mãos frias
e a noite acesa do outro lado
me escondo no escuro
e a imensidão fica pequena
quero fechar as janelas
mas a lua é imensa
levanto-me no vento
e me curvo às suas frases de pedra
e estou do outro lado
penso quando não pensava no tempo
e tinha sempre uma lua inventada
os pássaros escuros varrem os insetos
este espaço é muito vasto
o vento de outono entra no meu quarto
e não ouço o seu barulho
e sinto suas mãos frias
e a noite acesa do outro lado
me escondo no escuro
e a imensidão fica pequena
quero fechar as janelas
mas a lua é imensa
levanto-me no vento
e me curvo às suas frases de pedra
quinta-feira, março 14, 2013
esse é o dia
arte: rafael godoy
esse é o dia que talvez corra perigo
de dar voltas sobre meu corpo e em volta da mesa
de não saber direito olhar a lua
de não achar o livro que me deu de aniversário
esse é o dia de cortar os cabelos e pintar as unhas
de não saber dizer não quando devia
de fingir acreditar em seus olhos
de olhar debaixo da cama e encontrar o pé sumido da sandália
esse é o dia de ler horóscopos rasos e tarôs
e pensar que tudo vai dar certo no fim do dia
de incendiar o corpo e gelar sorrisos
de dizer o que ontem seria mentira
de dar voltas sobre meu corpo e em volta da mesa
de não saber direito olhar a lua
de não achar o livro que me deu de aniversário
esse é o dia de cortar os cabelos e pintar as unhas
de não saber dizer não quando devia
de fingir acreditar em seus olhos
de olhar debaixo da cama e encontrar o pé sumido da sandália
esse é o dia de ler horóscopos rasos e tarôs
e pensar que tudo vai dar certo no fim do dia
de incendiar o corpo e gelar sorrisos
de dizer o que ontem seria mentira
segunda-feira, março 04, 2013
Encontro Desmarcado
Toda vez que penso em ir a um médico me desespero. E hoje vou ter que
ir. Não dá pra adiar o inevitável. O ano inteiro enrolo; marco, não vou,
invento desculpas, qualquer uma. Mas hoje não escapo. Sou mulher,
porra. Tenho que fazer aquele exame ginecológico. Esperar no
consultório, ler aquelas revistas horríveis, ver mulheres entrando e
saindo. Enquanto espero, imagino várias maneiras de fugir dali. Nesses
devaneios, a secretária chama meu nome.Não, não, não!! Mas é tarde.
Não tem mais jeito. Quando entro, a médica com todas aquelas perguntas
a que não quero responder: Continua fumando, tá fazendo dieta? Parou de
beber? Olha o colesterol!! Tá no limite! Precisa fazer reeducação
alimentar, você está acima do peso.Tento contornar e digo que vou
tentar, desta vez, vou conseguir. Então, ela diz: Pode pôr o avental e
se deitar. Então, olho para a mesa, uma cama de tortura. Dois apoios
para o pé, distantes, opostos. O avental é aberto na frente. Tenho que
abrir, literalmente, as pernas. Fico dura como um tronco. Travo. Pô!
Em outras situações isso é natural! Mas não é o caso! Sinto algo frio
entrando em meu ventre. Aquele instrumento gelado de metal, o gel, a
barriga sendo apalpada, agora os seios examinados, tocados. Finalmente,
ela diz: Pode se vestir. Corro pro banheiro, ponho a roupa o mais
depressa que posso. Quero sair voando dali. Tenho um encontro com um
amigo, em um boteco, ali perto. Mais tarde, quem sabe, vou ter que tirar
a roupa de novo, outra situação. Relembro a consulta. Talvez o
encontro fique para outro dia.
(republicado)
quinta-feira, fevereiro 28, 2013
sem assobio
arte: rafael godoy
tennho que te dizer que a lua está linda, imensa
as palavras agitam a minha cabeça
não se encontram, não são amigáveis
uma garrafa com café já velho, um cigarro pra acender
essa tela brilhante do computador, a minha lua
nessa noite os gatos estão em silêncio
um assobio calmo e afinado destoa-se do resto da cidade
é esse assobio que me faz pensar
o homem do assobio não sabe que olho para ele da minha janela
não sabe a força de seu assobio
não sabe que sua paz incomoda
penso um jeito de parar com isso
assim a música acabaria
assim tudo ficaria igual
sem assobio, sem nada
as palavras agitam a minha cabeça
não se encontram, não são amigáveis
uma garrafa com café já velho, um cigarro pra acender
essa tela brilhante do computador, a minha lua
nessa noite os gatos estão em silêncio
um assobio calmo e afinado destoa-se do resto da cidade
é esse assobio que me faz pensar
o homem do assobio não sabe que olho para ele da minha janela
não sabe a força de seu assobio
não sabe que sua paz incomoda
penso um jeito de parar com isso
assim a música acabaria
assim tudo ficaria igual
sem assobio, sem nada
(republicado)
terça-feira, fevereiro 26, 2013
sem noção
não sei em que apuros me meti ou que merda fiz, mas quando vi você com essa cara linda e charmosa sob a luz dessa lua cheíssima, pulei em seu pescoço e dei o maior, o mais sensual, o mais gostoso beijo da minha vida. pena que sua mulher estava perto.
quinta-feira, fevereiro 21, 2013
eclipse
hoje nasci há muitos anos
talvez houvesse um eclipse
ou só meia lua no céu
ontem olhei a lua
e vi a sombra da terra
e vi a sombra de mim
talvez houvesse um eclipse
ou só meia lua no céu
ontem olhei a lua
e vi a sombra da terra
e vi a sombra de mim
sexta-feira, fevereiro 15, 2013
chamado
arte: rafael godoy
imagino-te louco lobo devasso
quando chega a noite e a lua entretanto
cordeiro manso e frio na cama
me pego então a contar estrelas
no céu da boca a língua saliva
febre insana no corpo que treme
na rua lobos me chamam
estou pronta para saltar muros
e atravessar paredes
quando chega a noite e a lua entretanto
cordeiro manso e frio na cama
me pego então a contar estrelas
no céu da boca a língua saliva
febre insana no corpo que treme
na rua lobos me chamam
estou pronta para saltar muros
e atravessar paredes
(republicado)
quarta-feira, fevereiro 13, 2013
irreversível
não tire de mim o encanto desse dia
ainda que seus olhos me implorem
e seu corpo se ausente
as lembranças são minhas
e você não pode fazer mais nada
quando a noite me engolir de vez
é esse dia que lembrarei
e você não pode fazer mais nada
mais nada
ainda que seus olhos me implorem
e seu corpo se ausente
as lembranças são minhas
e você não pode fazer mais nada
quando a noite me engolir de vez
é esse dia que lembrarei
e você não pode fazer mais nada
mais nada
sábado, fevereiro 02, 2013
por que então você tinha que falar aquilo
tudo, essas coisas todas, dizer que falo pouco, bebo demais e ainda
fumo nesse tempo em que tudo faz mal até aquele pedaço de pizza que comi
ontem. você falou que sou essa pessoa meio esquisita, que ainda
acredita que o melhor lugar é estar com amigos de verdade e rir um
bocado da vida. que não ligo muito pra roupas e que só quero viver
enquanto puder andar com meus pés, e ler
bons livros e gostar de poesia, ouvir rock e mpb e ainda gostar de
bossa nova e ir até esquina comprar pão e tomar café, andar um pouco
pelas ruas da cidade e, se der sorte, ver o por-do-sol. você me disse
mais um tanto de coisas e que gostava de mim, que não sabia o que faria
se eu sumisse de sua vida. logo você que é todo regrado e que só come
coisas meio light. logo você que vive nesse mundo cheio de tantas regras
e com pessoas que vivem por dinheiro, moda e poder. o pior, cara, é que
gostei do que você me falou, porque acho que ontem você me descobriu um
pouco. e o beijo foi bom e a cama foi boa e talvez hoje eu saia com
você de novo.
segunda-feira, janeiro 14, 2013
mantenha distância
pompéia/ itália/ arquivo pessoal
mantenha distância
era a placa invisível pregada em seu peito
mas não obedeci e fiquei perto
toquei em sua pele em seus cabelos
e descobri que não tinha alma nem alegria
mantenha distância eu sabia disso
e me mantive ainda agarrada ao seu sorriso de estátua
me mantive agarrada ao sonho que um dia iria mudar
e fazer você vomitar alguma emoção
naquela noite tomamos uma garrafa de uísque
e percebi alguma coisa saindo de seus olhos
alguma tristeza perdida alguma melancolia
por um momento
mas quando vomitou era apenas a bebida azeda
que seu estômago não absorveu
sua alma estava pra sempre perdida em algum inferno
e mantive distância de você de mim de tudo de todos
terça-feira, janeiro 08, 2013
volta
nova viçosa/bahia/ janeiro 2013/
voltei e meus braços são compridos como as estradas
mesmo com o mar nos olhos as montanhas me fascinam
um cansaço aflito se instala no corpo
minhas mãos não estão ágeis
e a cabeça pesa mais que a chuva e o calor
as palavras estão escondidas em algum canto de mim
me lembro de um cão perdido que rondava a casa da praia
e disputava o lixo com os urubus todos os dias
da lua no fim do tarde e do sol se pondo como em um filme
de quando o mar ficava vermelho até o anoitecer
e eu ficava lá até o escuro
e tinha a madrugada e eu dormia
domingo, dezembro 23, 2012
nem que seja por um breve momento
arte:ricardo ferrari
dei de ser melancólica perto do natal
e eu que fugia disso terrivelmente
me vejo postando músicas e poemas para amigos
como se uma árvore de natal inteira
tivesse atravessado minha garganta
eu que odeio papai noel árvore de natal
shoppings
me vejo com um sentimento contaminado
e impróprio
mas querendo imensamente
que todos os meus amigos e minha família
sejam imensamente inundados
nem que seja por um breve tempo
de uma alegria incomensurável
como se uma uma dose gigante de morfina
tivesse se espalhado fortemente
em seus corações
domingo, dezembro 16, 2012
entre mim e a cidade
tenho em mim essa fera adormecida
garras prontas para o ataque
a velha loba bêbada e solitária
as luas que já vi ainda brilham nos meus olhos
a neblina nunca me deixa
sinto o cheiro do mar que não existe
e farejo a noite sedenta
o vinho que tomei ontem ainda exala dos poros
a cidade iluminada de natal me afasta
não entro em shoppings e corro de papais noéis
mas a cidade é assim nessa época
e ainda bem que tem os bares
o pôr-do-sol
os amigos as esquinas
e os deuses anônimos das ruas
quarta-feira, dezembro 05, 2012
o cara que veio entregar pizza
o cara que veio entregar pizza olhou o filme que passava na tv
eu com a pizza na mão e ele olhando a tv
o cara me disse que a vida parecia aquele filme
que contava a história de um mundo sem futuro
a terra deserta vermelha só com mortos-vivos
o cara que veio entregar pizza me disse que teve um sonho
igual ao filme que passava
e ele olhava o filme e a pizza esfriava na minha mão
o cara que entregava pizza não quis o dinheiro
o seu olhar ficou triste
e ele disse que entendeu tudo
o cara que entregava pizza foi encontrado vagando
pelas ruas da cidade
o céu era vermelho e as pessoas
entravam nos shoppings com olhos sem vida
o seu olhar ficou triste
e ele disse que entendeu tudo
o cara que entregava pizza foi encontrado vagando
pelas ruas da cidade
o céu era vermelho e as pessoas
entravam nos shoppings com olhos sem vida
segunda-feira, dezembro 03, 2012
como é que a gente fica assim nesse intervalo entre a segunda e o resto dos dias? como que a gente ultrapassa esse abismo mortal que insiste em apertar o peito e deixa o coração batendo esquisito? tá bom, você pode ouvir a música certa e observar os gatos brincando com a sombra da persiana. você pode pensar em não ir ao trabalho e tomar cerveja durante o dia ou ver um filme tipo b. e ler todos os textos que não leu durante a outra semana ou simplesmente tomar dois dormonids e dormir durante dois dias e meio. mas aí se lembra que a geladeira está vazia e que tem uma porrada de coisas pra fazer. que o telefone toca e estão te oferecendo uma viagem incrível e que ainda não viu o amigo que chegou de longe. você se lembra que a sua cabeça não é a mesma de quanto você podia fazer isso e ficar sem culpa. e inevitavelmente chega à conclusão de que você está velha e cansada e que a vida te venceu pelo menos nessa segunda-feira.
terça-feira, novembro 27, 2012
doce caminho
arte: rafael godoy
queria não ter essa cara amassada
esses olhos cansados
e o coração estranho
queria ser o que não fui
mas sou o passado
com o corpo podre e gasto
mas gosto de abrir a janela
e ver essas manhãs cinzas
me batendo nos cabelos
ainda posso ouvir os stones
dylan joplin tom e chico no sofá de casa
ler poemas ver bons filmes
fumar o meu cigarro sem grilhões
e beber meu vinho sossegadamente
parece que o caminho para a morte
pode ser mais doce em dias como esses
(republicado)
quinta-feira, novembro 22, 2012
dia molhado
arte: rafael godoy
morri ontem mais uma vez
e minha alma perambula por essas ruas de lama e chuva
a cidade chove demais e não para
o rio arrudas transborda e joga o lixo nas calçadas
sou o que resta de mim
e não é bonito o que tenho agora ou terei depois
não posso pular
ou salvar as pessoas debruçadas ali
as luzes de natal são molhadas e frias
as capas e os guarda-chuvas respingam
incomodam
vejo o que não queria ver
mas tem uma flor que boia no rio
o mar está longe
estou parada na chuva
e olho o rio de lama invadindo a cidade
minha alma molhada sai pelos olhos
mas me lembro de uma música de tom
pode ser que amanhã venha o sol
ou chova de novo na roseira
segunda-feira, novembro 19, 2012
atroz idade
desenho: rafael godoy
ratos cinzas e inquietos passeiam
nos porões de minha infância
acordo e vejo um sorriso meio pálido
e uma mulher quase velha no espelho
nos porões de minha infância
acordo e vejo um sorriso meio pálido
e uma mulher quase velha no espelho
nas pequenas rugas escondidas sob o creme
muitas histórias esquecidas
e várias vidas ávidas por juventude
muitas histórias esquecidas
e várias vidas ávidas por juventude
não tem mais corpo
não tem mais volta
mas a moça de tempos atrás
diz que ainda vale a pena
não tem mais volta
mas a moça de tempos atrás
diz que ainda vale a pena
terça-feira, outubro 30, 2012
você acorda e pensa num modo mais fácil de não pensar que o dia poderá ser uma merda. você acorda e não quer esse calor invadindo o seu corpo nem esse sol feio nesse céu indefinido de quase chuva. olha pro lado, faz um café, dá uma ajeitada na casa, põe água e comida pros gatos, come uma fruta. fuma o primeiro cigarro. ouve a primeira música. liga o computador e não tem nada de muito novo. quando percebe, tá na hora do almoço e nenhuma fome, mas você tem que comer. você tem que sair e fazer as coisas na rua. tem que trabalhar, fazer sacolão, conversar um pouco com o vizinho. tem que saber da mãe, dos irmãos, dos filhos. tem que se inteirar das notícias do mundo e pensar que o mundo é isso. não se incomodar com o furacão na américa, com o ódio da mídia conservadora nem com o assalto que acabou de acontecer na esquina. tem que esquecer da briga com sua amiga, da desesperança na educação, da noite que escapou por entre os dedos. você olha e vê a vida quase como uma repetição. você pensa e quase não vê sentido nessa coisa toda. aí, de repente, pensa nos amigos distantes, na cerveja gelada, naquele dia na praia, lê alguns versos de seu poeta preferido, vê aquela planta na área que cresceu muito da noite pro dia e o seu gato esticado com a barriga pra cima tentando driblar o calor. lembra dos filhos e de como são bons e bonitos. você entra no banho e a água e o sabonete parecem limpar sua alma. o dia pode não ser mais uma merda.
quarta-feira, outubro 24, 2012
o ar frio que entrava pela janela
arte: rafael godoy
mais de uma vez ele me disse
que havia solução
que nem tudo estava perdido
mais de uma vez ele apagou a luz ao sair
me deixou na escuridão do quarto
e pôs Milles Davis para tocar
mais de uma vez ele me cobriu com o edredon
colocou a mão na minha testa
para ver se eu estava com febre
mais de uma vez me beijou com olhos selvagens
me chamou de vadia de louca de perdida
e deliramos juntos no deserto de nossa cama
mais de uma vez ele chorou
olhando as estrelas
mais de uma vez jurei mudar
era só uma questão de tempo
mas depois de mil e uma noites
depois de apagar a luz do quarto
ele se foi
ficaram as estrelas
ficou a noite
e o ar frio que entrava pela janela
que havia solução
que nem tudo estava perdido
mais de uma vez ele apagou a luz ao sair
me deixou na escuridão do quarto
e pôs Milles Davis para tocar
mais de uma vez ele me cobriu com o edredon
colocou a mão na minha testa
para ver se eu estava com febre
mais de uma vez me beijou com olhos selvagens
me chamou de vadia de louca de perdida
e deliramos juntos no deserto de nossa cama
mais de uma vez ele chorou
olhando as estrelas
mais de uma vez jurei mudar
era só uma questão de tempo
mas depois de mil e uma noites
depois de apagar a luz do quarto
ele se foi
ficaram as estrelas
ficou a noite
e o ar frio que entrava pela janela
(republicado)
sexta-feira, outubro 19, 2012
constatação 2
arte: rafael godoy
queria não ter esses olhos nem essa pele
e nem essa alma perdida que se comove com o mundo
terça-feira, outubro 16, 2012
parece que vem uma dor lá no fundo. como se
nem a melhor música ou o melhor amigo pudessem te salvar. como se nem o
dia que amanheceu bonito representasse alguma coisa. é como olhar o
deserto árido e sem cor. é como acender um cigarro depois do café e não
sentir o prazer de inalar a fumaça do veneno. é como tomar uma cerveja
gelada no fim da tarde e ela descer amarga como o pior remédio. minha
mãe tá morrendo há quase dois anos e eu não posso fazer nada. minha mãe tá morrendo na cama paralisada e eu não posso fazer nada. nem os seus olhos brilham mais. nem o sorriso lindo na sua boca. nem o seu perfume. nem nada. só a dor que vem do fundo. só a dor na alma. minha mãe tá morrendo e eu morrendo um pouco com ela.
sábado, setembro 29, 2012
foi assim
não quero desculpas para mim ou para o que fiz
entendo que ficar em silêncio seria o melhor caminho
que engolir todos os desatinos que me disse seria mais fácil
e ficar quieta como muitas vezes fiquei me daria mais conforto
mas não foi o que aconteceu
cuspi maribondos e lagartas
soltei todos os demônios presos na alma
atravessei os rios e desertos mais gelados de mim
estradas áridas e intermináveis
atravessei os rios e desertos mais gelados de mim
estradas áridas e intermináveis
senti o calor do inferno bem perto e não fugi
dessa vez não
dessa vez não
então veio a noite e a solidão.
veio o vento e os sons inaudíveis do silêncio
terça-feira, setembro 25, 2012
Nessa hora
arte: rafael godoy
Nessa hora a chuva cai.
Não tenho planos, não penso o que vou fazer amanhã, muito menos daqui a alguns meses. Meus filhos estão longe, a casa vazia.
Os gatos me olham e parecem dizer: será que ela não vai fazer nada? E ao mesmo tempo gostam da minha presença, aninham-se aos meus pés.
Não consigo procurar amigos e nem parentes. Nem fazer qualquer coisa para comer. Quando me dá fome, tomo um café que está ali, ao meu alcance e mastigo um pão de forma velho com manteiga.
A geladeira , como disse alguém, um deserto frio e árido. Não tem bebida, nem vinho, nem cerveja. O cigarro me acompanha em meus devaneios. Gosto de chegar na área e olhar a chuva.
Não tenho planos, não penso o que vou fazer amanhã, muito menos daqui a alguns meses. Meus filhos estão longe, a casa vazia.
Os gatos me olham e parecem dizer: será que ela não vai fazer nada? E ao mesmo tempo gostam da minha presença, aninham-se aos meus pés.
Não consigo procurar amigos e nem parentes. Nem fazer qualquer coisa para comer. Quando me dá fome, tomo um café que está ali, ao meu alcance e mastigo um pão de forma velho com manteiga.
A geladeira , como disse alguém, um deserto frio e árido. Não tem bebida, nem vinho, nem cerveja. O cigarro me acompanha em meus devaneios. Gosto de chegar na área e olhar a chuva.
Busco
compreender algumas coisas em mim, mas isso também passa. Não estou
alegre, nem triste, nem nada. O telefone toca e é um convite, pode ser
bom. Não quero também. Tenho que me vestir, me arrumar, sair de casa ou
preparar a casa para alguém. Então dou uma desculpa qualquer e fujo de
qualquer compromisso. Gosto da casa assim, com a cama desfeita, mas
aconchegante. Com algumas coisas fora do lugar, que fui eu que deixei.
Os livros ali, assim jogados. Leio, mas não me prendo a nenhum. Um poema
aqui, outro lá. Trechos de obras já lidas. Às vezes um livro inteiro em
poucas horas. Mas é assim que gosto. Vejo tevê e procuro alguma coisa
que preste. É difícil, mas consigo. Também, se quiser, mudo o canal a
qualquer momento e brinco com as imagens. Ouço uma música que há muito
não escuto e me surpreendo: como eu gostava daquela música! E acho uma
merda. Durmo em alguns momentos e tenho sonhos estranhos, como ir ao
fundo de uma piscina funda, muito funda, cheia de folhas e lama e
conseguir voltar à superfície, ilesa. E quando volto à tevê, assisto a
uma cena semelhante. Só que o cara não teve a mesma sorte. Afogou-se.
Tocam o interfone. Pode ser o gás, o correio, alguém pedindo alguma coisa, ou mesmo, um amigo. Mas não atendo. Não quero sair dessa inércia. Parece que a chuva parou. E eu parada aqui e os gatos me olham.
Tocam o interfone. Pode ser o gás, o correio, alguém pedindo alguma coisa, ou mesmo, um amigo. Mas não atendo. Não quero sair dessa inércia. Parece que a chuva parou. E eu parada aqui e os gatos me olham.
(republicado)
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