quinta-feira, abril 05, 2012

bestial


arte: possivelmente o autor seja rafael godoy

dri, ele me falou
saia dessa letargia
rompa a casca
me lembrei de bashô
e o que sempre quis como epitáfio:
"casca oca
a cigarra
cantou-se toda"
pensei:  foda-se mil vezes o mundo
e foda-se qualquer movimento
foda-se essa lua enorme e redonda
foda-se a a quinta, a sexta, foda-se a paixão
foda-se tudo
e recitei o verso de pessoa:
"à parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo"
não tenho sonhos hoje
não sei se terei algum dia
e foda-se se já morri em grande parte
me lembro também de ana cristina cesar:
"tenho ciúmes deste cigarro que você fuma
tão distraidamente"
e tem os amigos, os filhos
o cigarro que fumo e tem você que não fuma 
e penso que a poesia pode salvar
mas não hoje
não com esse poema bestial


segunda-feira, março 19, 2012

estamos mais velhos, mano

ao henrique( poi), meu mano


estamos mais velhos, mano
quando saímos daquela porta
não sabemos se vamos voltar
 os passos são mais lentos
você disse que a música era pra mim
mas minha negra cabeleira
não se mantém sem tinta escura
seus cabelos são brancos e poucos
mas você é um menino grande
e o seu sorriso se espalha na sala
em que brincamos tanto na infância

estamos mais velhos, mano
mas quando estamos juntos nos tornamos meninos
e rimos das mesmas coisas
e brigamos e choramos juntos
e nos embebedamos pelas esquinas
dividimos o mesmo cigarro a poesia
 "a noite a lua e até solidão"

estamos mais velhos, mano
e gosto de pensar que envelhecemos juntos
e gosto de pensar que tenho você por perto e sempre

segunda-feira, março 05, 2012

feridas custam a secar

tenho em mim o resto de meus dias
e não sei de que são feitos
sei que horas são quando me chamam pra almoçar
ou qualquer outra besteira cotidiana
a não ser quando incendeia a lua
me importo menos com as coisas que me atormentavam tanto
e desisto de pular a janela
vou acumulando sorrisos e caretas
 feridas custam a secar
lobos passam silenciosos e com medo
percebo só as suas sombras
e isso me basta
um drink, amor?
para celebrar o vazio
o que importa
se os degraus são altos e não posso alcançá-los?
enojam-me as tragédias humanas
e sou uma delas

sábado, fevereiro 18, 2012

entre bougainvilles e demônios



não que essa bougainville não me inspire
 ou esse bem-te-vi solitário não me diga algo
existe entre mim e as coisas lá fora um abismo escuro 
e a estrada não aponta o sol
esperava que você fosse ao inferno comigo
e me dissesse que nem tudo estava perdido
mas preferiu pegar o primeiro voo e bater suas asas aflitas
ir para um mundo em que não estou
pra quê então o telefone depois
e dizer que sente a minha falta 
cara os dias e noites são todos meus
os anjos e os demônios me pertencem
e sei que quando acordar eles vão estar lá
mas você não

sábado, fevereiro 04, 2012

muletas

 
nessas tardes intermináveis e quentes
as muletas são o céu visto da janela
a visita de pessoas queridas
o cheiro de café vindo da cozinha
 o cigarro proibido
o sorriso da mãe presa na cama
e a lição que ela dá dia a dia
com sua força e doçura

os dias e noites são quase iguais
uma calma forçada e triste
a paciência trabalhada a cada minuto
                               
                                o poema se faz sem poesia

dizem que tudo tem razão de ser
embora não creia nisso
pode ser que seja verdade

sábado, janeiro 28, 2012

eles já estão aqui

 
os maias talvez não estivessem enganados
os anjos negros tocam trombetas
e são milhares os cavaleiros do apocalipse
as nuvens são de gafanhotos e de sangue
o tempo infortúnio de quem  padece

em um mesmo mês tornozelo quebrado
segredos fortes revelados
choro dor assombro amor e ódio
um primo que morre em vida
outro que morre de verdade

assim caminha 2012
os cavaleiros assombram em toda parte
mas o que mais me dói
é o que está perto de mim

hoje daria tudo para esquecer
(hoje morreu zé carlos, um primo querido)

sexta-feira, janeiro 20, 2012

anjos também se distraem



 arte: ricardo ferrari

do céu ao  inferno
dois estalos um cheiro de quase morte
o tornozelo aberto para a chuva
a dor impossível
estranha e quente
a rua vazia a solidão inevitável
um segundo a vida muda tudo muda
em segundos a fragilidade exposta
os cães às vezes  uivam de dia

viagem cerveja banheiro andar
 o cotidiano inalcançável
demônios soltos
a vontade louca de voltar e mudar o destino 
  
cama livros música amigos família
redescobrir o sentido da vida 
  olhar a lua 
esperar o dia amanhecer
  poder dormir e  sonhar de novo

acreditar em anjos
e saber que às vezes eles também se distraem


 "A dor é estranha. Um gato matando um passarinho, um acidente de carro, um incêndio... A dor chega, BANG, e aí está ela, instalada em você. É real. Aos olhos dos outros, parece que você está de bobeira. Um idiota, de repente. Não há cura pra dor, a menos que você conheça alguém capaz de entender seus sentimentos e saiba como ajudar."

Charles Bukowski



domingo, janeiro 15, 2012

viagem que não foi

Pois é, um dia antes de viajar, quebrei o tornozelo. Operaram meu pé, colocaram vários pinos. Tô  na casa da mamãe, a família que tá cuidando de mim. Isso é muito bom. Poder contar com meus irmãos. Chorei muito de dor e de desespero, mas agora o jeito é me conformar. Tem os amigos, os livros, os filmes, o computador, o amor e o carinho de muita gente. Não posso voltar pra casa, lá tem três lances de escada.Tenho de ficar pelo menos dois meses sem colocar o pé no chão. Dói demais. É muita limitação pras coisas mais simples. O jeito é ter paciência. Tô tomando muito remédio pra dor, antibióticos, antiinflamtório, uma porrada de coisa. Ando meio grogue, meio triste. Ando meio perdida de tudo, de mim. Mas acho que vou conseguir superar mais essa. É isso. 

quinta-feira, dezembro 15, 2011

dia molhado

            arte: rafael godoy

 morri ontem mais uma vez
e minha alma perambula por essas ruas de lama e chuva
a cidade chove demais e não para
o rio arrudas transborda e joga o lixo nas calçadas
sou o que resta de mim
e não é bonito o que tenho agora ou terei depois
não posso pular
ou salvar as pessoas debruçadas ali
as luzes de natal são molhadas e frias
as capas e os guarda-chuvas  respingam
incomodam
vejo o que não queria ver
mas tem uma flor que boia no rio
o mar está longe
estou  parada na chuva
e olho o rio de lama invadindo a cidade
minha alma molhada sai pelos olhos
mas  me lembro de uma música de tom
pode ser que amanhã venha o sol
ou chova de novo na roseira

quinta-feira, dezembro 08, 2011

o velho da janela

                                                           arte: rafael godoy
Ontem não o vi mais ali.
O velho que ficava na janela em frente à minha tinha morrido.
De uma forma estranha: bebeu duas taças de champanhe, ficou verde e se foi.
Não que eu tivesse alguma simpatia por aquele sujeito. Na verdade, me incomodava demais.
Sempre estava lá, nos momentos mais inoportunos. Vivia sem camisa e o seu porte avantajado dava a impressão de que era muito  mais jovem do que seus oitenta e três anos. Sua voz, como percebeu o meu filho, era de um garoto.
Mexia com todos que subiam ou desciam a rampa, principalmente, com as viúvas. Como um predador, dizia que estavam lindas e que queria namorá-las. Umas aceitavam o elogio e sorriam timidamente. Outras, o achavam inconveniente. Mas, de uma certa forma, o velho preenchia as suas vidas.
Por incontáveis vezes, tive que fechar a cortina, pois com seus olhos indiscretos entrava em meu apartamento e me despia com o seu olhar de rapina, embora, muitas vezes, já estivesse nua.
Gostava quando abria a janela e ele, por algum motivo, tinha perdido a cena. Era como se eu tivesse vencido algum lance de jogo de cartas ou feito um gol de placa.
Nunca soube o seu nome, até ontem, quando a zeladora me contou sobre a sua morte:
- O Seu Manoel morreu, disse-me ela.
- Quem?
- O Seu Manoel do 407!
-Ah! Que pena! respondi-surpresa e escondendo o meu alívio!
Até hoje não sei por que ele me deixava tão irritada.
Mas, ontem, senti a sua falta e, embora soubesse de sua morte, fechei as cortinas, quando saí do banho, enrolada em uma toalha.
Por um momento, ao olhar a janela em frente, vislumbrei uma sombra e uma risada que conhecia bem.
 E, quando saí de casa, ao atravessar a rampa, não olhei mais para cima. Mas tinha certeza de que ele estava lá. Ou o seu fantasma. 


( Hoje, depois de alguns anos, vi novamente o velho da janela. Juro que ele estava lá)

sábado, novembro 26, 2011

a cidade é outra

arte/ rafael godoy

visto de cinza a cidade
as ruas têm prédios demais
e eles não se cansam de criar outros a cada dia
as britadeiras rodam na minha cabeça
 escondem as sirenes e buzinas
os gritos dos gatos o canto dos bêbados
as construções apagam a lua  espantam o vento
 silenciam os poetas
as montanhas são dilaceradas dinamite e cimento
a cidade que era minha
vai embora de mim
espalha pó nos cabelos embaça meus olhos
e deixa um gosto estranho na saliva
a cidade é outra
eu sou outra
mas ainda posso ver através da fumaça do cigarro
um sol pálido
que começa a nascer





sexta-feira, novembro 11, 2011

quinta-feira, novembro 03, 2011

estrelas da noite

rascunho para tela/ rafael godoy
a daniel rubens prado 
        (buda)

passavam sempre ali as putas
piranhas vadias maquiadas
pisavam com passos leves
purpurinas meninas mulheres

passavam ali e atormentavam
os senhores as senhoras
pudicos em seus lares e dogmas
passavam sim e eram belas e fogosas

a noite descia e trazia consigo
as estrelas- vênus das ruas
brilhavam e iluminavam
a vida e os desejos dos homens

não se sabia se eram fêmeas machos
travestidos andrógenos bichos bichas
não se sabia se sonhavam se amavam
se gozavam se seduziam se machucavam

eram estranhos seres felizes
donos da madrugada dos mundanos
dos menestréis mendigos magistrados
dos miseráveis dos mentecaptos dos mortos-vivos

na sombra da noite eram morcegos iluminados
à procura de sangue
dos inocentes ou dos culpados
vampiros imortais em seus desvãos de sedução

quando a noite se ia
e não se via mais a lua
as estrelas das noites
senhoras das ruas e dos bares
maldição de todos os lares
desapareciam nos bueiros da cidade

domingo, outubro 23, 2011

anjo caído

                                                 desenho/ rafael godoy                                                             

Ele entrou e disse que estava frio lá fora. Bebeu o café  quase frio e acendeu um cigarro. Disse que aquele dia tinha visto algumas pessoas estranhas que o seguiam. Jurou que não era paranoia. Perguntou sobre  os gatos e se esticou no sofá. Falou sobre o possível apocalipse mas disse que não acreditava em anjos. Elogiou a música que tocava, acho que Coltrane, e falou que nesse momento vinha uma paz quase inevitável ou que a vida tinha algum sentido. Pediu pra eu soltar os cabelos e sentir o cheiro do xampu que gostava. E ainda, com voz baixa  e com os braços fortes, me puxou para  o seu lado e me deu um beijo longo. Sua boca tinha gosto de menta, provavelmente, alguma bala para tirar o gosto do cigarro. Estava intensamente sensual, com os cabelos despenteados e cheiro de chuva. Dormi em seus braços e quando acordei  já tinha ido embora. Ele era assim, aparecia em qualquer hora, dizia coisas sem sentido ou ficava preso em seu silêncio. Eu entendia esse homem de poucas palavras e gestos definitivos. E ele sabia disso.  Talvez fosse ele um anjo caído por acaso em minha vida.

sexta-feira, setembro 23, 2011

nem a primavera

desenho/ rafael godoy

as palavras não saem mais
nem da minha pele
das feridas abertas
dos meus dedos
dos meus olhos cansados
ou do amor que perdi

muito menos da primavera que chegou com força
pura poesia

ficaram presas talvez para sempre
no abismo inatingível de mim

sexta-feira, setembro 09, 2011

No poema dia

Oi, pessoas que passam por aqui.

Ando sem tempo mesmo, trabalhando demais. É um período difícil de escola, revisão de tese de doutorado(não minha) e mãe doente. Não posso visitar todos blogs de que gosto e muito menos deixar comentários. Mas, brevemente, estarei de volta. Hoje publiquei no poema dia.

Pra conferir é só clicar aqui.

Beijos

sábado, setembro 03, 2011

muito lindo

Nada como uma massagem no ego. Pra conferir clik aqui. Vale a pena! Beijos



PS: Estou bastante ausente, mas quando o trabalho acumula a poesia fica acumulada também, mas na cabeça. Uma hora explode! Beijos

sábado, agosto 20, 2011

o dia em que estava mulher

arte: ricardo ferrari (artista plástico/ pai de rafael godoy)

deixei de pensar quando vi você sentado nessa cadeira fria de madeira
com o ar de nuvens destoante do resto do espaço
tudo estava em ordem naquele momento
os quadros na posição correta
o chão limpo e os móveis sem poeira
a louça lavada e as roupas secando ao vento

era um dia de sol morno
os gatos estirados com a barriga pra cima
e o cheiro de limpeza no ar

tudo estava em ordem naquele momento
as plantas regadas a roupa de cama trocada
as toalhas com cheiro de amaciante
e a comida cheirando no fogão

eu era mulher feliz naquele dia
e cantava com lô:
"quando chego a fim de falar
ela dorme em frente à tevê"

estava mulher nesse dia morno
com os cabelos lavados
as unhas feitas
e sem pelos nas axilas
e sem pelos nas virilhas e nas pernas
a pele macia com cheiro de manhã

você estava sentado nessa cadeira fria de madeira
e eu não pensava em feminismos ou em literatura
nem nos amigos que estavam ali perto
bebendo no bar da esquina

eu estava mulher feliz naquele momento
e tudo estava em ordem
por um dia naquele dia
era mulher feliz
sua mulher
por apenas um dia







domingo, agosto 14, 2011

sua presença

a meu pai

quando ele se foi deixou sua presença invisível

uma máquina de escrever
um relógio que sempre marcava a mesma hora
uma lata de rapé pequena, palavras cruzadas
um livro de camões que sabia de cor
e o tapete queimado de cigarro

quando entrei no quarto
o seu cheiro
o som de seu riso e de sua sabedoria
o abraço no ar que até hoje busco

quando ele se foi
tinha um bem-te-vi na janela
e hoje também tem um
me pego com o coração pequeno
e sinto meu velho pai me abençoando

(republicado)

sexta-feira, julho 22, 2011

santê

http://youtu.be/T-bhxL-XbPA( pra ouvir)

não vou me enfiar em um carro ou avião
e ir pra qualquer lugar
vou ficar nesta cidade
ir em santa tereza e ver a noite em beagá
ontem fui lá
os bares as ruas a música
era assim que era a cidade
e em santê ainda continua
continua em cada cigarro aceso
em cada copo de cerveja tomado
no povo louco que passa
nas mesas espalhadas nas calçadas
nos amigos do passado
nos poetas que recitam versos imcompreensíveis
na bossa nova e no rock and roll
a cidade continua em santa tereza
nas casas antigas e nas praças
nas farmácias com ph
ninguém pensa na morte
as ruas são calmas e cheias de vida
tem o macarrão do bolão
pra fome da madrugada
as crianças andam de bicicleta
as famílias se misturam com os boêmios
tudo é harmonia
e lá o tem clube da esquina
ontem fui em santa tereza
e ouvi música boa
a cidade continua lá
e continua no meu travesseiro
quando chego e me deito
e a lua ainda na janela


domingo, julho 17, 2011

Lá no Maria Clara

Pois é, hoje estou lá no Maria Clara com um poema de que, particularmente, gosto muito, talvez por que me traduza um pouco ou o meu "eu-lírico"( embora não goste muito dessa história de eu-lírico).

Pra conferir é só clicar aqui.

Beijos

sábado, julho 09, 2011

Hoje no poema dia

Estou lá no poema dia.
Pra conferir é só clicar aqui.
Beijos



PS: Gostaria de estar mais presente nos blogs que sigo, mas é tempo de fechar o semestre e o trabalho de professor nessa época é dobrado. Mas logo vou ficar em dia com vocês. Férias!!!!!!!!!

quinta-feira, junho 30, 2011

um poema para mim

Mais uma vez, o poeta Danilo de Abreu me presenteou com um poema porreta! Esse cara é bom mesmo. Sou sua fã. O título é: "depois do escuro". Pra conferir é só clicar aqui.

Beijos

terça-feira, junho 07, 2011

a noite sou eu




vivo a noite
sou a noite escura fria sedenta
se lua me encolho em sua sombra

se chuva me afogo em poesia

quando as luzes da cidade acendem
as pessoas nos bares ou voltando pra casa
saio em busca de meus pedaços jogados
nas esquinas e nos becos


sou os gatos

que rondam as mesas dos bares
em busca dos restos de comida
os bêbados em sua solidão mascarada
as putas atrás de seus homens perdidos

a noite sou eu a música
os ratos despercebidos e cinzas
os pássaros noturnos e silenciosos

a noite sou eu sem lua

quinta-feira, maio 26, 2011

I'm so tired





É claro que não foi do jeito que eu imaginava. Nem podia ser. Aquela hora em que as pessoas passam voltando para casa, a cidade gemendo buzinas e sirenes, a correria louca desatinada e você ali, sentado, tomando um café e pensando no que vai me dizer. Então eu chego e trago um sorriso meio tímido, meio assustado. Você acende um cigarro e joga a fumaça para o ar e me pergunta o que fazer. Falo sobre o trânsito, da casa velha que ficava perto do Arrudas e de contas a pagar. _Você já viu aquele filme? Ele responde que não e sussurra uma melodia dos Beatles: "I'm so tired".... Pergunto o que ele almoçou hoje e ele me ignora. Raspa a garganta e acende outro cigarro. Disparo na fala, insinuo ciúmes, imito a cena de um filme que vi algum dia. Peço um uísque com gelo. Ele diz que bebo demais, que é cedo pra começar. Não retruco, concordo em silêncio. Ele também pede um, sem gelo. Eu pego um embrulho, guardado na bolsa e entrego pra ele. Ele me olha com os olhos molhados, negros como a noite que chega. Não consigo ficar parada e peço mais um uísque, vou ao banheiro, molho o rosto na água fria e as lágrimas são quentes . Vejo quando estou voltando que a mesa está vazia. Tem um guardanapo e um trecho de " I"m so tired" , escrito com tinta azul: " I wonder should I get up and fix myself a drink?" Ele volta. O copo na mão. "I'd give you everything I've got for a little peace of mind". Vamos de mãos dadas para casa.

(texto republicado levemente alterado)

segunda-feira, maio 09, 2011

Hoje tem poema meu no poema dia

Queridos,

Quem quiser ler é só clicar aqui.
Vou gostar e muito!

Beijos.

quarta-feira, abril 27, 2011

cenas da terra

aquarela/ rafael godoy
a henrique bardo pimenta


ouvi os gritos de quem estava sendo engolido pela terra
e deles não tive pena

as casas continuavam brancas como fantasmas perdidos
e as crianças corriam loucas pelos passeios

uma mulher acabava de comer uma maçã vermelha e doce
e jogava as cascas para os pombos e abutres

uma velhinha empurrava com a bengala
as fezes dos pardais ensandecidos

o rio transbordava e jogava seus excrementos
contaminando o canal e as pessoas

um bando de velhos jogava cartas
nos bancos da praça abandonada

o poeta tentava achar a palavra que faltava
para completar seu poema de mil versos

os cães mastigavam uma carne transparente
não se sabia se era de gente ou de bicho

cavalos selvagens não corriam
apenas observavam o ritmo da natureza

a terra continuava a engolir os desvalidos e os afortunados
um homem lançava pedras no lago escuro

enquanto isso alguém tocava John Coltrane
e enfeitiçava a lua pálida

a terra parou e vomitou seus mistérios
e vomitou seus filhos seus bichos
sua decadência seus deuses sua arte

e finalmente adormeceu

(texto republicado)

segunda-feira, abril 25, 2011

hoje é aniversário dela

25/o4/2010


Hoje é o aniversário de minha mãe. 86 anos. E faz dois meses que ela está internada, se alimentando através de sonda, respirando pela máquina, sem falar, sem nunca mais falar. No entanto, seus olhos brilham e nos dizem coisas que não sabemos o que é, mas sentimos forte, muito forte.
Mamãe continua em um leito estranho de hospital e é aniversário dela. Não sei se sabe que hoje é seu dia. Talvez ela pense na família, na grande família em volta da mesa ou espalhada pela casa, os gritos das crianças, os netos, os bisnetos, a música, os risos, os abraços, o amor de cada um de seus filhos. Talvez sua festa seja em outro lugar...
Hoje é aniversário de minha mãe e não sei comemorar...não consigo comemorar. Só dizer do amor que tenho por ela pra sempre.

quarta-feira, abril 20, 2011

Tô lá no Maria Clara

Então, pra quem quiser conferir é só clicar AQUI.

Beijos

segunda-feira, abril 04, 2011

sai de mim

desenho/ rafael godoy

sai de mim coisa ruim
vai pra onde eu não te encontre mais
infeste outro corpo que não o meu
estou cansada
quem sabe outra goste
de seu mau agouro
invente outro mal
que esse já me basta
tire esses olhos de cão sem dono
e essa voz macia de minha pele
vai pra lá
onde o diabo consiga te carregar
porque eu não consigo mais