sábado, março 28, 2009

o ar frio que entrava pela janela

estudo de aquarela/ Rafael Godoy

mais de uma vez ele me disse
que havia solução
que nem tudo estava perdido

mais de uma vez apagou a luz ao sair
me deixou na escuridão do quarto
e pôs Milles Davis para tocar

mais de uma vez me cobriu com o edredon
colocou a mão na minha testa
para ver se eu estava com febre

mais de uma vez me beijou com olhos selvagens
me chamou de vadia de louca de perdida
e deliramos juntos no deserto de nossa cama

mais de uma vez ele chorou
olhando as estrelas

mais de uma vez jurei mudar
era só uma questão de tempo

mas depois de mil e uma noites
depois de apagar a luz do quarto
ele se foi

eu fiquei

e ficou a noite a música
e o ar frio que entrava pela janela

sábado, março 21, 2009

o que vou deixar para os meus filhos?

série cenas de infância /ferrari

o que vou deixar para meus filhos?
há mães que deixam fotos organizadas em álbuns.
há mães que deixam uma conta na poupança para o futuro deles.
há mães que dão exemplo de uma vida serena e comportada.

o que vou deixar para os meus filhos?
algumas fotos coladas sem ordem , alguns cedês,
algumas histórias esquisitas, tristes ou engraçadas,
alguns livros que provavelmente não vão ler,
uma infância linda em um tempo de quintais,
alguma tristeza de não os ter amado como precisavam.

o que vou deixar para meus filhos?
um olhar que está nos olhos deles,
um jeito tímido de sorrir,
uma foto minha na parede,
e a certeza de que são a melhor coisa que deixei.

domingo, março 15, 2009

cenas de rua


no vago tom da noite
a árvore parada e morna
com seus galhos feito mãos inúteis
assombram os que passam incautos
o passeio é um deserto esticado
e a rua com asfalto recente geme
quando carros deslizam loucamente
com suas buzinas ensurdecedoras

do outro lado da rua
um homem fuma solitariamente
não sorri, apenas olha a fumaça que sobe
a moça passa: tem fogo?
nesse momento o seu corpo é uma fogueira
a moça mostra o cigarro apagado e ergue a mão
tem fogo?- repete
ele todo é uma fogueira
a moça sorri com o cigarro apagado
o homem arde e olha a fumaça que sobe
a moça já virou a esquina

um cão atravessa a rua
as pessoas dormem com janelas fechadas
a luz vermelha e azul do carro de polícia
a sirene que berra
uma lua pálida no céu
a figura de um homem com um cigarro aceso entre os dedos
é vista virando a esquina

terça-feira, março 10, 2009

terra minha



trago em mim o cheiro de minha terra
ruas cinzentas e sujas me atravessam
montanhas cercam a cidade
e me prendem em seu mistério

minha pele impregnada da noite
iluminada por neons lua e asfalto quente
carros trafegam em meus sonhos
e as buzinas estão bem embaixo
da janela aberta timidamente

as esquinas invocam os bares
que sempre estão dentro de mim
nas veias dilatadas e poéticas

a cidade chama e eu atendo
senhora e escrava
de suas entranhas corrompidas

e mesmo em além-mar ou em terras geladas
e nos mais distantes horizontes
trago em mim o seu gosto e sua infância

quarta-feira, fevereiro 25, 2009

irreversível

não tire de mim o encanto desse dia
ainda que seus olhos me implorem
e seu corpo se ausente
as lembranças são minhas

e você não pode fazer mais nada
quando a noite me engolir de vez
é esse dia que lembrarei
e você não pode fazer mais nada
não pode fazer mais nada...

(imagem do filme :o homem que não estava lá)

quando acordei



peguei a noite com as mãos
de manhã
meus olhos eram duas estrelas




Noite Estrelada/Van Gogh/1889

sexta-feira, fevereiro 20, 2009

Iluminado

Chegava em casa louco para encontrar o sofá e ver televisão. Quando o sol se ia e a noite ainda não havia chegado, lhe dava uma angústia de morte. Seu peito apertava, vinha uma tristeza esquisita, uma escuridão que invadia seu corpo , sua mente e todos os seus sentidos. Eram alguns minutos que viravam treva infinita. Então, ligava a tevê e era como se iluminasse aos poucos; seus pensamentos tomando outro rumo.

Trabalhava o suficiente apenas para se manter e manter o pequeno apartamento. Conservava-o sempre limpo. Não queria nenhum inseto asqueroso a lhe perturbar a noite, a correr por entre os lençóis.

Sabia de sua inutilidade. Não queria nenhuma ascensão no emprego. Não se engajava em nenhuma causa social, em movimento político, ecológico, cristão, muçulmano, libertário, vegetariano, zen.

Encontrava-se com a família apenas em ocasiões especiais, como festas de aniversário, casamentos ou velórios. Não queria que pensassem que era louco ou solitário. Já havia abandonado os amigos há algum tempo. Ou eles o abandonaram.

O que gostava mesmo, de uma maneira intensa, era assistir à
tevê. Um prazer duvidoso, contudo, mágico. Chegava do trabalho, comia alguma coisa já pronta, vestia sua camiseta rasgada , sua bermuda velha de malha e deitava-se no sofá.
Pegava o controle e percorria com os dedos ágeis os mais diversos canais que a tevê a cabo lhe oferecia. Detinha-se em algum filme, documentário ou qualquer programa que lhe chamasse a atenção. Não tinha mais telefone fixo em casa para não ser incomodado. O celular no silencioso era atendido só em caso de emergência.

Gostava de mulheres, mas não as queria em sua cama ou compartilhando o controle de sua tevê. Isso era inconcebível. Quando seu corpo clamava por sexo, saía e procurava alguma mulher, pagava e se sentia satisfeito. Muitas vezes se fazia carícias, olhando as mulheres nuas que passeavam na tela, contorcendo-se sozinho em seu sofá, soltando gritos roucos e correndo para se lavar no banheiro com cheiro de lavanda.

Uma vez, apaixonou-se por uma prostituta e se encontrava com ela todas as noites e por um tempo esqueceu-se da tela brilhante. Mas, por uma tragédia do destino, ela se atirou do décimo andar de um prédio de luxo. Ninguém nunca soube o que fazia lá ou o motivo de tal atitude.

Um dia faltou ao trabalho, no dia seguinte também, uma semana e mais outra. Nem o porteiro o viu saindo de casa, e os entregadores dos deliveres não apareciam mais. Ligaram para o seu celular, sempre fora de área. Deixaram mensagens. Tocaram o interfone. Arrombaram a porta. Foi assim que entraram e com olhos assustados viram uma luz azul que saía da tevê, um corpo imóvel nu no centro da sala, totalmente iluminado.

quinta-feira, fevereiro 12, 2009

Beco da Lua

um dia senti que aquele era o lugar
um beco com casas velhas e malcheirosas
que abria o seu sorriso para o mundo
um beco cujo cheiro de café
misturava-se ao cheiro das moças
que acabavam de ser possuídas

o Beco da Lua
era o nome escrito com letras exóticas
em uma placa iluminada
diferente do próprio lugar

o beco do mundo
em que cabiam
Terezas e Raimundos
Martas e Aparecidas
Antônios e Josés

eram a alma do beco
a música a lua o quintal
a terra a lama a chuva
as paixões os temporais

às vezes quando a lua
insistia em iluminar
viam-se rostos cansados e aflitos
olhos opacos e vazios
fantasmas pálidos e passivos

era o beco maldito
da miséria e do pecado
da luxúria e do abrigo
dos sonhos e dos perdidos
dos gatos e dos vadios
dos poetas e dos mendigos
dos bêbados e dos drogados
dos felizes e dos atirados
dos doutores e dos iletrados
dos caçadores e dos bandidos
das mulheres sem seus homens
dos sedentos de carinho

era o beco da lua
que sorria timidamente
para o outro lado da cidade
em busca de outros delírios
em busca de novos fantasmas



(Um dia tive um bar, era o Beco da Lua,
numa tarde chuvosa destruíram o beco e construíram um edifício de luxo no lugar.Dizem que até hoje muitos fantasmas da cidade rondam por ali procurando um abrigo)

sexta-feira, fevereiro 06, 2009

era primavera



o último urso branco saiu do estado hibernal
e caminhou lentamente na árida e fria paisagem

abriu seus braços enormes
resmungou sonetos ancestrais
abraçou-se à própria sorte

escancarou seus dentes afiados inúteis
abriu caminhos tortuosos insólitos
mergulhou no lago negro gelado

não viu rastros de homens
nem peixes nem focas nem canibais
viu algas mortas pardos areais

o último urso branco hibernou
e era primavera
_____________________________________________________________________________

Um poema feito por Henrique Pimenta, a a partir da leitura do meu e que me deixa muito feliz.

Um ursinho para Adriana Godoy

Desde já peço desculpas a você, Adriana Godoy. Eu queria fazer um texto que dialogasse com o seu texto "era primavera", que trialogasse com a foto do mamífero weird, mas troquei as patas pelas mãos e deu no que deu. Entanto, fiz. Tomara que você encontre algo que lhe seja próprio, além da inspiração promovida à picolé de pimenta.



Ursinho


Solar por sobre a neve, meu ursinho,

Sozinho sobre a cama de uma alvura...

De um polo ao outro polo o coitadinho,

Em busca de uma foca, na fissura...


A bicha bem na frente, com carinho,

Se faça de acepipe e, sem tristura,

Banquete para a fera à mesa em linho,

Servir-se de repasto de gordura.


Pelúcia, ai que delícia de crendice!,

No quarto adolescente a se calar,

Com as garras bem no púbis... Como disse?!


Corrijo. Com as patinhas a assolar

Hibernus fantasmais, bisbilhotice

Desértica de ursinho bipolar.

quinta-feira, janeiro 29, 2009

e Dylan tocava gaita

quando o medo criou raízes
e me plantou em casa
me nocauteando com suas mãos frias
tinha um anjo bêbado de asas negras
no sofá branco da sala

sorria e ouvia Dylan
entendia cada palavra
me oferecia uísque de terras distantes geladas
e eu ali estátua branca enebriada

o anjo bêbado de asas negras
perdido em seus caminhos
parou ali em minha casa
e ouvia Dylan de olhos fechados
no sofá branco da sala

quando o medo criou raízes
fiquei debaixo de suas asas
Dylan tocava gaita
e por um instante nesse instante
os sonhos não tinham medo

segunda-feira, janeiro 19, 2009

estranho silêncio


estranho silêncio que me acompanha
quando não quero ouvir as vozes do mundo
nem saber o que nele acontece
nem de quantos mortos se faz uma guerra
nem de quantos tiros se ilumina uma cidade

estranho silêncio que me atormenta na noite
e me deixa navegar desgovernada desvalida
sem âncoras ou vendavais

enquanto percorro esses caminhos tristes e equivocados
alguns homens tomam cerveja no bar da esquina
e eu queria estar lá

quinta-feira, janeiro 15, 2009

pode ser

se esses olhos de pássaro continuarem me voando
se essa boca disser alguma palavra dócil
se essas mãos insinuarem algum caminho
se esse cheiro me lembrar manhãs de abril
pode ser que os grilhões se soltem
e a pedra que insiste em permanecer em meu peito
se dissolva em milhões de estrelas

quarta-feira, janeiro 07, 2009

possuída

a manhã pede um pouco de gosto pela vida
o sol aparece depois de tanta chuva
acontece que o mofo se instalou nas minhas veias
nos meus cabelos nas minhas unhas
o mofo está cobrindo meus olhos
e criou musgo na minha boca
os sons que chegam são quase inaudíveis
tenho medo de ouvir minha voz
e perceber não ser minha
os gritos da guerra estão próximos
e não os ouço
o coração está úmido e verde
o lodo que cobre as paredes e os muros
tomou conta definitivamente de mim

quarta-feira, dezembro 31, 2008

Ano Novo

Nenhum segundo a mais
espero
para explodir
os dias que estão em mim.

sábado, dezembro 27, 2008

não quero nem ver

Não quero nem ver a hora em que ele chegar
e perceber que os objetos de que mais gostava
estão amontoados no canto da sala
que os seus cedês preferidos
estão empilhados sem ordem
e seus livros adormecem numa caixa de papelão sem cor
que os seus quadros tristes
estão encostados na parede
como se esperassem alguém para os reanimar
Não quero nem ver quando ele perguntar
de suas camisetas desbotadas
que usava para ficar em casa nas horas de folga
e se deitar na cama comigo
que meus lençõis estão com outro cheiro
o travesseiro tem outra forma
e na geladeira outra marca de cerveja
Não quero nem ver quando ele perguntar do nosso gato
e souber que está aninhado em outro colo
Não quero nem ver quando ele descobrir
que os meus olhos brilham mais
e que minha boca tem um outro sorriso

segunda-feira, dezembro 22, 2008

véspera


de noite veio um bêbado
cantando no meio da rua escura e chuvosa
trombou numa árvore enfeitada de luzes de natal
e ficou olhando aquela coisa iluminada
sentado na calçada com a garrafa em suas mãos
pensou que tivesse em outro país
começou a cantar em inglês uma velha melodia
viu neve onde havia chuva fina
e um cão perdido de rua era sua rena
adormeceu sorrindo
e de manhã já era natal

terça-feira, dezembro 16, 2008

A chuva entrou

A chuva veio e não fechei as janelas
as ruas estão alagadas e as pessoas cinzas
há alguns guarda-chuvas esquecidos
ninguém procura por eles

A água entrou e molhou meu livro de cabeceira
as páginas ficaram enrugadas
como o rosto da velha que toma chá
com os retratos amarelados em sua sala



A chuva molhou um guardanapo de papel
em que tinha escrito um poema
sobre o dia em que você se foi
esse dia era azul com cheiro de jasmim

Olhei a chuva entrando e não fechei as janelas
deixei que ela molhasse meu rosto e meus cabelos
os guarda-chuvas ali esquecidos
e os panos de chão pendurados no varal

sexta-feira, dezembro 12, 2008

Epifania

Disseram que eu não tinha nada a dizer naquela noite
Disseram que era melhor eu me calar
E me deitar fechar as janelas
E esquecer tudo no sonho

Mas eu vi e ouvi coisas que só os anjos ouvem
Naquela noite deslizei sobre as cabeças
E pude entender cada um que estava ali

Percebi quem eram aquelas pessoas
Conheci seus jogos e as cartas que tinham
Ouvi coisas que não falaram
E músicas que não cantaram
Sonhei seus sonhos abissais

Olharam para mim e viram olhos assustados
Assustados ficaram com meus olhos

Disseram para eu me calar
Mas eu não falava
Meus olhos diziam o que eles eram

Disseram que era melhor eu me calar
Fechar as jenelas e esquecer tudo no sonho
Mas meus olhos não dormiam

terça-feira, novembro 25, 2008

até ontem

Vim como quem não quer nada
E entrei na noite como se dela tivesse nascido
Até ontem não gostava das pessoas do dia
Não gostava das cores, do calor
e de tudo que se fazia de dia

Entrava na noite e nela me perdia
com os olhos fundos, a cara pálida
Encontrava gente com essa mesma cara
Às vezes muito maquiadas
E pareciam artistas de cinema-mudo
Olhava para elas como se soubesse o que faziam ali
escondidas no fundo dos bares ouvindo blues e jazz
o nariz e os olhos dançando

Reconhecia quem era da noite
e quem estava ali vindo do dia
Podia pensar que eram felizes
Suas roupas brilhavam e brilhavam seus cabelos
Falavam dos poetas góticos e dos impressionistas
dos beatniks e do cinema francês
Conheciam um bom vinho e a pior cachaça
e pensavam que podiam mudar alguma coisa
neste mundo tão pobre
e mesmo nobres
comiam pão com mortadela.

E eu vim com a noite e nela me escondia
E me encantava com a vida desse seres
E fazia parte desse mundo escuro
de pouca luz e gestos serenos

Até ontem gostava desses seres
E podia ser um deles
Mas hoje vi a luz do sol
E deixei que aquecesse minha cama fria

domingo, novembro 23, 2008

hai-kai de Kerouac

Copiei do blog do Bortolotto e transferi para cá , por motivo óbvio, um hai-kai do Kerouac:

O dia todo usando

um chapéu que não esteve

Em minha cabeça

quarta-feira, novembro 19, 2008

grande deus


Penso num poema que li, quando era pequena, de Casimiro de Abreu e que a professora obrigava a decorar:

Eu me lembro! Eu me lembro! - Era pequeno
E brincava na praia; o mar bramia,
E, erguendo o dorso altivo, sacudia
A branca espuma para o céu sereno.

E eu disse a minha mãe nesse momento:
Que dura orquestra! Que furor insano!
Que pode haver maior que o oceano
Ou que seja mais forte do que o vento?

Minha mãe a sorrir, olhou pros céus
E respondeu: - Um ser que nós não vemos,
É maior do que o mar que nós tememos,
Mais forte que o tufão, meu filho, é Deus.

Então, talvez venha daí a minha associação do mar com deus. Ou o medo que tenho do mar é o mesmo que tinha de deus. E, até hoje, quando vejo o mar ou mergulho nele me vêm esses versos na memória e procuro pedir licença sempre para entrar em suas águas . Vejo o mar como um grande deus que guarda todos os segredos dos homens e do universo. E talvez seja a coisa que mais respeito, admiro e temo no mundo.

domingo, novembro 09, 2008

galope desenfreado

a idade chega
num galope desenfreado
e eu quixote
querendo destruir moinhos
que giram espalhando o tempo
com suas pás ensandecidas
eu sem meu fiel escudeiro
o futuro nunca imaginado
presente nos olhos perdidos
e nos ombros
estranhamente pesados

domingo, novembro 02, 2008

saturno



Saturno na lente mágica
as retinas prenhas
os anéis que tu me deste
nesta noite clara
não eram de vidro
mas quebraram a monotonia
e me tornaram num segundo
a noiva do universo

segunda-feira, outubro 27, 2008

noite

De algum lado da cidade vinha um frio estranho para essa época do ano. Heitor abriu a janela, a pequena janela do seu quarto fedido e imundo. Colocou o rosto para fora e sentiu um vento meio de lado, que não parecia pertencer àquele lugar. Olhou para cima, para baixo, para os lados e viu que não tinha ninguém nas outras janelas, só ouviu um ruído, quase como um sopro. Lembrou-se da noite que tivera com uma mulher. Uma noite quente, extremamente calorenta. Os lençóis estavam fora do colchão, e havia restos de uísque nos copos, pontas de cigarro nos cinzeiros e um cheiro de quase morte. No chão, além da calça que acabara de pegar, um batom sem a tampa e um papel de chocolate. Ao entrar no banheiro, notou que o gás estava ligado e que a água do chuveiro caía continuamente sobre o azulejo. Fechou a torneira, o vapor condensava-se no espelho da pia. Heitor passou a toalha no espelho e o que viu o assustou. Não, não era aquele homem que aparecia ali, com os olhos vermelhos, a pele envelhecida, o cabelo desarrumado. A última imagem que tinha de si não era essa e sim a de um homem bem cuidado, perfumado. Pegou o aparelho de barbear, ensaboou o rosto e fez a barba. Entrou debaixo do chuveiro e ficou algum tempo se limpando com o sabonete de erva-doce que alguém havia lhe dado. Enxugou-se com uma toalha limpa. Vestiu uma calça jeans, uma blusa branca e saiu do quarto. Ao abrir a porta da sala, notou um bilhete debaixo da porta. Era dela, de Mirna, a mulher da noite. Uma lufada de ar gelado rompeu pela porta e o envolveu. Ficou ali parado, olhando o vazio do corredor.

sábado, outubro 04, 2008

belo horizonte

Eram três tons de tarde que apareciam
lilás, vermelho, dourado
Encobriam a cidade sutilmente
Sufocavam o peito e faziam chorar

Os edifícios perdiam-se nas cores
E por alguns momentos
misturados ao ar pesado de todos os dias
Compunham uma paisagem quase divina

As montanhas suavemente iluminadas
assumiam proporções infinitas, calmas

Com esses tons de tarde, nessa tarde
a cidade era abençoada

quinta-feira, setembro 18, 2008

Iluminado

Chegava em casa louco para encontrar o sofá e ver televisão. Quando o sol se ia e a noite ainda não tinha chegado lhe dava uma angústia de morte. Seu peito apertava, vinha uma tristeza esquisita, uma escuridão que invadia seu corpo e sua mente, seus sentidos. Eram alguns minutos que viravam uma treva inteira. Então, ligava a tevê e era como se iluminasse aos poucos, seus pensamentos tomando outro rumo.

Trabalhava o suficiente apenas para se manter e manter o pequeno apartamento .Conservava-o sempre limpo, o banheiro com cheiro de lavanda, as louças sempre lavadas na cozinha, as roupas limpas penduradas no varal. Varria a casa uma vez por semana. Não queria nenhum
inseto asqueroso a lhe perturbar a noite, a correr por entre os lençóis.

Sabia de sua inutilidade. Não queria nenhuma ascensão no emprego. Não se engajava em nenhuma causa social, em movimento político, ecológico, cristão, muçulmano, libertário, vegetariano,
zen.

Encontrava-se com a família apenas em ocasiões especiais, como festas de aniversário, casamentos ou velórios. Não queria que pensassem que era louco ou solitário. Já havia abandonado os amigos há algum tempo. Ou eles o abandonaram.

O que gostava mesmo, de uma maneira intensa, era assistir à
tevê. Um prazer duvidoso, contudo, mágico. Chegava do trabalho, comia alguma coisa já pronta, vestia sua camiseta rasgada , sua bermuda velha de malha e deitava-se no sofá.
Pegava o controle e percorria com os dedos ágeis os mais diversos canais que a tevê a cabo lhe oferecia. Detinha-se em algum filme, documentário ou qualquer programa que lhe chamasse a atenção. Não tinha mais telefone fixo em casa para não ser incomodado. O celular no silencioso era atendido só em caso de emergência.


Não queria mulheres em sua cama ou compartilhando o controle de sua
tevê. Isso era inconcebível. Quando seu corpo clamava por sexo, saía e procurava alguma mulher, pagava e se sentia satisfeito. Muitas vezes se fazia carícias, olhando as mulheres nuas que passeavam na tela, contorcendo-se sozinho em seu sofá, soltando gritos roucos e correndo para se lavar no banheiro com cheiro de lavanda.

Uma vez, apaixonou-se por uma prostituta e se encontrava com ela todas as noites e, por um tempo, esqueceu-se da tela brilhante. Mas, por uma tragédia do destino, ela se atirou do décimo andar de um prédio de luxo. Ninguém nunca soube o que fazia lá ou o motivo de tal atitude.

Um dia faltou ao trabalho, no dia seguinte também, uma semana e mais outra. Nem o porteiro o viu saindo de casa, e os entregadores dos delíveres não apareciam mais. Ligaram para o seu celular, sempre fora de área. Deixaram mensagens. Tocaram o interfone. Arrombaram a porta. Foi assim que entraram e com olhos assustados viram uma luz azul que saía da tevê, um corpo imóvel nu no centro da sala, totalmente iluminado.


quinta-feira, agosto 14, 2008

Encontro Desmarcado



Toda vez que penso em ir a um médico me desespero. E hoje vou ter que ir. Não dá pra adiar o inevitável. O ano inteiro enrolo; marco, não vou, invento desculpas, qualquer uma. Mas hoje não escapo. Sou mulher, porra. Tenho que fazer aquele exame ginecológico. Esperar no consultório, ler aquelas revistas horríveis, ver mulheres entrando e saindo. Enquanto espero, imagino várias maneiras de fugir dali. Nesses devaneios, a secretária chama meu nome.Não, não, não!! Mas é tarde. Não tem mais jeito. Quando entro, a médica com todas aquelas perguntas a que não quero responder: Continua fumando, tá fazendo dieta? Parou de beber? Olha o colesterol!! Tá no limite! Precisa fazer reeducação alimentar, você está acima do peso.Tento contornar e digo que vou tentar, desta vez, vou conseguir. Então, ela diz: Pode pôr o avental e se deitar. Então, olho para a mesa, uma cama de tortura. Dois apoios para o pé, distantes, opostos. O avental é aberto na frente. Tenho que abrir, literalmente, as pernas. Fico dura como um tronco. Travo. ! Em outras situações isso é natural! Mas não é o caso! Sinto algo frio entrando em meu ventre. Aquele instrumento gelado de metal, o gel, a barriga sendo apalpada, agora os seios examinados, tocados. Finalmente, ela diz: Pode se vestir. Corro pro banheiro, ponho a roupa o mais depressa que posso. Quero sair voando dali. Tenho um encontro com um amigo, em um boteco, ali perto. Mais tarde, quem sabe, vou ter que tirar a roupa de novo, outra situação. Relembro a consulta. Talvez o encontro fique para outro dia.

PS: texto republicado, mas amanhã tenho consulta. Argh!!

quarta-feira, agosto 13, 2008

Medonha

Os dias mansos.
A rotina que mata, esmaga, aniquila.
A rotina medonha, enganadora, cruel- a morte.
É pior que a morte.
É pior que estar sentado à beira de um rio
dia e noite
e não pescar nenhum peixe.
Porque há a espera.
Na rotina não se espera nada.
Apenas que o dia termine
E que comece um outro igual.
O menor movimento incomoda.
O menor deslize atordoa.
Uma noite em claro arrebenta.
A rotina vence.
Talvez vivamos por ela.
Mesmo que façamos algo diferente.
Sempre voltamos.
E quando é dada por vencida
Criamos outra mais forte.

terça-feira, julho 29, 2008

três cachorros

três cachorros soltos nas ruas
dizem que um virou lobo
se confundiu com a noite
dizem que um virou gente
se deitou com cadela
dizem que um um virou eterno
no coração da menina