arte: rafael godoy
Busco
compreender algumas coisas em mim, mas isso também passa. Não estou
alegre, nem triste, nem nada. O telefone toca e é um convite, pode ser
bom. Não quero também. Tenho que me vestir, me arrumar, sair de casa ou
preparar a casa para alguém. Então dou uma desculpa qualquer e fujo de
qualquer compromisso. Gosto da casa assim, com a cama desfeita, mas
aconchegante. Com algumas coisas fora do lugar, que fui eu que deixei.
Os livros ali, assim jogados. Leio, mas não me prendo a nenhum. Um poema
aqui, outro lá. Trechos de obras já lidas. Às vezes um livro inteiro em
poucas horas. Mas é assim que gosto. Vejo tevê e procuro alguma coisa
que preste. É difícil, mas consigo. Também, se quiser, mudo o canal a
qualquer momento e brinco com as imagens. Ouço uma música que há muito
não escuto e me surpreendo: como eu gostava daquela música! E acho uma
merda. Durmo em alguns momentos e tenho sonhos estranhos, como ir ao
fundo de uma piscina funda, muito funda, cheia de folhas e lama e
conseguir voltar à superfície, ilesa. E quando volto à tevê, assisto a
uma cena semelhante. Só que o cara não teve a mesma sorte. Afogou-se.
Tocam o interfone. Pode ser o gás, o correio, alguém pedindo alguma coisa, ou mesmo, um amigo. Mas não atendo. Não quero sair dessa inércia. Parece que a chuva parou. E eu parada aqui e os gatos me olham.
Tocam o interfone. Pode ser o gás, o correio, alguém pedindo alguma coisa, ou mesmo, um amigo. Mas não atendo. Não quero sair dessa inércia. Parece que a chuva parou. E eu parada aqui e os gatos me olham.
(republicado)
























