Vim como quem não quer nada
E entrei na noite como se dela tivesse nascido
Até ontem não gostava das pessoas do dia
Não gostava das cores, do calor
e de tudo que se fazia de dia
Entrava na noite e nela me perdia
com os olhos fundos, a cara pálida
Encontrava gente com essa mesma cara
Às vezes muito
maquiadasE pareciam artistas de cinema-mudo
Olhava para elas como se soubesse o que faziam ali
escondidas no fundo dos bares ouvindo
blues e jazz
o nariz e os olhos dançando
Reconhecia quem era da noite
e quem estava ali vindo do dia
Podia pensar que eram felizes
Suas roupas brilhavam e brilhavam seus cabelos
Falavam dos poetas
góticos e dos
impressionistasdos
beatniks e do cinema francês
Conheciam um bom vinho e a pior cachaça
e pensavam que podiam mudar alguma coisa
neste mundo tão pobre
e mesmo nobres
comiam pão com mortadela.
E eu vim com a noite e nela me escondia
E me encantava com a vida desse seres
E fazia parte desse mundo escuro
de pouca luz e gestos serenos
Até ontem gostava desses seres
E podia ser um deles
Mas hoje vi a luz do sol
E deixei que aquecesse minha cama fria