Não podia ouvir mais esse blues. O nome do cantor não sabia, mas tinha uma voz meio rouca, quase doce. Entrava na minha alma, como se entra em um lugar conhecido. Desliguei o som e saí pela cidade à procura de um lugar que me fizesse esquecer de algum modo o peso do dia. Não vi nenhum rosto conhecido. Entrei em um boteco querendo beber alguma coisa, porque estava frio. Já era noite. E então vi alguns homens jogando sinuca em um êxtase quase animal. Foi como a cena de um filme, eles pegavam o taco como se pega uma mulher. Mexiam, giravam o corpo miravam o buraco, contorciam-se feito serpentes. Ali naquela hora pude perceber um sentido para a vida. Um deles chegou perto de mim e me ofereceu um conhaque, sentou-se a minha mesa e ficou me olhando. Não falou nada, eu também não. Ficamos ali, talvez, minutos, horas, a noite toda. Bebemos mais vários conhaques, o corpo quente, a alma inquieta. E então ouvi aquele som, um blues cantado por uma voz rouca e quase doce. Acho que ele me beijou e disse alguma coisa sobre os perigos da noite.
quinta-feira, agosto 13, 2009
noite blues
Não podia ouvir mais esse blues. O nome do cantor não sabia, mas tinha uma voz meio rouca, quase doce. Entrava na minha alma, como se entra em um lugar conhecido. Desliguei o som e saí pela cidade à procura de um lugar que me fizesse esquecer de algum modo o peso do dia. Não vi nenhum rosto conhecido. Entrei em um boteco querendo beber alguma coisa, porque estava frio. Já era noite. E então vi alguns homens jogando sinuca em um êxtase quase animal. Foi como a cena de um filme, eles pegavam o taco como se pega uma mulher. Mexiam, giravam o corpo miravam o buraco, contorciam-se feito serpentes. Ali naquela hora pude perceber um sentido para a vida. Um deles chegou perto de mim e me ofereceu um conhaque, sentou-se a minha mesa e ficou me olhando. Não falou nada, eu também não. Ficamos ali, talvez, minutos, horas, a noite toda. Bebemos mais vários conhaques, o corpo quente, a alma inquieta. E então ouvi aquele som, um blues cantado por uma voz rouca e quase doce. Acho que ele me beijou e disse alguma coisa sobre os perigos da noite.
domingo, agosto 09, 2009
sábado, agosto 08, 2009
casa velha

atrás do fogão fantasmas
nos quartos de portas frias
dormem sós as velhas tias
a geladeira congela
a vida que a casa tinha
vozes quase inaudíveis
dos fantasmas na cozinha
a noite grande e tamanha
a água na bica cintila
a casa não é minha
no balanço da cadeira
o avô invoca
santos e donzelas
no canto a neta espia
a dança das escravas mortas
na janela a lua agoniza
à espera de um novo dia
quinta-feira, agosto 06, 2009
Passa lá !
Gente, hoje é a minha estreia no blog Maria Clara. Tem um poema meu. Então, se tiverem a fim, passem lá . Acho que vale a pena conferir, senão o meu poema, mas das outras poetas. Pronto, falei. Beijos.
segunda-feira, agosto 03, 2009
na pia espuma branca
as montanhas me cobrem os olhos tão longe
e a noite com suas sombras negras não me deixam ver mais
tem os cabelos nascidos para o sol sua lucidez me perturba
na pia espuma branca com pontos negros e cheiro de lavanda
limpo tudo o sabonete no chão
não posso mais compartilhar suas manhãs
seu cheiro misturado ao vapor do espelho
nem a pasta de dente sem tampa
está tão perto
mas não de mim
e a noite com suas sombras negras não me deixam ver mais
tem os cabelos nascidos para o sol sua lucidez me perturba
na pia espuma branca com pontos negros e cheiro de lavanda
limpo tudo o sabonete no chão
não posso mais compartilhar suas manhãs
seu cheiro misturado ao vapor do espelho
nem a pasta de dente sem tampa
está tão perto
mas não de mim
OLHA SÓ!!!
Tive a grata surpresa de ver meu texto "rosas brancas" no blog Teorema da Feira. Fiquei mais uma vez surpresa e feliz. O Lívio Oliveira é que cometeu essa "sandice". Então, gente, quem quiser dar uma força, apareça por lá. Obrigada e beijos.
sexta-feira, julho 31, 2009
nessa hora
Nessa hora a chuva cai.
Não tenho planos, não penso o que vou fazer amanhã, muito menos daqui a alguns anos.
Meus filhos estão longe, a casa vazia.
Os gatos me olham e parecem dizer: será que ela não vai fazer nada? E ao mesmo tempo gostam da minha presença, aninham-se aos meus pés.
Não consigo procurar amigos e nem parentes. Nem fazer qualquer coisa para comer. Quando me dá fome, tomo um café que está ali, ao meu alcance e mastigo um pão de forma velho com manteiga.
A geladeira , como disse alguém, um deserto frio e árido. Não tem bebida, nem vinho, nem cerveja. O cigarro me acompanha em meus devaneios. Gosto de chegar na área e olhar a chuva.
Busco compreender algumas coisas em mim, mas isso também passa. Não estou alegre, nem triste, nem nada. O telefone toca e é uma promessa de encontro. Não quero também. Tenho que me vestir, me arrumar, sair de casa ou preparar a casa para alguém. Então dou uma desculpa qualquer e fujo de qualquer compromisso. Gosto da casa assim, com a cama desfeita, mas aconchegante, com algumas coisas fora do lugar, que fui eu que deixei. Os livros assim espalhados. Leio, mas não me prendo a nenhum. Um poema aqui, outro lá. Trechos de obras já lidas. Às vezes um livro inteiro em poucas horas. Mas é assim que gosto. Vejo tevê e procuro alguma coisa que preste. É difícil, mas consigo. Também, se quiser, mudo o canal a qualquer momento e brinco com as imagens. Ouço uma música que há muito não escuto e me surpreendo: como eu gostava daquela música! E acho uma merda. Durmo em alguns momentos e tenho sonhos estranhos, como ir ao fundo de uma piscina funda, muito funda, cheia de folhas e lama e conseguir voltar à superfície, ilesa. E quando volto à tevê, assisto a uma cena semelhante. Só que o cara não teve a mesma sorte. Afogou-se.
Tocam o interfone. Pode ser o gás, o correio, alguém pedindo alguma coisa, ou mesmo, um amigo. Mas não atendo. Não quero sair dessa inércia. Parece que a chuva parou. E eu parada aqui e os gatos me olham.
(republicado)Meus filhos estão longe, a casa vazia.
Os gatos me olham e parecem dizer: será que ela não vai fazer nada? E ao mesmo tempo gostam da minha presença, aninham-se aos meus pés.
Não consigo procurar amigos e nem parentes. Nem fazer qualquer coisa para comer. Quando me dá fome, tomo um café que está ali, ao meu alcance e mastigo um pão de forma velho com manteiga.
A geladeira , como disse alguém, um deserto frio e árido. Não tem bebida, nem vinho, nem cerveja. O cigarro me acompanha em meus devaneios. Gosto de chegar na área e olhar a chuva.
Busco compreender algumas coisas em mim, mas isso também passa. Não estou alegre, nem triste, nem nada. O telefone toca e é uma promessa de encontro. Não quero também. Tenho que me vestir, me arrumar, sair de casa ou preparar a casa para alguém. Então dou uma desculpa qualquer e fujo de qualquer compromisso. Gosto da casa assim, com a cama desfeita, mas aconchegante, com algumas coisas fora do lugar, que fui eu que deixei. Os livros assim espalhados. Leio, mas não me prendo a nenhum. Um poema aqui, outro lá. Trechos de obras já lidas. Às vezes um livro inteiro em poucas horas. Mas é assim que gosto. Vejo tevê e procuro alguma coisa que preste. É difícil, mas consigo. Também, se quiser, mudo o canal a qualquer momento e brinco com as imagens. Ouço uma música que há muito não escuto e me surpreendo: como eu gostava daquela música! E acho uma merda. Durmo em alguns momentos e tenho sonhos estranhos, como ir ao fundo de uma piscina funda, muito funda, cheia de folhas e lama e conseguir voltar à superfície, ilesa. E quando volto à tevê, assisto a uma cena semelhante. Só que o cara não teve a mesma sorte. Afogou-se.
Tocam o interfone. Pode ser o gás, o correio, alguém pedindo alguma coisa, ou mesmo, um amigo. Mas não atendo. Não quero sair dessa inércia. Parece que a chuva parou. E eu parada aqui e os gatos me olham.
sábado, julho 25, 2009
filosofia barata
aquarela/rafael godoy
reverencio os mistérios
mas não os creio divinos
a dor e o sofrimento não são divinos
a humanidade feder e exalar horrores
a natureza gritar e transbordar
agonizar em febre e frio por causa do homem
também não
se deus fosse a natureza
não se chamaria flor a flor
nem bicho o bicho
nem mar o mar
nem homem o homem
há mistérios multitudinários
mas ninguém escolheu
comer o pão que o diabo amassou
ser miserável ter fome e desprezo
lutar em uma guerra inaceitável e desigual
morrer aos milhões por bala perdida ou canhão
à míngua ou solidão?
não me fale em livre arbítrio
a escolha não é essa
quem escolheu sofrer até a exaustão?
reverencio os mistérios
mas não me fale em deus
mas não os creio divinos
a dor e o sofrimento não são divinos
a humanidade feder e exalar horrores
a natureza gritar e transbordar
agonizar em febre e frio por causa do homem
também não
se deus fosse a natureza
não se chamaria flor a flor
nem bicho o bicho
nem mar o mar
nem homem o homem
há mistérios multitudinários
mas ninguém escolheu
comer o pão que o diabo amassou
ser miserável ter fome e desprezo
lutar em uma guerra inaceitável e desigual
morrer aos milhões por bala perdida ou canhão
à míngua ou solidão?
não me fale em livre arbítrio
a escolha não é essa
quem escolheu sofrer até a exaustão?
reverencio os mistérios
mas não me fale em deus
sexta-feira, julho 24, 2009
praga (ou poeminha safado)
estudo para aquarela/ rafel godoytolo é você que pensa que não é
você, você mesmo
com essa cara de safado
com esse ar de desgraçado
com esse cheiro de mulher
você que tinha os olhos cor da lua
que mexia em meus cabelos
me olhava com medo
e me fazia cafuné
cuspirei no seu sorriso
pisarei no seu calo
esmagarei o seu abraço
por onde passar
há de causar horror
um cheiro podre
exalará ad infinitum
e assim quando vier
maldito mal cheiroso mal vestido
encontrará a casa fechada
e qual fênix a sua mulher
segunda-feira, julho 20, 2009
rosas brancas
por uma dúzia de rosas brancas ela se jogou em frente à banca de flores e disse ter perdido o marido naquela tarde. suas lágrimas também brancas invadiram aquele espaço e o coração do florista. debruçou-se sobre o vaso e foi arrancando uma a uma as rosas postas em um belo arranjo. para cada rosa que tirava dava um suspiro e com a outra mão ia formando um novo buquê. assim que completou as doze rosas, ela olhou mais uma vez para o vendedor, completamente paralisado, comovido com sua dor. mandou-lhe um beijo soprado e logo alcançou a esquina sem pressa . em seu rosto, um sorriso de noiva abandonada no altar.
domingo, julho 19, 2009
baú
carlos gardel-imagem googleo que tirei do baú não eram mistérios
eram panos remendos algumas bijouterias
um urinol branco de ágata uma toalha de renda
um álbum antigo de pessoas desconhecidas
(mesmo que me reconhecesse em algumas fotografias)
um cheiro de poeira a tesourinha da minha avó
a seringa de prata do meu avô
um disco de carlos gardel e el dia que mi quieras
um vestido vermelho e o perfume de uma noite
tirei de lá algumas vidas adormecidas em lembranças
e as ressuscitei na sala de jantar
ficaram cochichando rindo dançando
e eu sussurrando medos
o que tirei do baú não eram mistérios
mas o fechei com força a sete chaves
e era hora do jantar
terça-feira, julho 07, 2009
Atrasados
Estamos atrasados, meu amor
O rio já correu
O sol já se foi
e o dia ainda não foi embora
Perdemos a noite escura
mais negra que os olhos do diabo
Perdemos a hora de dançar com as árvores
com seus galhos como as mãos da morte
O vento está morno e fraco
As flores não têm cheiro
Perdemos o trem
que atravessa a cidade
Não vamos a lugar nenhum
O tempo já passou
Ficamos aqui de mãos dadas
Como duas crianças perdidas
As ruas são longas
e estreitas as esquinas
Estamos atrasados, meu amor
O mundo esmaga os nossos sonhos
lentamente, intensamente.
terça-feira, junho 30, 2009
Pero Jaz
(imagem google-carta de caminha-portinari)Pero Vaz, vazio de alma e rico de letras
Não entendia a nudez das índias
A beleza de nossas terras
Pensava ele ser o arauto do nosso esplendor
Dono da natureza escravo de seu rei
Pero Vaz Caminha caminhou
Por terras nunca dantes caminhadas
E naufragou no seu assombro
Mergulhou fundo no seu espanto
Mandou ao rei carta que dizia
Não compreender por que o sol
Estava na terra em pequenos pedaços de areia
Que o verde se encontrava também em minerais
Chamados esmeraldas
Que o vermelho do sangue
Derramado em seu caminho
Em lutas contra os imberbes primitivos
Concentrava-se em pedras chamadas rubis
Dizia ser as vergonhas das índias
Vergonhosas demais
E sem pêlos ou roupas para cobri-las
Cobriu-as de pegajosos excrementos
Despejados de seus rins
Como também o fizeram todos os lusitanos
Que na terra estavam, sendo jesuítas ou ateus
E fertilizaram nosso solo com suas impurezas
E violaram o sagrado mistério de nossas mulheres
E ali nascia um novo povo
Crianças mamelucas mestiças mulatas
Com cabeças pequenas demais para pensar
Com o cheiro acre-podre de seus pais
E crescendo viram a terra que não lhes pertencia
Que jamais seria genuinamente sua
E deixaram entrar nobres, bárbaros e plebeus
Varões, eunucos, negros,
Brancos, amarelos,garanhões
E quanto mais gente se formava
Mais a terra lhes era tirada
E desde mil e quinhentos anos
A terra continua lhes sendo roubada
E mesmo que clamem os profetas
Mesmo que chorem os da natureza amantes
Mesmo que sequem todos os rios
Mesmo que acabem todas as matas
Mesmo que não exista mais fauna
Mesmo que morra mais e mais gente
A terra nunca lhes pertencerá
E Pero Vaz de Caminha
Na sua ignorante sabedoria
Jaz em sua terra zombando daquela gente
E no ano da graça de dois mil e tantos
Acharam em seu túmulo
Esmeraldas, ouro e rubis
Encontraram em seu túmulo
Uma pergaminho de brilhantes
E uma incrição com tinta de pau-brasil
Com os dizeres amaldiçoados:
"Mesmo que se plante nesta terra
E aqui se plantando tudo dá
Mesmo que germinem todas as sementes
Mesmo que nasçam seres mais inteligentes
A esse povo não caberá nenhum quinhão"
E feliz jaz Pero Vaz em seu leito de morte
Coberto de todos os brilhantes
Sabendo que a sua praga vingará
E assim foi
E assim será
(poema republicado, feito a partir de uma aula de literatura sobre a carta de Caminha aos alunos do ensino médio)
segunda-feira, junho 22, 2009
você nem sabe

você nem sabe que gosto de capuccino com creme
depois pitar um cigarro olhando a tarde
nem que grito e choro quando meu time joga
nem de quando me levanto de madrugada para ver a noite ir embora
e depois cerrar a persiana para dormir de novo com o sol lá fora
não sabe que gosto da noite da lua
do vento que sopra do outro lado da cidade
nem que gosto da cidade e das montanhas
não sabe que gosto de conversar sobre o planeta e as pessoas
e da música do Clube da Esquina
nem que gosto de tomar cerveja com velhos amigos
e saber que vale a pena
dos gatos que ficam por aqui e sempre me observam
nem sabe do poema que fiz quando olhei para os seus olhos
e que joguei fora- vômito saindo da garganta
não sabe que seu cheiro está em meu corpo
como ferroada de marimbondo bravo
não sabe que depois de ontem
me dissolvi como açúcar no café quente
e ainda estou aqui ao lado do telefone
(imagem: fonte desconhecida)
segunda-feira, junho 15, 2009
por ali
( estudo para aquarela/ paisagem/ rafael godoy)caminhei por ali onde um amigo dos mais queridos
acabava de ser enterrado e o céu estava nublado
um vento frio entrava nas frestas da roupa
fiquei assim olhando aquele lugar cheio de árvores e um lago quase azul
e olhei os nomes de quem já estava debaixo da terra úmida
e pensei em cada nome que li e nas pessoas que poderiam ter sido
olhei a terra mexida e cheia de flores em cima do cimento
e sabia que ele estava ali com o corpo frio
e não queria pensar nele ali debaixo da terra
me lembrei de quando viajamos
das cervejas que tomamos e das músicas que cantamos
dos lugares e das pessoas
de como era bom estar do seu lado mesmo em silêncio
nos risos cúmplices e nos momentos de raiva
de como implicava comigo quando eu derrubava alguma coisa
ou quando lambuzava minha boca e minha mão de manteiga
ou trocava as palavras de um jeito distraído
e quando ele fazia palhaçadas e ria de si mesmo e do mundo
me lembrei de sua família perdida sem sua presença
dos filhos sem pai e do fogão a lenha
me lembrei de uma vida inteira com sua voz sua música sua dança
de um dia quando saímos de manhã e voltamos só de madrugada
e das longas conversas sobre a vida essa mesma vida que ele perdeu
e de deus de sentidos de indagações de confidências de perplexidades
caminhei por ali e pensei que ele estava debaixo da terra
e não queria pensar nisso
já era noite e os faróis dos carros brilhavam
no céu nublado somente uma estrela
e na terra um cheiro de flores
( O Vu se foi dia 10/06/2009)
terça-feira, junho 09, 2009
hoje tem um poema meu no poema dia
Já publiquei, mas se quiserem, deem uma espiada. Beijos.
http://poemadia.blogspot.com/
http://poemadia.blogspot.com/
quarta-feira, junho 03, 2009
lobos

quando lobos da cidade com seus olhos de neon
sobem solitários a ladeira fria do bairro
mesmo que não tenha lua e a noite seja de ventos
pensam em suas vidas na fumaça e no uísque que deixaram nos bares
nas mulheres que beijaram e juraram ser únicas
pensam que amanhã pode ser diferente mesmo sabendo que não
entram em casa e olham suas mulheres
dormindo amassadas e quase puras e os filhos no quarto ao lado
esses lobos viram anjos subitamente
vestem a camiseta branca e escovam seus dentes
como a limpar os restos do pecado
desejam bons sonhos em silêncio
se enroscam em suas mulheres sob o edredon macio
à noite se esquecem e voltam aos lugares perdidos
beijam mais mulheres e bebem mais uísque
marcam seu território com mãos, línguas e histórias inventadas
e a lua aparece azulada e tímida
esses lobos uivam e seus olhos são de neon
sexta-feira, maio 29, 2009
irreversível
não tire de mim o encanto desse diaainda que seus olhos me implorem
e seu corpo se ausente
as lembranças são minhas
e você não pode fazer mais nada
quando a noite me engolir de vez
é esse dia que lembrarei
e você não pode fazer mais nada
mais nada
(imagem do filme: o homem que não estava lá
/ renè magritte)
terça-feira, maio 26, 2009
poema lá
Oi, amigos, queridíssimos poetas e eventuais leitores, tem um poema meu inédito no blog do poeta Luciano Fraga. Quem quiser, dê uma espiada. Beijos.
http://versoseperversos.blogspot.com/
http://versoseperversos.blogspot.com/
sábado, maio 23, 2009
cenas da terra
paisagem/estudo para aquarela/ rafael godoy(para Henrique Bardo Pimenta)
ouvi os gritos de quem estava sendo engolido pela terra
e deles não tive pena
as casas continuavam brancas como fantasmas perdidos
e as crianças corriam loucas pelos passeios
uma mulher acabava de comer uma maçã vermelha e doce
e jogava as cascas para os pombos e abutres
uma velhinha empurrava com a bengala
as fezes dos pardais ensandecidos
o rio transbordava e jogava seus excrementos
contaminando o canal e as pessoas
um bando de velhos jogava cartas
nos bancos da praça abandonada
o poeta tentava achar a palavra que faltava
para completar seu poema de mil versos
os cães mastigavam uma carne transparente
não se sabia se era de gente ou de bicho
cavalos selvagens não corriam
apenas observavam o ritmo da natureza
a terra continuava a engolir os desvalidos e os afortunados
um homem lançava pedras no lago escuro
enquanto isso alguém tocava John Coltrane
e enfeitiçava a lua pálida
a terra parou e vomitou seus mistérios
e vomitou seus filhos seus bichos
sua decadência seus deuses e sua arte
e finalmente adormeceu
quando a escuridão
quando a escuridão parece mais escura que é
você está no meio do mar em um pequeno bote
vê uma mancha preta maior que a escuridão
pensa que não haverá mais jeito
então olha para cima e não vê estrelas
as águas são geladas e escuras
você ali no pequeno bote
no meio daquele oceano imenso e gelado
aparecem uns olhos esverdeados
você ali naquelas águas e aqueles olhos
você se agarra a eles a seu brilho
você acorda em sua cama e uns olhos verdes escuros
mais escuros que aquelas águas te olham
então você dorme e por uns momentos sonha
( poema originariamente publicado no blog versos e perversos de Luciano Fraga)
você está no meio do mar em um pequeno bote
vê uma mancha preta maior que a escuridão
pensa que não haverá mais jeito
então olha para cima e não vê estrelas
as águas são geladas e escuras
você ali no pequeno bote
no meio daquele oceano imenso e gelado
aparecem uns olhos esverdeados
você ali naquelas águas e aqueles olhos
você se agarra a eles a seu brilho
você acorda em sua cama e uns olhos verdes escuros
mais escuros que aquelas águas te olham
então você dorme e por uns momentos sonha
( poema originariamente publicado no blog versos e perversos de Luciano Fraga)
terça-feira, maio 19, 2009
três cachorros
quinta-feira, maio 14, 2009
Benedita
aquarela/rafael godoya Daniel Lopes
quando Benedita me disse que já era noite
não acreditei
porque em seus olhos brilhavam dois sóis
e o chá que ela me trazia
tinha o aroma da minha infância
então quis pular da cama
mas suas mãos negras e quentes
me seguravam
e sua voz dizia para eu dormir
depois de noites acordada
ruminando sonhos destoantes
deitei a cabeça em seu colo
e pude dormir como dormia nos braços de minha vó
Benedita cantou canções e dormiu com meus sonhos
a noite ficou doce e suave
e tinha gosto de quintal e de manga caída do pé
sábado, maio 09, 2009
mais um susto
Oi, amigos, passei por mais um susto. Tive que ser internada de novo com urgência, pois estava com peritonite aguda. Passei mais quatro dias no hospital, fui submetida a uma punção, uma das coisas mais dolorosas por que já passei e agora estou em casa. Ainda estou tomando remédios fortes pra dor à base de morfina e antibiótico. Já me sinto melhor e em breve volto pra sair desse clima horror/hospital. Tô meio grogue ainda, mas jájá volto aos blogs de meus queridos amigos e poetas. Obrigada mais uma vez pelo carinho e atenção. Meu sangue ainda pulsa nas veias. Beijos.
sexta-feira, maio 01, 2009
estranhamente


tutuco chiquinha
Estranhamente veio a dor aguda como faca quente cortando a carne e o coração que não estava no lugar certo, pelo menos naquela hora.
Cheguei ao espaço branco com lâmpadas azuladas e brancas com gente espalhada por todos os lados e tinham alguns que usavam máscaras e aparelhos gelados pendurados no pescoço. E então eles me furaram várias vezes, mil vezes e tiraram chapa e olhavam dentro do corpo com gel gelado e como espectros dançavam dentro de mim.
Vi seres pálidos e doloridos e eu era um deles. Injetaram líquidos esverdeados e ardentes. Me sedaram e me furavam de novo só que desta vez eu dormia e fui abduzida e submetida a experiências estranhas. Tiraram de mim uma pedra que talvez tivesse vindo da lua e tiraram pedaços do meu corpo e me injetaram drogas para acabar com os seres microscópicos que infestavam meu sangue.
E vieram muitos amigos e muitos da família e alguns desconhecidos. Olhavam pra mim e eu via nos seus olhos a minha doença . Via em seus olhos que a minha vida estava escorrendo em minha cara branca e no soro pendurado em meu braço, em minha veia.
A dor vai indo e me levando para outros caminhos. Meus dois gatos me olham e sentem um cheiro diferente, mas deitam sobre os meus pés frios e o mundo fica mais aconchegante.
convalescendo
Acabo de voltar do hospital LifeCenter onde fiquei internada por uma semana. Tive infecção aguda e pedra na vesícula . Tiraram a pedra, tiraram a vesícula, tiraram a infecção e tiraram a minha alegria por um tempo. Aos poucos vou me atualizando com os blogs de meus amigos, mas por enquanto ainda me sinto um pouco fraca. Obrigada pelas visitas e preocupação. Beijos.
sexta-feira, abril 24, 2009
hercília fez...
Gente, tem um poema que a Hercília fez pra mim no blog dela. Vale a pena. Recomendo, narcisismo à parte. Beijos.
http://fernandeshercilia.blogspot.com/
http://fernandeshercilia.blogspot.com/
sábado, abril 18, 2009
manhã
quarta-feira, abril 15, 2009
Eles
arlequim/estudo para aquarela/rafael godoyNo dia em que estava acorrentada
aos pés da mesa de meu pai
Vieram todos eles
De uma só vez e sussuraram maldições
Vieram todos de uma só vez
Nenhuma pena tiveram
Vociferavam palavrões
Diziam coisas impróprias
Não ligaram para os meus olhos
Não ligaram para meu choro mudo
Acorrentada ainda estava
E dançavam à minha volta
Mostravam seus corpos nus e retorcidos
E quase ingênuos e quase maus
Deliravam em seu êxtase
Falavam línguas estranhas
E exibiam sua enormes línguas
Viscosas e vermelhas
Às vezes as tocavam em mim
E eram quentes
E eram úmidas
Ainda acorrentada
Ainda atormentada
Vi pouco a pouco
Todos eles indo em direção à porta
Que estava entreaberta
E fugiam delicadamente
Saíam em harmonia
E eu ali acorrentada
E eu ali apavorada
E quando meu pai chegou
Abriu o cadeado
E me soltou das correntes
Perguntou:
"Está com fome, menina?"
Nenhum som saiu de minha garganta
Ele pegou o chicote
E me deu algumas chibatadas
E me disse: "Faço isso para o seu bem"
Respondi docilmente:
Sim, meu pai
E fiquei olhando aquela porta
Esperando que eles voltassem
E de novo meu pai saiu
E de novo me acorrentou
Mas nunca mais eles vieram
Nunca mais ouvi as suas línguas
Estava finalmente amaldiçoada
A solidão para sempre
Apenas um som
A voz de meu pai
E me deu algumas chibatadas
E me disse: "Faço isso para o seu bem"
Respondi docilmente:
Sim, meu pai
E fiquei olhando aquela porta
Esperando que eles voltassem
E de novo meu pai saiu
E de novo me acorrentou
Mas nunca mais eles vieram
Nunca mais ouvi as suas línguas
Estava finalmente amaldiçoada
A solidão para sempre
Apenas um som
A voz de meu pai
Que perguntava sempre:
"Está com fome, menina?"
E eu disse naquele dia:
"Sim, meu pai"
"Está com fome, menina?"
E eu disse naquele dia:
"Sim, meu pai"
Ele guardou o chicote
E vi em seus lábios
Um ligeiro sorriso
E vi em seus lábios
Um ligeiro sorriso
( texto escrito há mais tempo)
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