terça-feira, agosto 07, 2012

beijo

                              
arte: rafael godoy

entre dentes e línguas

entre a sua boca e a minha

um rio quente de solidão

quinta-feira, agosto 02, 2012

quase romântico

sobe as escadas com a língua pra fora, descendo a calça que não dá tempo de chegar ao banheiro. abre a porta da sala e vê que ela está lá vendo tevê com uma latinha de cerveja na mão e um ar de tédio. ele não diz nada, corre e consegue despejar no lugar quase certo sua podridão animal meio líquida. depois de algum tempo, vai até a cozinha, abre a geladeira e pega mais uma latinha. 
"cê  não disse que a gente ia ter uma noite romântica hoje?"
" quer coisa mais romântica do que chegar no banheiro a tempo?"
" porra! assim não dá! cê é um grosso mesmo! eu aqui esperando  e cê  entra desse jeito!"
"eu tenho culpa? será que você não entende? cê queria o quê? que eu fizesse aqui mesmo?"
" e eu aqui, toda produzida, depilada, perfumada, calcinha nova!" desperdício! devia dar pro primeiro que passasse!"
'faz isso mesmo! assim eu posso ver meu jogo de futebol sossegado"!
"grosso! grosso!  vai te fuder!"
ela sai batendo a porta. ele olha da janela e não a vê mais.
no céu dessa noite, uma lua imensa, linda, amarela.
no jogo, o atacante do time dele perde o pênalti.

quarta-feira, julho 18, 2012

na revista


quinta-feira, julho 05, 2012

então ele disse que era deus

 
arte: rafael godoy

então ele disse que era deus
já que a partícula de deus era ele
eu disse que também era
mas quando percebi estava conversando com o diabo
que também era a partícula de deus
e pensei em pulgas e carrapatos
nas baratas e camaleões
nos rios e oceanos e nas águas de chuva
e pensei como um vírus que é também partícula de deus mata
e pensei nos homens que matam e são cruéis
e nessa humanidade quase perdida
me lembrei das melhores músicas
dos melhores filmes  livros e da poesia
pensei nos amigos nos filhos
na mãe no pai na lua de ontem
e vi que o dia era azul um dia de inverno azul
e os gatos estavam ali no sol
e vi que nada vai fazer diferença
o dia segue bonito ou desesperado
e vou pra janela fumar um pedaço de deus ou do diabo

sexta-feira, junho 22, 2012

as tardes de outono morreram em mim

arte: rafael godoy

as tardes de outono morreram em mim
e há um longo período até a primavera
não sei se isso importa
já que tenho todos os invernos do mundo

quando me disse para olhar o céu
não pensei que fosse encontrar
nuvens gigantes carregadas de chumbo

às vezes também gosto do sol
quando vejo  meus gatos se esquentando
ou correndo atrás de suas próprias sombras

hoje talvez saia e me deleite com a noite
ou quem sabe fique  esperando 
que o céu desabe finalmente
sobre a cidade 
sobre mim

quinta-feira, junho 14, 2012

constatação

É foda.Tem dia que a gente acorda e pensa: Que merda é essa? E não tem mais saída. O dia continua sendo uma merda. A noite, uma merda. E você dorme e pensa: amanhã vai ser melhor. Acorda e tá tudo uma merda de novo.

(republicado muitas vezes)

quinta-feira, maio 24, 2012

dessa dor de te saber assim

a Leonardo B.

dessa dor de te saber assim
não saberia te dar meu alento
nem os dias cinzas de inverno
poderia  perguntar 
em quais labirintos se perdeu
em que inferno se meteu
e mesmo mentindo 
não saberia esconder-se de seus olhos tristes

me perco então em meu devaneio
e penso em suas mãos molhadas de mar
de um oceano que não conheci

e como uma nau louca e sem direção
 como um peixe pálido e transparente
caio de novo em suas redes desgastadas
e me afundo perdidamente em seu amor

quinta-feira, maio 17, 2012

acho que vai ser sempre assim

para bruno sales
belo horizonte/ pôr-do sol 

deste ar frio que entra 
restam ciscos nos meus olhos
e o cabelo embaraçado de poeira do asfalto
a cidade está longe de mim
mesmo com o barulho dos carros e das sirenes enlouquecidas
mesmo com esse poente lindo e triste
o vento fuma o meu cigarro
os deuses estão perto dissolvidos na fumaça
quase acredito quase viro criança
invento coisas pra não pensar
 minha cabeça um mar imenso sem cais
você está na rua e não pode entrar
o sinal ainda está vermelho
e acho que vai ser sempre assim
a cidade está longe de mim
e eu muito mais


terça-feira, maio 08, 2012

pode acreditar


arte: rafael godoy

então me diga qual a máscara devo usar
quando descer do avião e você não estiver lá?
em qual porto ou em que puteiro se esconde?
com quem divide o vinho tinto
e esse olhar molhado de anoitecer?

me diga se meus olhos são fiéis à minha dor
(porque dizem que eles são as janelas da alma)
mas se já não tenho alma
posso fingir que eles brilham

mas você sabe que no espaço entre mim e o meu amor
há um abismo frio e indevassável que só os valentes alcançaram

então não precisa me dizer nada
sei do seu medo de mergulhar em mim
e definitivamente se perder em mim

ou- e é quase certo-  vai fugir desesperado 
como o diabo foge da cruz
e vou entender
pode acreditar 

os demônios não gostam de se verem no espelho 



sexta-feira, abril 27, 2012

vou te dar meu último verão

arte:rafael godoy

vou te dar meu último verão
todo o outono amarelo
e quando me alcançar
vai ver que sou o mais puro inverno
não dos trópicos
mas dos lugares mais frios da terra
terras da sibéria
não adianta me dizer para abrir as janelas
o sol me é estrangeiro
tenho em mim geleiras ancestrais
meu coração não bate
vacila descompassado
 selvas do universo me rondam
e mesmo assim você vai me recriar
e  me amar com tudo que sou
porque você
precisa de uma criatura só sua
mesmo inventada 
mesmo com essas sombras geladas

segunda-feira, abril 16, 2012

pássaro negro

desenho:estudo de mulher/rafael godoy

venho te dizer que não  preciso mais de seu sorriso claro
nem de seus olhos úmidos quando se despede
acordei antes do dia e vi alguns pássaros noturnos procurando  luz
quando a manhã chegou, desapareceram
descobri que sou um pássaro sem canto e sem asas
preciso ficar no escuro algum tempo
quando o inverno chegar talvez saia com o frio
e me esconda debaixo de blusas negras e quentes
não tem espaço pra você, meu amor
sua alegria não pode se perder em mim
nem sua juventude enroscar-se na minha pele gasta
sou um pássaro noturno e preciso do escuro
não mais de seu brilho e de sua beleza

segunda-feira, abril 09, 2012

hoje no poema dia

           Depois de uma longa pausa, volto ao poema dia.
 Pra conferir é só clicar aqui http://poemadia.blogspot.com.br/2012/04/canto-meio-desesperado.html
            Beijos

quinta-feira, abril 05, 2012

bestial


arte: possivelmente o autor seja rafael godoy

dri, ele me falou
saia dessa letargia
rompa a casca
me lembrei de bashô
e o que sempre quis como epitáfio:
"casca oca
a cigarra
cantou-se toda"
pensei:  foda-se mil vezes o mundo
e foda-se qualquer movimento
foda-se essa lua enorme e redonda
foda-se a a quinta, a sexta, foda-se a paixão
foda-se tudo
e recitei o verso de pessoa:
"à parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo"
não tenho sonhos hoje
não sei se terei algum dia
e foda-se se já morri em grande parte
me lembro também de ana cristina cesar:
"tenho ciúmes deste cigarro que você fuma
tão distraidamente"
e tem os amigos, os filhos
o cigarro que fumo e tem você que não fuma 
e penso que a poesia pode salvar
mas não hoje
não com esse poema bestial


segunda-feira, março 19, 2012

estamos mais velhos, mano

ao henrique( poi), meu mano


estamos mais velhos, mano
quando saímos daquela porta
não sabemos se vamos voltar
 os passos são mais lentos
você disse que a música era pra mim
mas minha negra cabeleira
não se mantém sem tinta escura
seus cabelos são brancos e poucos
mas você é um menino grande
e o seu sorriso se espalha na sala
em que brincamos tanto na infância

estamos mais velhos, mano
mas quando estamos juntos nos tornamos meninos
e rimos das mesmas coisas
e brigamos e choramos juntos
e nos embebedamos pelas esquinas
dividimos o mesmo cigarro a poesia
 "a noite a lua e até solidão"

estamos mais velhos, mano
e gosto de pensar que envelhecemos juntos
e gosto de pensar que tenho você por perto e sempre

segunda-feira, março 05, 2012

feridas custam a secar

tenho em mim o resto de meus dias
e não sei de que são feitos
sei que horas são quando me chamam pra almoçar
ou qualquer outra besteira cotidiana
a não ser quando incendeia a lua
me importo menos com as coisas que me atormentavam tanto
e desisto de pular a janela
vou acumulando sorrisos e caretas
 feridas custam a secar
lobos passam silenciosos e com medo
percebo só as suas sombras
e isso me basta
um drink, amor?
para celebrar o vazio
o que importa
se os degraus são altos e não posso alcançá-los?
enojam-me as tragédias humanas
e sou uma delas

sábado, fevereiro 18, 2012

entre bougainvilles e demônios



não que essa bougainville não me inspire
 ou esse bem-te-vi solitário não me diga algo
existe entre mim e as coisas lá fora um abismo escuro 
e a estrada não aponta o sol
esperava que você fosse ao inferno comigo
e me dissesse que nem tudo estava perdido
mas preferiu pegar o primeiro voo e bater suas asas aflitas
ir para um mundo em que não estou
pra quê então o telefone depois
e dizer que sente a minha falta 
cara os dias e noites são todos meus
os anjos e os demônios me pertencem
e sei que quando acordar eles vão estar lá
mas você não

sábado, fevereiro 04, 2012

muletas

 
nessas tardes intermináveis e quentes
as muletas são o céu visto da janela
a visita de pessoas queridas
o cheiro de café vindo da cozinha
 o cigarro proibido
o sorriso da mãe presa na cama
e a lição que ela dá dia a dia
com sua força e doçura

os dias e noites são quase iguais
uma calma forçada e triste
a paciência trabalhada a cada minuto
                               
                                o poema se faz sem poesia

dizem que tudo tem razão de ser
embora não creia nisso
pode ser que seja verdade

sábado, janeiro 28, 2012

eles já estão aqui

 
os maias talvez não estivessem enganados
os anjos negros tocam trombetas
e são milhares os cavaleiros do apocalipse
as nuvens são de gafanhotos e de sangue
o tempo infortúnio de quem  padece

em um mesmo mês tornozelo quebrado
segredos fortes revelados
choro dor assombro amor e ódio
um primo que morre em vida
outro que morre de verdade

assim caminha 2012
os cavaleiros assombram em toda parte
mas o que mais me dói
é o que está perto de mim

hoje daria tudo para esquecer
(hoje morreu zé carlos, um primo querido)

sexta-feira, janeiro 20, 2012

anjos também se distraem



 arte: ricardo ferrari

do céu ao  inferno
dois estalos um cheiro de quase morte
o tornozelo aberto para a chuva
a dor impossível
estranha e quente
a rua vazia a solidão inevitável
um segundo a vida muda tudo muda
em segundos a fragilidade exposta
os cães às vezes  uivam de dia

viagem cerveja banheiro andar
 o cotidiano inalcançável
demônios soltos
a vontade louca de voltar e mudar o destino 
  
cama livros música amigos família
redescobrir o sentido da vida 
  olhar a lua 
esperar o dia amanhecer
  poder dormir e  sonhar de novo

acreditar em anjos
e saber que às vezes eles também se distraem


 "A dor é estranha. Um gato matando um passarinho, um acidente de carro, um incêndio... A dor chega, BANG, e aí está ela, instalada em você. É real. Aos olhos dos outros, parece que você está de bobeira. Um idiota, de repente. Não há cura pra dor, a menos que você conheça alguém capaz de entender seus sentimentos e saiba como ajudar."

Charles Bukowski



domingo, janeiro 15, 2012

viagem que não foi

Pois é, um dia antes de viajar, quebrei o tornozelo. Operaram meu pé, colocaram vários pinos. Tô  na casa da mamãe, a família que tá cuidando de mim. Isso é muito bom. Poder contar com meus irmãos. Chorei muito de dor e de desespero, mas agora o jeito é me conformar. Tem os amigos, os livros, os filmes, o computador, o amor e o carinho de muita gente. Não posso voltar pra casa, lá tem três lances de escada.Tenho de ficar pelo menos dois meses sem colocar o pé no chão. Dói demais. É muita limitação pras coisas mais simples. O jeito é ter paciência. Tô tomando muito remédio pra dor, antibióticos, antiinflamtório, uma porrada de coisa. Ando meio grogue, meio triste. Ando meio perdida de tudo, de mim. Mas acho que vou conseguir superar mais essa. É isso. 

quinta-feira, dezembro 15, 2011

dia molhado

            arte: rafael godoy

 morri ontem mais uma vez
e minha alma perambula por essas ruas de lama e chuva
a cidade chove demais e não para
o rio arrudas transborda e joga o lixo nas calçadas
sou o que resta de mim
e não é bonito o que tenho agora ou terei depois
não posso pular
ou salvar as pessoas debruçadas ali
as luzes de natal são molhadas e frias
as capas e os guarda-chuvas  respingam
incomodam
vejo o que não queria ver
mas tem uma flor que boia no rio
o mar está longe
estou  parada na chuva
e olho o rio de lama invadindo a cidade
minha alma molhada sai pelos olhos
mas  me lembro de uma música de tom
pode ser que amanhã venha o sol
ou chova de novo na roseira

quinta-feira, dezembro 08, 2011

o velho da janela

                                                           arte: rafael godoy
Ontem não o vi mais ali.
O velho que ficava na janela em frente à minha tinha morrido.
De uma forma estranha: bebeu duas taças de champanhe, ficou verde e se foi.
Não que eu tivesse alguma simpatia por aquele sujeito. Na verdade, me incomodava demais.
Sempre estava lá, nos momentos mais inoportunos. Vivia sem camisa e o seu porte avantajado dava a impressão de que era muito  mais jovem do que seus oitenta e três anos. Sua voz, como percebeu o meu filho, era de um garoto.
Mexia com todos que subiam ou desciam a rampa, principalmente, com as viúvas. Como um predador, dizia que estavam lindas e que queria namorá-las. Umas aceitavam o elogio e sorriam timidamente. Outras, o achavam inconveniente. Mas, de uma certa forma, o velho preenchia as suas vidas.
Por incontáveis vezes, tive que fechar a cortina, pois com seus olhos indiscretos entrava em meu apartamento e me despia com o seu olhar de rapina, embora, muitas vezes, já estivesse nua.
Gostava quando abria a janela e ele, por algum motivo, tinha perdido a cena. Era como se eu tivesse vencido algum lance de jogo de cartas ou feito um gol de placa.
Nunca soube o seu nome, até ontem, quando a zeladora me contou sobre a sua morte:
- O Seu Manoel morreu, disse-me ela.
- Quem?
- O Seu Manoel do 407!
-Ah! Que pena! respondi-surpresa e escondendo o meu alívio!
Até hoje não sei por que ele me deixava tão irritada.
Mas, ontem, senti a sua falta e, embora soubesse de sua morte, fechei as cortinas, quando saí do banho, enrolada em uma toalha.
Por um momento, ao olhar a janela em frente, vislumbrei uma sombra e uma risada que conhecia bem.
 E, quando saí de casa, ao atravessar a rampa, não olhei mais para cima. Mas tinha certeza de que ele estava lá. Ou o seu fantasma. 


( Hoje, depois de alguns anos, vi novamente o velho da janela. Juro que ele estava lá)

sábado, novembro 26, 2011

a cidade é outra

arte/ rafael godoy

visto de cinza a cidade
as ruas têm prédios demais
e eles não se cansam de criar outros a cada dia
as britadeiras rodam na minha cabeça
 escondem as sirenes e buzinas
os gritos dos gatos o canto dos bêbados
as construções apagam a lua  espantam o vento
 silenciam os poetas
as montanhas são dilaceradas dinamite e cimento
a cidade que era minha
vai embora de mim
espalha pó nos cabelos embaça meus olhos
e deixa um gosto estranho na saliva
a cidade é outra
eu sou outra
mas ainda posso ver através da fumaça do cigarro
um sol pálido
que começa a nascer





sexta-feira, novembro 11, 2011

quinta-feira, novembro 03, 2011

estrelas da noite

rascunho para tela/ rafael godoy
a daniel rubens prado 
        (buda)

passavam sempre ali as putas
piranhas vadias maquiadas
pisavam com passos leves
purpurinas meninas mulheres

passavam ali e atormentavam
os senhores as senhoras
pudicos em seus lares e dogmas
passavam sim e eram belas e fogosas

a noite descia e trazia consigo
as estrelas- vênus das ruas
brilhavam e iluminavam
a vida e os desejos dos homens

não se sabia se eram fêmeas machos
travestidos andrógenos bichos bichas
não se sabia se sonhavam se amavam
se gozavam se seduziam se machucavam

eram estranhos seres felizes
donos da madrugada dos mundanos
dos menestréis mendigos magistrados
dos miseráveis dos mentecaptos dos mortos-vivos

na sombra da noite eram morcegos iluminados
à procura de sangue
dos inocentes ou dos culpados
vampiros imortais em seus desvãos de sedução

quando a noite se ia
e não se via mais a lua
as estrelas das noites
senhoras das ruas e dos bares
maldição de todos os lares
desapareciam nos bueiros da cidade

domingo, outubro 23, 2011

anjo caído

                                                 desenho/ rafael godoy                                                             

Ele entrou e disse que estava frio lá fora. Bebeu o café  quase frio e acendeu um cigarro. Disse que aquele dia tinha visto algumas pessoas estranhas que o seguiam. Jurou que não era paranoia. Perguntou sobre  os gatos e se esticou no sofá. Falou sobre o possível apocalipse mas disse que não acreditava em anjos. Elogiou a música que tocava, acho que Coltrane, e falou que nesse momento vinha uma paz quase inevitável ou que a vida tinha algum sentido. Pediu pra eu soltar os cabelos e sentir o cheiro do xampu que gostava. E ainda, com voz baixa  e com os braços fortes, me puxou para  o seu lado e me deu um beijo longo. Sua boca tinha gosto de menta, provavelmente, alguma bala para tirar o gosto do cigarro. Estava intensamente sensual, com os cabelos despenteados e cheiro de chuva. Dormi em seus braços e quando acordei  já tinha ido embora. Ele era assim, aparecia em qualquer hora, dizia coisas sem sentido ou ficava preso em seu silêncio. Eu entendia esse homem de poucas palavras e gestos definitivos. E ele sabia disso.  Talvez fosse ele um anjo caído por acaso em minha vida.

sexta-feira, setembro 23, 2011

nem a primavera

desenho/ rafael godoy

as palavras não saem mais
nem da minha pele
das feridas abertas
dos meus dedos
dos meus olhos cansados
ou do amor que perdi

muito menos da primavera que chegou com força
pura poesia

ficaram presas talvez para sempre
no abismo inatingível de mim

sexta-feira, setembro 09, 2011

No poema dia

Oi, pessoas que passam por aqui.

Ando sem tempo mesmo, trabalhando demais. É um período difícil de escola, revisão de tese de doutorado(não minha) e mãe doente. Não posso visitar todos blogs de que gosto e muito menos deixar comentários. Mas, brevemente, estarei de volta. Hoje publiquei no poema dia.

Pra conferir é só clicar aqui.

Beijos

sábado, setembro 03, 2011

muito lindo

Nada como uma massagem no ego. Pra conferir clik aqui. Vale a pena! Beijos



PS: Estou bastante ausente, mas quando o trabalho acumula a poesia fica acumulada também, mas na cabeça. Uma hora explode! Beijos

sábado, agosto 20, 2011

o dia em que estava mulher

arte: ricardo ferrari (artista plástico/ pai de rafael godoy)

deixei de pensar quando vi você sentado nessa cadeira fria de madeira
com o ar de nuvens destoante do resto do espaço
tudo estava em ordem naquele momento
os quadros na posição correta
o chão limpo e os móveis sem poeira
a louça lavada e as roupas secando ao vento

era um dia de sol morno
os gatos estirados com a barriga pra cima
e o cheiro de limpeza no ar

tudo estava em ordem naquele momento
as plantas regadas a roupa de cama trocada
as toalhas com cheiro de amaciante
e a comida cheirando no fogão

eu era mulher feliz naquele dia
e cantava com lô:
"quando chego a fim de falar
ela dorme em frente à tevê"

estava mulher nesse dia morno
com os cabelos lavados
as unhas feitas
e sem pelos nas axilas
e sem pelos nas virilhas e nas pernas
a pele macia com cheiro de manhã

você estava sentado nessa cadeira fria de madeira
e eu não pensava em feminismos ou em literatura
nem nos amigos que estavam ali perto
bebendo no bar da esquina

eu estava mulher feliz naquele momento
e tudo estava em ordem
por um dia naquele dia
era mulher feliz
sua mulher
por apenas um dia