segunda-feira, dezembro 21, 2009

Recado ao Noel

desenho e texto de guga shultze

Ei, Santa. Mantenha essas renas longe do meu telhado. Vai me quebrar todas as telhas e, depois, quem é que vai pagar o estrago, heim, heim? Pare de atormentar as criancinhas com sua inexplicável obssessão pelo vermelho. Cê é algum raio de comunista ou o quê? Que que cê come lá no Polo Norte para ser tão gordo? Tá precisando de um regime, véio. Que que é rou, rou, rou? Isso é uma risada ou uma ameaça? Sai pra lá, chulé; vê se larga do meu pé.
PS: cê vai trazer presentes? Pra mim? Então me manda os anos 70 de volta e algumas pessoas que ainda tavam lá. Depois a gente conversa.

Com esse texto do Guga Shultze me despeço de vocês, volto em janeiro. 2010 está aí e que ele seja bem melhor que o 9. Agradeço a todos que marcaram presença em meu blog e que fizeram e fazem a diferença. Beijos.

quinta-feira, dezembro 17, 2009

véspera

desenho de carcarah

de noite veio um bêbado
andando no meio da rua escura e chuvosa
trombou numa árvore enfeitada de luzes de natal
ficou olhando aquela coisa iluminada
sentado na calçada com a garrafa em suas mãos
pensou que tivesse em outro país
começou a cantar em inglês uma velha canção
viu neve onde havia chuva fina
um cão perdido de rua era sua rena
adormeceu sorrindo
e de manhã já era natal

(republicado)

domingo, dezembro 13, 2009

quando a escuridão

desenho de carlos carah
a luciano fraga


quando a escuridão parece mais escura que é
e você está no meio do mar em um pequeno bote
vê uma mancha preta maior que a escuridão
pensa que não haverá mais jeito
desta vez não tem saída
então olha para cima e não vê estrelas
olha para baixo as águas são geladas e negras
você ali no pequeno bote
no meio daquele oceano imenso e gelado
sem tempo sem brisa sem cor sem som
e aparecem uns olhos esverdeados
que brilham e não são estrelas
são maiores que a escuridão e o frio
e você se agarra a eles a seu brilho
você acorda em sua cama e uns olhos verdes escuros
mais escuros que aquelas águas te olham
então você dorme e quase sonha e quase se aquece
e quase pensa que está salvo


(poema originariamente publicado no blog versos e perversos de luciano fraga )

domingo, dezembro 06, 2009

hoje tem!

Pessoal, hoje é meu dia no poema dia. Quem quiser conferir é só clicar aqui. Beijos.

Mário Bortolotto


Hoje estou triste, muito triste. Bortolotto foi assaltado e levou três tiros, quando bebia com seus amigos, após a peça "Brutal" de sua autoria, no Espaço Parlapatões, na Praça Roosevelt, São Paulo. Tive a oportunidade de assistir a essa peça e conhecê-lo há pouco tempo pessoalmente. Acompanho seu trabalho e sou sua fã e foi com tristeza que soube dessa notícia. Já foi submetido a algumas cirurgias e seu estado é muito grave. Agora é só torcer muito. Por coincidência, tinha feito um poema pra ele, enviei por e-mail e ele publicou em seu blog dia 3/12.:

"E falando em rapaziada que vale a pena, a Adriana Godoy lá de BH (que sempre comenta aqui e que eu conheci pessoalmente há pouco tempo quando esteve por aqui assistindo "Brutal") escreveu um poema pra mim. Eu gostei. Fiquei lisonjeado, aliás. E gostei principalmente da parte dos anjos velando. Tô precisando disso. Ela escreveu assim:

Bortolotto, estava dando aula agora e o assunto era escrever um poema sobre alguém, tipo uma biografia. Então, enquanto os alunos estavm escrevendo, sem querer fiz isso sobre você. Não me leve a mal, mas saiu de um fôlego só. Sei que não tá legal, meio didático, não é muito meu jeito, mas resolvi te enviar assim mesmo. Beijo.

meu querido outsider

ele vem de coturnos com os cadarços desamarrados
a camisa grande com as mangas maiores que os braços
uma camiseta por baixo
um quase sorriso e um jeito tímido e forte

o dia é feito de ressacas e de um computador
quando calor demais liga o ventilador
e as ideias se espalham em textos únicos e mágicos

a noite chega e ele sai à caça de bebidas e de possíveis amigos
ou joga bilhar com homens e mulheres
e não duvida que pode ter brigas e pode brigar
mas agora prefere desativar bombas
e ficar mais leve um pouco

o rock e o blues estão em suas veias
como as palavras para um poeta
a voz rouca combina tão bem com o uísque que toma
e com a música que canta
que se tornam indissolúveis

escreve como quem enxerga os subterrâneos humanos
nos seus mais obscuros infernos
e deixa a solução na alma de cada um
encena e traduz a angústia de diversos personagens
mas traz em si as angústias da humanidade

encanta por ter um coração de menino
por gostar de lutas e de filmes b
de revista de mulher pelada
de comer coxinha de madrugada

de ver as séries na tevê

de ouvir mp3 num canto qualquer e ficar só

de conversar com os mendigos e perdidos da cidade
enquanto estudantes estão indo pra escola

ver o sol nascer pode lhe dizer
pra voltar pra sua quitinete
e tentar dormir o que a noite não deixou

então sonha, menino, tá tudo certo

no meio do caminho pode ter um bar

e mulheres e amigos que te esperam

os anjos te velem e digam amém

(Adriana Godoy)

Valeu, Adriana, que os anjos cuidem mesmo de todos nós. E que eles sejam mais bacanas que os fdp do "Supernatural", né? Mário Bortolotto"

segunda-feira, novembro 30, 2009

dessas noites em que estava lavando pratos

estudo desenho/ rafael godoy


o detergente faz espuma na pia
os pratos ficando limpos no escorredor
os pensamentos sujos quero um cigarro
uma música um blues o céu escuro
meus gatos escondidos em silêncio

duas taças de vinho quase cheias
os pés no chão e pálidos
uma janela uma luz acesa do outro lado

as garrafas de vinho abertas e vazias
leio os rótulos e penso num poema
um inseto esquisito vindo de outro lugar
voa em torno das garrafas vai até a luz e volta
o tempo não tem pressa meus olhos o seguem

os pratos vão ficando limpos
as panelas ficam pra depois

pego uma taça e dou um gole
acompanho o blues num inglês ruim

o inseto se vai e bebo mais
olho a noite escura os pratos brancos
alguém me espera no sofá

estranho pensar no abandono de toda ambição

quarta-feira, novembro 25, 2009

hoje tem!!

Pessoas queridas, hoje tem um poema meu no Maria Clara Simplesmente Poesia. Não é inédito, mas se quiserem conferir é só clicar AQUI. Beijão.

quarta-feira, novembro 18, 2009

apelo

estudo para tela/ desenho de mulher/ rafel godoy

traz para mim os dias que não vivi
todas as noites perdidas
e o sorriso que não tenho mais

vai lá e busca o que me cure
sem que doa ou que arda
apenas que alivie

encontre o que deixei cair na estrada
os poemas esquecidos nas gavetas
e as músicas que não ouço mais

molhe os pés no mar
porque aqui só há montanhas
e jogue uma flor pra iemanjá

deixe seu cheiro espalhado
compre uma garrafa de champanhe
velas amarelas e incensos de baunilha

estou aqui do outro lado e juro
tem uma lua enorme no céu da cidade

segunda-feira, novembro 16, 2009

A noite de Heitor

rafael godoy

De algum lado da cidade vinha um frio estranho para essa época do ano. Heitor abriu a janela, a pequena janela do seu quarto fedido e imundo. Colocou o rosto para fora e sentiu um vento meio de lado, que não parecia pertencer àquele lugar. Olhou para cima, para baixo, para os lados e viu que não tinha ninguém nas outras janelas, só ouviu um ruído, quase como um sopro. Lembrou-se da noite que tivera com uma mulher. Uma noite quente, extremamente, quente.. Os lençóis estavam fora do colchão, e havia restos de uísque nos copos, pontas de cigarro nos cinzeiros e um cheiro de quase morte. No chão, além da calça jogada , um batom sem a tampa, um papel de chocolate. Ao entrar no banheiro, notou que o gás estava ligado e que a água do chuveiro caía continuamente sobre o azulejo. Fechou a torneira, o vapor condensava-se no espelho da pia. Heitor passou a toalha no espelho e o que viu o assustou. Era um outro homem o que estava ali: os olhos vermelhos, a pele envelhecida, o cabelo desarrumado, a barba por fazer. A última imagem que tinha de si não era essa. Pegou o aparelho de barbear, ensaboou o rosto e fez a barba. Entrou debaixo do chuveiro e ficou algum tempo se limpando com o sabonete de erva-doce que alguém havia lhe dado. Enxugou-se com uma toalha limpa. Vestiu uma calça jeans, uma blusa branca e saiu do quarto. Ao abrir a porta da sala, notou um bilhete debaixo da porta. Era dela, de Valeska, a mulher da noite. Uma lufada de ar gelado rompeu pela porta e o envolveu. Ficou ali parado, olhando o vazio do corredor.


segunda-feira, novembro 09, 2009

hoje tem!

Ei vocês! Hoje tem poema meu no poema dia.
Se quiserem conferir é só clicar AQUI. Beijos.

sexta-feira, outubro 30, 2009

sympaty for the devil

exercício para tela / rafael godoy

mais uma vez ouvi a música dos stones "sympaty for the devil" e sempre me surpreende a letra, o ritmo, a melodia. acho que foi no final da década de 60 ou início dos anos 70, não sei, que eles tocaram pela primeira vez.
de certa forma foram precisos na definição de lúcifer, hoje reencarnado na figura desses caras donos do mundo, nos assassinos ou no vizinho da frente.
andamos correndo de nós mesmos, andamos correndo do demônio que está mais em nós do que em outras pessoas, andamos nas ruas com o medo nos rondando e com medo de olhar nos olhos dos meninos ou de qualquer pessoa que nos mostre a diferença ou o espelho.
e isso a cada dia, a cada hora, a cada minuto.
lúcifer, simpático e garboso em sua sedução, em sua gentileza.
ele me estende a mão e sempre que posso a aperto com força.
quero o seu poder, a sua indiferença; quero o prazer, o deleite, a luxúria.
e ele vai me seduzindo e seduzindo tantos outros. vendo a minha alma. ele é o deus eterno presente em todos os tempos. poucos sabem reconhecê-lo verdadeiramente. poucos sabem o seu verdadeiro jogo. eu sei. e tenho prazer em conhecê-lo.

"pleased to meet you, hope you guessed my name"... Is just the nature of my game"...

o vídeo está aqui




quarta-feira, outubro 28, 2009

Tem poema meu!

Gente, tem um poema meu no Maria Clara Simplesmente Poesia. Para conferir é só clicar aqui.
Beijos.

sábado, outubro 24, 2009

atrás da árvore

aquarela/ paisagem/rafael godoy
você, amor, escondeu-se atrás da árvore
aquela que subíamos quando crianças

você disse que nunca cresceria
e como peter pan na terra do nunca
nunca me deixava sem o seu pó mágico

voávamos sobre as cidades
entrávamos por todas as janelas
ríamos e chorávamos indivisíveis

eu era sua fada e você meu encantador
inventávamos o mundo
para que ficássemos juntos

as suas mãos me ensinaram
as melhores brincadeiras

juramos amor eterno
e gravamos dois nomes
em um coração amarelo
no galho mais alto e escondido

agora te vejo, amor
atrás da árvore
atrás do que fomos
atrás do que perdemos


quarta-feira, outubro 21, 2009

filhos na noite

imagem google

irmãos na noite espalhados
na casa da velha mãe
hoje não é festa, não é aniversário
e surge a pergunta mortal
quem vai ficar com ela?

como se ela não pensasse
como se ela fosse a carga mais pesada

a mãe poderosa e infalível
mergulha nas suas sombras
nos seus medos e sofre

por que meus filhos estão aqui?
queria afagá-los e tirar deles todo sofrimento
queria carregá-los no colo
queria alimentá-los e enchê-los de alegria

os filhos como morcegos agitados
começam a se debater
quem vai ficar com ela, a mãe?

uns esbarram as asas frágeis nos outros
uns tentam perfurar o coração dos outros
uns se acham insubstituíveis, infalíveis
são líderes, poderosos, ou mais sábios
outros apenas ouvem calados o que se fala

e no fundo do corredor, em seu quarto,
a mãe adormece, preocupada com suas crias

o cansaço da vida faz doer o seu corpo
as suas pernas são quase inúteis
e no seu peito o coração metálico
marca os seus passos dia a dia

e nessa noite ela sonha
sonha com a família em volta da mesa
as conversas intermináveis,
os risos, as piadas, as brigas, a comilança
seus filhos não cresceram tanto
e o seu velho companheiro ainda esta lá

nessa noite, ela sonha

os morcegos, suas crias, levantam voo
cada um com a sua culpa, cada um com o seu pecado

imaginam que poderiam cantar uma canção
que embalasse o sono de sua mãe
essa mulher que tanto sugam, que tanto amam
que tanta admiração causa
que guarda tantos segredos

mas não sabem como
e choram
suas asas pesam
como se carregassem a humanidade inteira
como se já estivessem definitivamente
presos em suas cavernas mais escuras

(republicado)

domingo, outubro 18, 2009

cenas de parede


quando uma lagartixa deslizou
nas pálidas paredes
e mostrou seu ventre transparente

quando um inseto noturno
desses que voam
entrou e mexeu suas pobres asas

percebeu o olhar parado
frio e mortal daquele ser esbranquiçado
e se debateu loucamente

por uma única vez olhou a lua
e viu nos olhos da mórbida lagartixa
o mesmo brilho

foi devorado lentamente
inexoravelmente


sábado, outubro 17, 2009

quando vim ontem pela rua

desenho de carlos carah

quando vim ontem pela rua vi um cachorro morto. fiquei olhando para ele imaginando como teria sido a sua vida de cachorro. então lembrei da minha vida e vi que não era muito diferente.me vi morta com a cabeça no passeio e o resto do corpo na rua. imaginei outro cachorro me cheirando com o focinho frio e o bafo quente. vi que ele saiu correndo, como quem corre do diabo.


sábado, outubro 10, 2009

na praça


no caos de minha cidade às seis da tarde não tinha mais nenhum pardal. nem que eu olhasse todos os fios, todas as eiras e beiras e procurasse no meio da praça não tinha nenhum pardal e fiquei perdida olhando para aquilo tudo. passou um cara pedindo pra engraxar meus sapatos e eu estava descalça porque fazia calor demais e a primavera tinha começado. mas ele insistiu e eu disse: hoje não dá, cara! então dei umas moedas pra ele e falei que o fim de tarde estava estranhamente belo, mesmo sem os pardais. o cara me abriu um sorriso dos mais lindos que já vi, saiu rápido e trouxe algumas latas de cerveja gelada e ficamos conversando sobre a cidade e o por do sol. os pardais foram chegando um a um e ficaram ali como se entendessem nossas palavras e como se pressentissem essa possível e intensa primavera.

PS: Tem poema meu no Balaio Porreta, aqui.

quinta-feira, outubro 08, 2009

tem poema meu de novo!

Pessoal querido , só pra não perder o costume, tem um poema meu lá no poema dia. Se quiserem conferir é só clicar aqui..Beijos.

terça-feira, outubro 06, 2009

sem noção


Não sei em que apuros me meti, mas quando vi você com essa cara linda e máscula sob a luz dessa lua cheíssima, pulei em seu pescoço e dei o maior, mais sensual e mais gostoso beijo da minha vida. Pena que sua mulher estava do lado.

quarta-feira, setembro 30, 2009

poema meu

Ei, meus queridos e estimados leitores.
Se quiserem conferir, tem um poema meu AQUI.

Beijos.

domingo, setembro 27, 2009

ora direis

imagem google: fonte desconhecida

Havia 25 milhões de estrelas aquela noite. Foi o que consegui contar. Apertava meus olhos com força para ver se não estava imaginando coisas. Mas não adiantava. Elas se mexiam. Na minha visão míope pareciam bailarinas ensandecidas. Era como me presenteassem com uma dança meio triste, meio azul. As estrelas falavam. O Bilac não saía de minha cabeça: " Ora direis ouvir estrelas, certo perdeste o senso"... E eu as ouvia sim, nitidamente, intimamente. E com medo de mim, fechei a janela. Mas pela fresta, ainda percebia um movimento silencioso daqueles olhos brilhantes, daqueles milhões de olhos brilhantes me olhando.

terça-feira, setembro 22, 2009

chamado

gravura no metal/ rafael godoy

imagino-te louco lobo devasso
quando chega a noite e a lua entretanto
cordeiro manso e frio na cama

me pego então a contar estrelas
no céu da boca a língua saliva
febre insana no corpo que treme

na rua lobos me chamam
estou pronta para saltar os muros
e atravessar paredes

sexta-feira, setembro 18, 2009

sem assobio


tenho que te dizer hoje que a lua está lá, linda, imensa.
as palavras agitam a minha cabeça.
não se encontram.não são amigáveis.
uma garrafa com café já velho, um cigarro pra acender.
essa tela brilhante do computador, a minha lua.
nessa noite os gatos estão em silêncio.
um assobio calmo e afinado destoa-se do resto da cidade.
é esse assobio que me faz pensar.
o homem do assobio não sabe que olho para ele da minha janela.
não sabe a força de seu assobio.
não sabe que sua paz incomoda.
penso um jeito de parar com isso.
assim a música acabaria.
assim tudo ficaria igual.
sem assobio, sem nada.

quinta-feira, setembro 17, 2009

Constatação

É foda.Tem dia que a gente acorda e pensa: Que merda é essa? E não tem mais saída. O dia continua sendo uma merda. A noite, uma merda. E você dorme e pensa: amanhã vai ser melhor. Acorda e tá tudo uma merda de novo.

quarta-feira, setembro 16, 2009

na segunda manhã

(texto de Danilo de Abreu Lima, dando continuidade ao meu outro texto: "na primeira manhã")

“O inferno era agora, finalmente o diabo tinha vencido. O inferno era agora, finalmente o diabo tinha vencido.”

...e assim, perdivagando nesses pensamentos endemoniados acabei dormindo e o dia se esvaiu assim meio perdido aturdido no centro daquele ciclope daquele som de cabeças sendo cortadas pauleira desdentando bocas e esfacelando crânios e eu a pensar meu deus que poderá ainda vir meu deus meu deus por que tanta doideira numa só tacada será que você já está antecipando o fim eu penava e lembrava o inferno de signos de Pasolini se bem que era muito mais amador e cheio de humor do que esse: esse som( não música, som) ensurdecedor, é foda agüentar esta zuera,mano! E assim eu acabei caindo num sono meio azucrinado sonhando pesadelos acordado viajando nas ondas do inferno e vendo os diabinhos gargalhando lá no fundo do quadro. Perdivagava assim vagabundo na vagazona do entrevigília e sonho e de repente acordei...já não era mais quele dia tinha passado a noite e já era outro dia e já era a manhã do segundo dia... e eu abri a janela, desconfiado, descerrei a persiana devagar como quem não quer nada como caramujo saindo do caracol para se esbaldar na luz do sol e e não houv-ia mais aquela coisa aqueles baticuns aqueles tuntistuntunnnn malditos...ah, havia um solindo lá fora e ...nem entendi ou não acreditava: havia vivaldis sinfônicos voando no ar, eram a primavera o verão o outono e o inverno todos juntos em doces sons que se amalga-amavam nos ouvidos antes surdos- beethoveeeeeens vindos nas asas de abelhas que zumbiam nonas e quintas e maravilhas de Mozart navegando os ares que eram assim meio gelatinosos meio gosmentos de tanta música a pairar parar no ar eu até via eles lá os quatro cavaleiros empunhando rocks dos sessenta
e...ei, será que tomei alguma coisa ontem pra dormir e me ficou essa ressaca essa doideira me fazendo ver o que não é?
.mas não, o diabo não havia vencido e o inferno não era aqui, e agora...ainda havia espaços abertos e flores flores e florestas se abrindo...pensei nos lilazes e nas luzes nas margaridas brancas, sabe aquelas de árvore tipo os ipês aquele escândalo de beleza que até doem nos olhos pensei naqueles velhos interiores e nas pessoas gentes que nem sabem que existem essa música e essas noites e esses desvarios e esses vazios e esses vícios.. pensei nos passarinhos, sim nos passarinhos e no mato e no verde e...
e sei que o diabo não venceu a parada... muitos tamos noutra, ainda, e o mundo ainda tem redenção!

segunda-feira, setembro 14, 2009

na primeira manhã

desenho em carvão /rafael godoy

Na primeira manhã em que abriu a janela para rua, o som intragável de uma música eletrônica fez vibrar seus dois ouvidos. Desde esse dia então pensou que melhor seria ficar trancado até as tripas se dissolverem e saírem por suas orelhas e poros para não ter que escutar aquele som. Um som que devia ficar preso no inferno atormentando as almas pecadoras da Terra. Quando se lembrou da frase de Sartre "o inferno são os outros' riu para si mesmo. O verdadeiro inferno é essa música, concluiu. Pensou em um livro que tinha lido há muitos anos" Os demônios descem do Norte" e era quase profético ao narrar a saga dos evangélicos que vinham da América do Norte e se espalhavam pelo mundo. Eram pensamentos vagos. O Tinhoso devia estar feliz, o capeta e seu tridente em riste. Quis abrir a janela, quis pensar que estava errado, que tinha exagerado em suas percepções. Não pôde. Ao som torturante da música eletrônica, como um marca-passo estúpido e insistente, no meio de tantos que dançavam, havia um ar de triunfo, quase satânico e um sorriso escondido em uns olhos vermelhos. O inferno era agora, finalmente o diabo tinha vencido.

quarta-feira, setembro 09, 2009

além de mim


meça as suas palavras, ele disse
medi e eram do tamanho do mundo
não cabiam mais em mim
atravessaram os oceanos
e as veias quentes do corpo
saíram pelos poros em meu suor
e desapareceram
como as tardes mornas de setembro


imagem:fonte desconhecida

terça-feira, setembro 08, 2009

poema dia/ hoje poema meu

Mais uma vez, convido vocês para darem uma espiada no poema dia. Tem um poema meu lá. Beijos. Clique aqui.

sexta-feira, setembro 04, 2009

hoje tem

Pessoal, tem um poema meu no "simplesmente poesia". Quem quiser conferir é só clicar aqui. beijos.

quarta-feira, setembro 02, 2009

quando vier o dia


Protesto contra a morte de uma jovem de 17 anos, moradora da favela Heliópolis, na zona sul de São Paulo, ocorrida na noite de segunda-feira. Foto de Werther Santana/Agência Estado.
( imagem do blog de Víctor Barone
http://escrevinhamentos.blogspot.com/)

e quando vier o dia
os homens estarão mortos
as crianças tristes e perdidas
e órfãs as mulheres

quando vier o dia
ficarão pássaros com asas queimadas
e o grito insano da cidade

estaremos sedados
a noite e o país em pedaços

melhor fechar as janelas
e não ouvir

estaremos seguros em nossas casas
e alguém dirá que não existe guerra

(esse poema também está lá no Balaio Porreta, aqui)