três cachorros soltos nas ruas
dizem que um virou lobo
se confundiu com a noite
dizem que um virou gente
se deitou com cadela
dizem que um um virou eterno
no coração da menina
terça-feira, julho 29, 2008
segunda-feira, julho 28, 2008
sexta-feira, julho 25, 2008
fim de tarde
É claro que não foi do jeito que eu imaginava. Nem podia ser. Aquela hora em que as pessoas passam voltando para casa, a cidade gemendo buzinas e sirenes, a correria louca desatinada e você ali , sentado , tomando um café e pensando no que vai me dizer. Então eu chego e trago um sorriso meio tímido, meio assustado. Você acende um cigarro e joga a fumaça para o ar e me pergunta o que fazer. Falo sobre o trânsito, da casa velha que ficava perto do Arrudas e de contas a pagar. _Você já viu aquele filme? Ele responde que não e sussurra uma melodia dos Beatles: "I'm so tired".... Pergunto o que ele almoçou hoje e ele me ignora. Raspa a garganta e acende outro cigarro. Disparo na fala, insinuo ciúmes, imito a cena de um filme que vi algum dia. Peço um uísque com gelo. Ele diz que bebo demais, que é cedo pra começar. Não retruco, concordo em silêncio. Ele também pede um, sem gelo. Eu pego um embrulho, guardado na bolsa e entrego pra ele. Ele me olha com os olhos molhados, profundos como a noite que chega. Não consigo ficar parada e peço mais um uísque, vou ao banheiro, molho o rosto na água fria e as lágrimas são quentes . Vejo quando estou voltando que a mesa está vazia. Tem um guardanapo e um trecho de " I"m so tired" , escrito com tinta azul: " I wonder should I get up and fix myself a drink?" Ele volta. O copo na mão. "I'd give you everything I've got for a little peace of mind". Vamos de mãos dadas para casa.
quarta-feira, julho 02, 2008
o ar frio que entrava pela janela
estudo de aquarela/ Rafael Godoymais de uma vez ele me disse
que havia solução
que nem tudo estava perdido
mais de uma vez ele apagou a luz ao sair
me deixou na escuridão do quarto
e pôs Milles Davis para tocar
mais de uma vez ele me cobriu com o edredon
colocou a mão na minha testa
para ver se eu estava com febre
mais de uma vez ele me beijou com olhos selvagens
me chamou de vadia de louca de perdida
e deliramos juntos no deserto de nossa cama
mais de uma vez ele chorou
olhando as estrelas
mais de uma vez jurei mudar
era só uma questão de tempo
mas depois de mil e uma noites
depois de apagar a luz do quarto
ele se foi
ficaram as estrelas
ficou a noite
e o ar frio que entrava pela janela
terça-feira, junho 24, 2008
Possível Deserto
Os rios de dentro estão quase secos
Uma planície seca e árida se anuncia
O coração ainda guarda algum líquido
Para ser despejado no momento certo
A voz rouca indica mau agouro
Os abutres estão à espera calmos
Uma única nuvem negra não faz chuva
Mas encobre o sol vermelho
A manhã desperta silenciosa
Atenta ao menor ruído
Frágil a qualquer vento
A noite vem desesperada
Atônita negra pesada
Os pássaros noturnos sumiram
O corpo resta cansado
Sem dor sem frio sem nada
A alma parte suave
E um possível deserto se faz agora
Uma planície seca e árida se anuncia
O coração ainda guarda algum líquido
Para ser despejado no momento certo
A voz rouca indica mau agouro
Os abutres estão à espera calmos
Uma única nuvem negra não faz chuva
Mas encobre o sol vermelho
A manhã desperta silenciosa
Atenta ao menor ruído
Frágil a qualquer vento
A noite vem desesperada
Atônita negra pesada
Os pássaros noturnos sumiram
O corpo resta cansado
Sem dor sem frio sem nada
A alma parte suave
E um possível deserto se faz agora
quarta-feira, junho 18, 2008
Alguma esperança
Quem determina o destino das coisas?
Quem determina: este vai morrer amanhã
e o outro vai viver mais cem anos?
Que diabo de vida é essa?
O peito dói lentamente, a boca seca
Você chega na janela
Vê aquela lua imensa, linda, doida
E você acredita mais
O coração fica mais doce
A alma mais leve
Talvez hoje você adormeça
E possa sonhar com um anjo de asas azuis
Possa deitar em seus braços
E entender alguns mistérios
Quem determina: este vai morrer amanhã
e o outro vai viver mais cem anos?
Que diabo de vida é essa?
O peito dói lentamente, a boca seca
Você chega na janela
Vê aquela lua imensa, linda, doida
E você acredita mais
O coração fica mais doce
A alma mais leve
Talvez hoje você adormeça
E possa sonhar com um anjo de asas azuis
Possa deitar em seus braços
E entender alguns mistérios
sexta-feira, junho 13, 2008
Pra sempre
Um dia você acorda, o telefone tocando e vem a triste notícia:
- Cê está sabendo dele? Tá muito doente, vai operar, o negócio é grave!
Em um segundo, passam milhões de filmes em sua cabeça. Você se dá conta da efemeridade e da crueldade da vida. Vêm em sua cabeça lembranças intensas de sua vida com aquela pessoa. Não pode ser, logo ele! Porra! Porra!
Em minutos, neste instante entre o telefone tocar e você saber, a vida e a morte se dão a mão. Estão muito próximas. E você perdida ali no meio. E agora?
Começa a rodar feito aquela barata que , no flagrante, atordoada, não sabe o que fazer. Anda de um lado pra outro, acende um cigarro, tenta fumar, esquece; vai comer alguma coisa, deixa pela metade, quer falar com alguém, não consegue, quer sumir e fica ali totalmente presente.
E sem perceber as lágrimas escorrem soltas, fortes, incontidas. Um soluço do fundo da garganta, uma dor palpável, um sentimento de impotência.
Quer acreditar em alguma coisa, uma ligação com deus, uma crença, uma fé. E não consegue.
Pensa nele, como é importante e tão intenso em sua vida. Porra! Tantas coisas, tantas e tantas...
As lágrimas explodem mais uma vez. E mais uma vez. E mais uma vez. Acho que pra sempre.
Em um segundo, passam milhões de filmes em sua cabeça. Você se dá conta da efemeridade e da crueldade da vida. Vêm em sua cabeça lembranças intensas de sua vida com aquela pessoa. Não pode ser, logo ele! Porra! Porra!
Em minutos, neste instante entre o telefone tocar e você saber, a vida e a morte se dão a mão. Estão muito próximas. E você perdida ali no meio. E agora?
Começa a rodar feito aquela barata que , no flagrante, atordoada, não sabe o que fazer. Anda de um lado pra outro, acende um cigarro, tenta fumar, esquece; vai comer alguma coisa, deixa pela metade, quer falar com alguém, não consegue, quer sumir e fica ali totalmente presente.
E sem perceber as lágrimas escorrem soltas, fortes, incontidas. Um soluço do fundo da garganta, uma dor palpável, um sentimento de impotência.
Quer acreditar em alguma coisa, uma ligação com deus, uma crença, uma fé. E não consegue.
Pensa nele, como é importante e tão intenso em sua vida. Porra! Tantas coisas, tantas e tantas...
As lágrimas explodem mais uma vez. E mais uma vez. E mais uma vez. Acho que pra sempre.
segunda-feira, junho 09, 2008
Amaldiçoadas
Nesse domingo letárgico cismo em usar palavras mais elaboradas.
Elas aparecem como por encanto, saindo do abismo mais profundo da minha memória.
Elocubrações tortuosas de uma mente ociosa.
Algumas me parecem familiares, talvez encontradas nos livros de autores mais antigos, de séculos passados.
Outras; não tenho menor noção de seu significado, mas aparecem, como se me pertencessem.
Não ouso não usá-las, não ouso não atendê-las.
Talvez estejam amaldiçoadas.
Elas aparecem como por encanto, saindo do abismo mais profundo da minha memória.
Elocubrações tortuosas de uma mente ociosa.
Algumas me parecem familiares, talvez encontradas nos livros de autores mais antigos, de séculos passados.
Outras; não tenho menor noção de seu significado, mas aparecem, como se me pertencessem.
Não ouso não usá-las, não ouso não atendê-las.
Talvez estejam amaldiçoadas.
segunda-feira, maio 19, 2008
Não podia ouvir mais esse blues. O nome do cantor não sabia, mas tinha uma voz meio rouca, meio doce. Entrava na minha alma, como se entra em um lugar conhecido. Desliguei o som e saí pela cidade à procura de um lugar que me fizesse esquecer , de algum modo, o peso do dia. Não vi nenhum rosto conhecido. Entrei em um boteco querendo beber algo pra me aquecer daquele frio intenso que insistia em entrar no meu corpo. Já era noite. E então vi alguns homens jogando sinuca em um êxtase quase animal. Foi como a cena de um filme e eles pegavam no taco como se pega uma mulher. E eles se mexiam, giravam o corpo , miravam o buraco , se contorciam feito serpentes. Ali, naquela hora, pude perceber um sentido para a vida. Um chegou perto de mim e me ofereceu um conhaque. E sentou-se à minha mesa e me olhou. Não falou nada e eu nem perguntei. Ficamos ali, talvez, minutos, horas, a noite toda. Bebemos vários conhaques, o corpo quente, o brilho nos olhos. E então ouvi aquele som, um blues cantado por uma voz rouca e doce. Acho que ele me beijou e disse alguma coisa sobre os perigos da noite.
domingo, março 09, 2008
Momento
O barulho do feijão cozinhando na panela
O ruído das pessoas lá fora
O ônibus que passa
Parece que a vida é normal
O ruído das pessoas lá fora
O ônibus que passa
Parece que a vida é normal
domingo, março 02, 2008
Os pássaros
Foram chegando um a um e pousaram em minha janela.
Como "Os Pássaros " de Hitchcock. E cada um encontrou o lugar certo.
Diferentemente, meus pensamentos chegaram confusos. E não encontraram o pouso desejado.
E eles ficaram pelo ar, viravam minha cabeça. O dia e a noite eram iguais. Não havia trégua. A guerra se dava ali. Ininterrupta, lancinante, cruel.
Finalmente, um dia eles se foram.
Foi quando olhei para aquele lago azul e manso de seus olhos.
Como "Os Pássaros " de Hitchcock. E cada um encontrou o lugar certo.
Diferentemente, meus pensamentos chegaram confusos. E não encontraram o pouso desejado.
E eles ficaram pelo ar, viravam minha cabeça. O dia e a noite eram iguais. Não havia trégua. A guerra se dava ali. Ininterrupta, lancinante, cruel.
Finalmente, um dia eles se foram.
Foi quando olhei para aquele lago azul e manso de seus olhos.
quinta-feira, fevereiro 21, 2008
Eclipse
Hoje nasci há muitos anos
Talvez também houvesse um eclipse
Ou só meia lua no céu
Ontem olhei a lua
E vi a sombra da terra
E vi a sombra de mim
Talvez também houvesse um eclipse
Ou só meia lua no céu
Ontem olhei a lua
E vi a sombra da terra
E vi a sombra de mim
terça-feira, janeiro 22, 2008
Nessa hora
estudo para aquarela/ mulher deitada/ rafael godoyNessa hora a chuva cai.
Não tenho planos, não penso o que vou fazer amanhã, muito menos daqui a alguns meses. Meus filhos estão longe, a casa vazia.
Meus gatos me olham e parecem dizer: será que ela não vai fazer nada? E ao mesmo tempo gostam da minha presença, aninham-se aos meus pés.
Não consigo procurar amigos e nem parentes. Nem fazer qualquer coisa para comer. Quando me dá fome, tomo um café que está ali, ao meu alcance e mastigo um pão de forma velho com manteiga.
A geladeira , como disse alguém, um deserto frio e árido. Não tem bebida, nem vinho, nem cerveja. O cigarro me acompanha em meus devaneios. Gosto de chegar na área e olhar a chuva.
Busco compreender algumas coisas em mim, mas isso também passa. Não estou alegre, nem triste, nem nada. O telefone toca e é uma promessa de uma noite de amor. Não quero também. Tenho que me vestir, me arrumar, sair de casa ou preparar a casa para alguém. Então dou uma desculpa qualquer e fujo de qualquer compromisso. Gosto da casa assim, com a cama desfeita, mas aconchegante. Com algumas coisas fora do lugar, que fui eu que deixei. Os livros ali, assim jogados. Leio, mas não me prendo a nenhum. Um poema aqui, outro lá. Trechos de obras já lidas. Às vezes um livro inteiro em poucas horas. Mas é assim que gosto. Vejo tevê e procuro alguma coisa que preste. É difícil, mas consigo. Também, se quiser, mudo o canal a qualquer momento e brinco com as imagens. Ouço uma música que há muito não escuto e me surpreendo: como eu gostava daquela música! E acho uma merda. Durmo em alguns momentos e tenho sonhos estranhos, como ir ao fundo de uma piscina funda, muito funda, cheia de folhas e lama e conseguir voltar à superfície, ilesa. E quando volto à tevê, assisto a uma cena semelhante. Só que o cara não teve a mesma sorte. Afogou-se.
Tocam o interfone. Pode ser o gás, o correio, alguém pedindo alguma coisa, ou mesmo, um amigo. Mas não atendo. Não quero sair dessa inércia. Parece que a chuva parou. E eu parada aqui e os gatos me olham.
Meus gatos me olham e parecem dizer: será que ela não vai fazer nada? E ao mesmo tempo gostam da minha presença, aninham-se aos meus pés.
Não consigo procurar amigos e nem parentes. Nem fazer qualquer coisa para comer. Quando me dá fome, tomo um café que está ali, ao meu alcance e mastigo um pão de forma velho com manteiga.
A geladeira , como disse alguém, um deserto frio e árido. Não tem bebida, nem vinho, nem cerveja. O cigarro me acompanha em meus devaneios. Gosto de chegar na área e olhar a chuva.
Busco compreender algumas coisas em mim, mas isso também passa. Não estou alegre, nem triste, nem nada. O telefone toca e é uma promessa de uma noite de amor. Não quero também. Tenho que me vestir, me arrumar, sair de casa ou preparar a casa para alguém. Então dou uma desculpa qualquer e fujo de qualquer compromisso. Gosto da casa assim, com a cama desfeita, mas aconchegante. Com algumas coisas fora do lugar, que fui eu que deixei. Os livros ali, assim jogados. Leio, mas não me prendo a nenhum. Um poema aqui, outro lá. Trechos de obras já lidas. Às vezes um livro inteiro em poucas horas. Mas é assim que gosto. Vejo tevê e procuro alguma coisa que preste. É difícil, mas consigo. Também, se quiser, mudo o canal a qualquer momento e brinco com as imagens. Ouço uma música que há muito não escuto e me surpreendo: como eu gostava daquela música! E acho uma merda. Durmo em alguns momentos e tenho sonhos estranhos, como ir ao fundo de uma piscina funda, muito funda, cheia de folhas e lama e conseguir voltar à superfície, ilesa. E quando volto à tevê, assisto a uma cena semelhante. Só que o cara não teve a mesma sorte. Afogou-se.
Tocam o interfone. Pode ser o gás, o correio, alguém pedindo alguma coisa, ou mesmo, um amigo. Mas não atendo. Não quero sair dessa inércia. Parece que a chuva parou. E eu parada aqui e os gatos me olham.
segunda-feira, janeiro 07, 2008
coisas da cidade
peixes loucos tentam subir o Arrudas
homens loucos se atiram no Arrudas
um ônibus cai no Arrudas
uma menina espera o pôr-do-sol
olha o Arrudas por um segundo
e vê refletido em suas águas sujas
um vermelho de sangue, de sol
homens loucos se atiram no Arrudas
um ônibus cai no Arrudas
uma menina espera o pôr-do-sol
olha o Arrudas por um segundo
e vê refletido em suas águas sujas
um vermelho de sangue, de sol
cenas do cotidiano
quando uma lagartixa deslizou
nas pálidas paredes
e mostrou seu ventre transparente
quando um inseto noturno
desses que voam
entrou e mexeu suas pobres asas
percebeu o olhar parado
frio e mortal daquele ser esbranquiçado
e se debateu loucamente
por uma única vez olhou a lua
e viu nos olhos da mórbida lagarta
o mesmo brilho
foi devorado lentamente
inexoravelmente
nas pálidas paredes
e mostrou seu ventre transparente
quando um inseto noturno
desses que voam
entrou e mexeu suas pobres asas
percebeu o olhar parado
frio e mortal daquele ser esbranquiçado
e se debateu loucamente
por uma única vez olhou a lua
e viu nos olhos da mórbida lagarta
o mesmo brilho
foi devorado lentamente
inexoravelmente
Mais um ano (poema traduzido)
Nada tenho a lhe pedir,
Futuro, paraíso do pobre,
Ainda visto as mesmas coisas.
Continuo vendo o mesmo problema
Pela mesma luz,
Comendo a mesma pedra,
E as agulhas do relógio ainda espetam sem entrar.
Futuro, paraíso do pobre,
Ainda visto as mesmas coisas.
Continuo vendo o mesmo problema
Pela mesma luz,
Comendo a mesma pedra,
E as agulhas do relógio ainda espetam sem entrar.
quarta-feira, janeiro 02, 2008
1º de janeiro
A cidade neste dia é só minha.
Minha rua só eu que passo.
Nem ônibus passando,
nem crianças passando,
nem gente passando.
O ano passou.
Há um estranho silêncio que atormenta,
indefinível, mordaz, cruel.
Minha rua só eu que passo.
Nem ônibus passando,
nem crianças passando,
nem gente passando.
O ano passou.
Há um estranho silêncio que atormenta,
indefinível, mordaz, cruel.
segunda-feira, dezembro 03, 2007
Deixa estar...
O papa disse que os ateus são culpados por quase todas as atrocidades da humanidade.
Então, vou usar as palavras de Leminsk:
"Todo mundo crê em alguma coisa
Creio que vou tomar uma cerveja."
Agora quero ver o que ele vai falar...
Será que o papa toma cerveja?
Ora veja, parece que só vinho
E o da melhor qualidade...
Então, vou usar as palavras de Leminsk:
"Todo mundo crê em alguma coisa
Creio que vou tomar uma cerveja."
Agora quero ver o que ele vai falar...
Será que o papa toma cerveja?
Ora veja, parece que só vinho
E o da melhor qualidade...
domingo, novembro 18, 2007
Nunca
Você, amor, escondeu-se atrás da árvore
Aquela que subíamos quando crianças
Onde contávamos os nossos segredos
E chorávamos os nossos medos
Você disse que nunca cresceria
E como Peter Pan na Terra do Nunca
Nunca me deixava sem o seu pó mágico
Voávamos sobre as cidades
Entrávamos pelas janelas
Era sua fada e você meu encantador
Inventávamos o mundo
Para que ficássemos juntos
As suas mãos me ensinavam
As melhores brincadeiras
Juramos amor eterno
E gravamos dois nomes
em um coração amarelo
no galho mais alto
Agora te vejo, amor
Atrás da árvore
Atrás do que fomos
Atrás do que perdemos
Aquela que subíamos quando crianças
Onde contávamos os nossos segredos
E chorávamos os nossos medos
Você disse que nunca cresceria
E como Peter Pan na Terra do Nunca
Nunca me deixava sem o seu pó mágico
Voávamos sobre as cidades
Entrávamos pelas janelas
Era sua fada e você meu encantador
Inventávamos o mundo
Para que ficássemos juntos
As suas mãos me ensinavam
As melhores brincadeiras
Juramos amor eterno
E gravamos dois nomes
em um coração amarelo
no galho mais alto
Agora te vejo, amor
Atrás da árvore
Atrás do que fomos
Atrás do que perdemos
segunda-feira, outubro 15, 2007
A receita
(esse poema é do Guga, feito para mim e pro Augusto, um dos momentos mágicos em minha vida)
"Amor", ele disse, "não ouvi".
"Amor", ele disse, "não ouvi".
Quando se coloca a noz moscada?"
Mas ele bateu na porta errada,
como no filme: Alice
Não Mora Mais Aqui.
(Ou então como em Alice
No País das Maravilhas,
ao qual ele não tem acesso.)
"Amor, eu te peço."
Ela não disse nada
nem revelou o segredo
- tesouro oculto na ilha -
fiel ao credo e à fé
de que a receita é hereditária
em sua família.
Passa de mãe para filha
e definitivamente não é
multitudinária.
"Perguntarei à sua mãe
no seu leito de morte."
"Vai", ela disse, "e vai
precisar de muita sorte",
porque minha mãe, ai,
pálida e rouca,
quase defunta,
ao ouvir sua pergunta:
- quando se coloca a noz moscada? -
levará sua mão a boca
e dará sua última risada."
Ago - 1993
sábado, outubro 13, 2007
Insônia
A noite inútil não terminava nunca
O sono vinha, mas os olhos não fechavam
Vi assombrações nos rodapés das paredes do quarto
Espremidas , cor de barro, querendo sair
Faziam sons estranhos e se moviam
Criaturas horrendas, desfiguradas
Se cresse, talvez rezasse
Mas nada saía de mim
Apenas um medo, um frio medonho
Uma imobilidade assustadora
Os seres pareciam conversar
Confabular, azucrinar
Sei que alguns saíram
E deram voltas em minha casa
Nem meus gatos apareceram
Esconderam-se em algum armário
Acovardaram-se
Mas, finalmente, chegou a manhã
Fechei os olhos
Dormi com a cortina aberta
O sol sobre mim.
O sono vinha, mas os olhos não fechavam
Vi assombrações nos rodapés das paredes do quarto
Espremidas , cor de barro, querendo sair
Faziam sons estranhos e se moviam
Criaturas horrendas, desfiguradas
Se cresse, talvez rezasse
Mas nada saía de mim
Apenas um medo, um frio medonho
Uma imobilidade assustadora
Os seres pareciam conversar
Confabular, azucrinar
Sei que alguns saíram
E deram voltas em minha casa
Nem meus gatos apareceram
Esconderam-se em algum armário
Acovardaram-se
Mas, finalmente, chegou a manhã
Fechei os olhos
Dormi com a cortina aberta
O sol sobre mim.
terça-feira, outubro 09, 2007
Festa de Casamento
Muito uísque entrando no sangue
Muita nicotina ocupando o pulmão
A festa seria boa
Se o vômito guardado
Não fosse jogado
Na entrada principal
Se os beijos roubados
Não fossem vistos por todos
Se os delírios filosóficos
Não tivessem saído da cabeça
Se a preocupação com o mundo
Não tivesse sido exposta
de uma maneira tão leviana
Se as pessoas fossem interessantes
Mesmo sem o álcool
A festa teria sido boa
Se acreditasse que casamentos
São bons
Soubesse que as pessoas casadas ali
Eram as mais felizes
A festa teria sido boa
Se não tivesse jorrado na cara
Nas roupas, nos sapatos
A essência mais repugnante
no medo das pessoas
no espelho do que elas são
A festa teria sido boa
Aliás, a festa foi boa
Pena que o uísque
Era falsificado...
Muita nicotina ocupando o pulmão
A festa seria boa
Se o vômito guardado
Não fosse jogado
Na entrada principal
Se os beijos roubados
Não fossem vistos por todos
Se os delírios filosóficos
Não tivessem saído da cabeça
Se a preocupação com o mundo
Não tivesse sido exposta
de uma maneira tão leviana
Se as pessoas fossem interessantes
Mesmo sem o álcool
A festa teria sido boa
Se acreditasse que casamentos
São bons
Soubesse que as pessoas casadas ali
Eram as mais felizes
A festa teria sido boa
Se não tivesse jorrado na cara
Nas roupas, nos sapatos
A essência mais repugnante
no medo das pessoas
no espelho do que elas são
A festa teria sido boa
Aliás, a festa foi boa
Pena que o uísque
Era falsificado...
sexta-feira, julho 13, 2007
O velho da janela
Ontem não o vi mais na janela.
O velho que ficava na janela em frente à minha tinha morrido.
De uma forma estranha: bebeu duas taças de champanhe, ficou verde e se foi.
Não que eu tivesse alguma simpatia por aquele sujeito. Na verdade, me incomodava demais.
Sempre estava lá, nos momentos mais inoportunos. Vivia sem camisa e o seu porte avantajado dava a impressão de que era mais jovem do que seus oitenta e três anos. Sua voz, como percebeu o meu filho, era de um jovem.
Mexia com todos que subiam ou desciam a rampa, principalmente, com as idosas viúvas. Como um galanteador , dizia que estavam lindas e que queria namorá-las. Umas aceitavam as suas palavras e sorriam timidamente. Outras, o achavam incoveniente. Mas, de uma certa forma, ele preenchia as suas vidas.
Por incontáveis vezes, tive que fechar a cortina, pois com seus olhos indiscretos entrava em meu apartamento e me despia com o seu olhar de rapina, embora, muitas vezes, já estivesse nua.
Gostava quando abria a janela e ele, por algum motivo, tinha perdido a cena. Era como se eu tivesse vencido algum lance de jogo de cartas ou feito um gol de placa.
Nunca soube o seu nome, até ontem, quando a zeladora me contou sobre a sua morte:
- O Seu Manoel morreu, disse-me ela.
- Quem?
- O Seu Manoel do 407!
-Ah! Que pena! respondi-surpresa e escondendo o meu alívio!
Eu o detestava. Desde que o vi pela primeira vez.
Mas, ontem, senti a sua falta e, embora soubesse de sua morte, cerrei as cortinas, quando saí do banho, enrolada em uma toalha.
Por um momento, ao olhar a janela em frente, vislumbrei uma sombra e uma risada que conhecia bem.
Tratei de fechar bem a cortina e, quando saí de casa, ao atravessar a rampa, não olhei mais para cima. Mas tinha certeza de que ele estava lá. Ou o seu fantasma.
O velho que ficava na janela em frente à minha tinha morrido.
De uma forma estranha: bebeu duas taças de champanhe, ficou verde e se foi.
Não que eu tivesse alguma simpatia por aquele sujeito. Na verdade, me incomodava demais.
Sempre estava lá, nos momentos mais inoportunos. Vivia sem camisa e o seu porte avantajado dava a impressão de que era mais jovem do que seus oitenta e três anos. Sua voz, como percebeu o meu filho, era de um jovem.
Mexia com todos que subiam ou desciam a rampa, principalmente, com as idosas viúvas. Como um galanteador , dizia que estavam lindas e que queria namorá-las. Umas aceitavam as suas palavras e sorriam timidamente. Outras, o achavam incoveniente. Mas, de uma certa forma, ele preenchia as suas vidas.
Por incontáveis vezes, tive que fechar a cortina, pois com seus olhos indiscretos entrava em meu apartamento e me despia com o seu olhar de rapina, embora, muitas vezes, já estivesse nua.
Gostava quando abria a janela e ele, por algum motivo, tinha perdido a cena. Era como se eu tivesse vencido algum lance de jogo de cartas ou feito um gol de placa.
Nunca soube o seu nome, até ontem, quando a zeladora me contou sobre a sua morte:
- O Seu Manoel morreu, disse-me ela.
- Quem?
- O Seu Manoel do 407!
-Ah! Que pena! respondi-surpresa e escondendo o meu alívio!
Eu o detestava. Desde que o vi pela primeira vez.
Mas, ontem, senti a sua falta e, embora soubesse de sua morte, cerrei as cortinas, quando saí do banho, enrolada em uma toalha.
Por um momento, ao olhar a janela em frente, vislumbrei uma sombra e uma risada que conhecia bem.
Tratei de fechar bem a cortina e, quando saí de casa, ao atravessar a rampa, não olhei mais para cima. Mas tinha certeza de que ele estava lá. Ou o seu fantasma.
segunda-feira, maio 28, 2007
Non- Sens
Não me surpreende
que a alma tenha deixado o meu corpo.
Surpreende-me, sim
a insistência de permanecer existindo.
que a alma tenha deixado o meu corpo.
Surpreende-me, sim
a insistência de permanecer existindo.
segunda-feira, maio 21, 2007
Martin Oliver- Final
Assim cresceu Simião Bozz
A barba cobria-lhe o rosto
Sua voz engrossara e seu corpo
tornou-se forte, coberto de pêlos
Não se lembrava do último dia
que estivera em sua casa
Vagas lembranças de seus tios,
primos, vizinhos e de seu tutor.
Fazia exatamente 893 dias que havia partido
Em busca de seu pai
E um dia, exausto, nas terras quentes
Simião dormiu e sonhou.
Ao abrir os olhos, só uma enorme escuridão
A noite que chegara
E pela primeira vez sentiu medo
Cheirou a escuridão, pegou a noite,
sentiu o vento frio no rosto
E chorou.
Chorou por todos aqueles dias
Que havia andado só.
Chorou por sua mãe, Norma Bozz
Que não conhecera
Chorou por ver a noite e o seu manto imenso
Então olhou para o céu e viu
um planeta brilhando com uma enorme sombra
O planeta em que seu pai estaria
E do céu caíram gotas fortes de água sobre o seu corpo
Era a chuva e a água tinha gosto de terra
Era clara e limpa
Ele brincou com a água
Deitou e rolou na terra
Lambuzou-se de lama
E deixou que a água limpasse o seu corpo
E a sua alma
E quando estava assim, sorrindo,
Pela primeira vez em 893 dias
E apenas uma noite, essa
Viu uma figura se aproximando
Montada em um cavalo enorme
De crinas longas
E Simião então viu
Viu pela primeira vez o seu pai
Martin Oliver
E sorriu, como o fez seu pai
E juntos caminharam rumo à sua terra
Rumo à sua gente
Ollharam ambos para o céu
E o planeta estava mais brilhante
Sem sombra alguma
E chegaram a seu lar
O povo na rua festejava
Bebendo chuva e olhando o céu
E os dois: pai e filho anunciaram em alto e bom som:
"Daqui em diante, para todos os dias haverá uma noite"
Sentaram-se na varanda e mais uma vez
Olharam o céu e para aquele planeta brilhante
E um cheiro de rosas inundou aquele momento.
A barba cobria-lhe o rosto
Sua voz engrossara e seu corpo
tornou-se forte, coberto de pêlos
Não se lembrava do último dia
que estivera em sua casa
Vagas lembranças de seus tios,
primos, vizinhos e de seu tutor.
Fazia exatamente 893 dias que havia partido
Em busca de seu pai
E um dia, exausto, nas terras quentes
Simião dormiu e sonhou.
Ao abrir os olhos, só uma enorme escuridão
A noite que chegara
E pela primeira vez sentiu medo
Cheirou a escuridão, pegou a noite,
sentiu o vento frio no rosto
E chorou.
Chorou por todos aqueles dias
Que havia andado só.
Chorou por sua mãe, Norma Bozz
Que não conhecera
Chorou por ver a noite e o seu manto imenso
Então olhou para o céu e viu
um planeta brilhando com uma enorme sombra
O planeta em que seu pai estaria
E do céu caíram gotas fortes de água sobre o seu corpo
Era a chuva e a água tinha gosto de terra
Era clara e limpa
Ele brincou com a água
Deitou e rolou na terra
Lambuzou-se de lama
E deixou que a água limpasse o seu corpo
E a sua alma
E quando estava assim, sorrindo,
Pela primeira vez em 893 dias
E apenas uma noite, essa
Viu uma figura se aproximando
Montada em um cavalo enorme
De crinas longas
E Simião então viu
Viu pela primeira vez o seu pai
Martin Oliver
E sorriu, como o fez seu pai
E juntos caminharam rumo à sua terra
Rumo à sua gente
Ollharam ambos para o céu
E o planeta estava mais brilhante
Sem sombra alguma
E chegaram a seu lar
O povo na rua festejava
Bebendo chuva e olhando o céu
E os dois: pai e filho anunciaram em alto e bom som:
"Daqui em diante, para todos os dias haverá uma noite"
Sentaram-se na varanda e mais uma vez
Olharam o céu e para aquele planeta brilhante
E um cheiro de rosas inundou aquele momento.
sexta-feira, maio 18, 2007
Martin Oliver III
E assim nasceu Simião Bozz
Do emaranhado cabelos dourados de sua mãe
E com as pequenas mãos
Abria espaço entre os fios
Precisava sair dali.
E quando chegaram os que dele cuidariam
O menino perguntou:
Onde está meu pai?
E aí, reuniram-se todos em volta de Simião
E contaram a história de seu pai, Martin Oliver
Falavam também que desde a sua partida
Nunca mais houve uma única noite no planeta
E amaldiçoados estavam todos daquele terra
E que esperavam, mas Martin Oliver
Nunca mais aparecera
E então, Simião Bozz,
Com descendência paterna dos faraós
E norueguesa, do lado materno
Elevou os olhos para onde
Possivelmente estaria o planeta
Com a sua eterna sombra,
Gritou com toda sua força
Para que todos pudessem ouvi-lo:
" Vou em busca de meu pai".
Do emaranhado cabelos dourados de sua mãe
E com as pequenas mãos
Abria espaço entre os fios
Precisava sair dali.
E quando chegaram os que dele cuidariam
O menino perguntou:
Onde está meu pai?
E aí, reuniram-se todos em volta de Simião
E contaram a história de seu pai, Martin Oliver
Falavam também que desde a sua partida
Nunca mais houve uma única noite no planeta
E amaldiçoados estavam todos daquele terra
E que esperavam, mas Martin Oliver
Nunca mais aparecera
E então, Simião Bozz,
Com descendência paterna dos faraós
E norueguesa, do lado materno
Elevou os olhos para onde
Possivelmente estaria o planeta
Com a sua eterna sombra,
Gritou com toda sua força
Para que todos pudessem ouvi-lo:
" Vou em busca de meu pai".
terça-feira, abril 24, 2007
Martin Oliver II
E Martin Oliver não apareceu
Nem na única noite noite do próximo ano
Nem no ano seguinte e nem nos outros anos
Ainda que Norma Bozz, sua noiva
Não cortasse mais os cabelos
E ficasse deitada em sua cama
Sempre esperando
Os profetas anunciaram a sua volta
As bruxas e feiticeiras, os magos
E todos os videntes
Diziam que Oliver iria voltar
Mas o que se via
Na única noite de todos os anos
Era apenas uma sombra ainda enorme
No planeta próximo, sozinha e parada
Os cavalos permaneciam calmos
E corriam livres nas colinas azuis
Norma Bozz definhara
O cabelo enorme servia-lhe como roupa
E escondia o seu rosto marcado pela dor
Nunca mais saíra de casa
E nem na única noite de todos os anos
Olhava para o céu.
Mas um dia, alguns homens,
sob o sol escaldante
Caminhavam pela terra quente
E encontraram uma estranha criatura
Trazia junto a seu corpo
Uma foto com o rosto de uma jovem mulher
Não falava, não chorava
Ardia em febre
Esses homens o levaram para Petrônio, O Curandeiro
E anunciou ele, olhando para aquela criatura,
Consumida pela febre:
"Daqui a três dias estarás curado"
E passaram três dias ...
E aquele homem estranho, antes febril
levantou-se e disse:
"Quando será a próxima noite?"
"Daqui a 325 dias", disseram.
E esse homem, mostrou um documento
Que trazia o seu nome:
Martin Oliver, descendente de faraó.
Saiu então em busca de sua amada, Norma Bozz
E quando a viu não encontrou mais o seu rosto
Nem seu belo corpo
Apenas viu um amontoado de cabelos
Que cheirava a rosas, um cheiro que conhecia
E ao lado de sua noiva, uma sombra escura
Com um brilho de lua
Carregava em seu colo um bebê
Envolto em uma manta feita por cabelos
Cabelos dourados
E com o mesmo cheiro de sua mãe.
Martin Oliver então se foi
E com ele a sombra
E com ele a noite
A única possível noite
Daquele planeta.
Nem na única noite noite do próximo ano
Nem no ano seguinte e nem nos outros anos
Ainda que Norma Bozz, sua noiva
Não cortasse mais os cabelos
E ficasse deitada em sua cama
Sempre esperando
Os profetas anunciaram a sua volta
As bruxas e feiticeiras, os magos
E todos os videntes
Diziam que Oliver iria voltar
Mas o que se via
Na única noite de todos os anos
Era apenas uma sombra ainda enorme
No planeta próximo, sozinha e parada
Os cavalos permaneciam calmos
E corriam livres nas colinas azuis
Norma Bozz definhara
O cabelo enorme servia-lhe como roupa
E escondia o seu rosto marcado pela dor
Nunca mais saíra de casa
E nem na única noite de todos os anos
Olhava para o céu.
Mas um dia, alguns homens,
sob o sol escaldante
Caminhavam pela terra quente
E encontraram uma estranha criatura
Trazia junto a seu corpo
Uma foto com o rosto de uma jovem mulher
Não falava, não chorava
Ardia em febre
Esses homens o levaram para Petrônio, O Curandeiro
E anunciou ele, olhando para aquela criatura,
Consumida pela febre:
"Daqui a três dias estarás curado"
E passaram três dias ...
E aquele homem estranho, antes febril
levantou-se e disse:
"Quando será a próxima noite?"
"Daqui a 325 dias", disseram.
E esse homem, mostrou um documento
Que trazia o seu nome:
Martin Oliver, descendente de faraó.
Saiu então em busca de sua amada, Norma Bozz
E quando a viu não encontrou mais o seu rosto
Nem seu belo corpo
Apenas viu um amontoado de cabelos
Que cheirava a rosas, um cheiro que conhecia
E ao lado de sua noiva, uma sombra escura
Com um brilho de lua
Carregava em seu colo um bebê
Envolto em uma manta feita por cabelos
Cabelos dourados
E com o mesmo cheiro de sua mãe.
Martin Oliver então se foi
E com ele a sombra
E com ele a noite
A única possível noite
Daquele planeta.
sábado, janeiro 13, 2007
Martin Oliver I
cavalos loucos correm nas colinas azuis
o planeta é amarelo cor de terra
não há lua aqui: um ou dois planetas mais próximos
que lançam bólitos continuamente
sempre é dia: só uma noite em 894 dias
e hoje era noite e os planetas estavam diferentes
e os cavalos enormes balançam suas crinas
e soltam gritos estrondosos audíveis a grandes distâncias
e Martin Oliver descendente dos faraós
aparece naquelas terras quentes e hoje escuras
sonha com possíveis caçadas
procura o que todos têm medo de encontrar
e sai nessa noite eternizada nos gritos dos cavalos
e não volta mais
bem que lhe avisaram os profetas e os velhos guerreiros
bem que sua amada Namma Bozz lhe suplicara que não fosse
contudo Martin Oliver não desistira
e montando um belo cavalo lhe dissera
com voz firme e rouca:
meu amor, não posso negar o que o destino me reserva
e foram essas suas palavras últimas
e hoje depois de 893 dias : a única noite depois de sua saída
alguém viu no céu, no planeta mais próximo que brilhava
a sombra de Martin Oliver
sobre um enorme cavalo
e atrás de si outra sombra negra gigante.
o planeta é amarelo cor de terra
não há lua aqui: um ou dois planetas mais próximos
que lançam bólitos continuamente
sempre é dia: só uma noite em 894 dias
e hoje era noite e os planetas estavam diferentes
e os cavalos enormes balançam suas crinas
e soltam gritos estrondosos audíveis a grandes distâncias
e Martin Oliver descendente dos faraós
aparece naquelas terras quentes e hoje escuras
sonha com possíveis caçadas
procura o que todos têm medo de encontrar
e sai nessa noite eternizada nos gritos dos cavalos
e não volta mais
bem que lhe avisaram os profetas e os velhos guerreiros
bem que sua amada Namma Bozz lhe suplicara que não fosse
contudo Martin Oliver não desistira
e montando um belo cavalo lhe dissera
com voz firme e rouca:
meu amor, não posso negar o que o destino me reserva
e foram essas suas palavras últimas
e hoje depois de 893 dias : a única noite depois de sua saída
alguém viu no céu, no planeta mais próximo que brilhava
a sombra de Martin Oliver
sobre um enorme cavalo
e atrás de si outra sombra negra gigante.
terça-feira, outubro 17, 2006
filhos na noite
irmãos na noite espalhados
na casa da velha mãe
hoje não é festa, não é aniversário
e surge a pergunta mortal
quem vai ficar com ela?
como se ela não pensasse
como se ela fosse a carga mais pesada
a mãe poderosa e infalível
mergulha nas suas sombras
nos seus medos e sofre
por que meus filhos estão aqui?
queria afagá-los e tirar deles todo sofrimento
queria carregá-los no colo
queria alimentá-los e enchê-los de alegria
os filhos como morcegos agitados
começam a se debater
quem vai ficar com ela, a mãe?
uns esbarram as asas frágeis nos outros
uns tentam perfurar o coração dos outros
uns se acham insubstituíveis, infalíveis
são líderes, poderosos, ou mais sábios
outros apenas ouvem calados o que se fala
e no fundo do corredor, em seu quarto,
a mãe adormece, preocupada com suas crias
o cansaço da vida faz doer o seu corpo
as suas pernas são quase inúteis
e no seu peito o coração metálico
marca os seus passos dia a dia
e nessa noite ela sonha
sonha com a família em volta da mesa
as conversas intermináveis,
os risos, as piadas, as brigas, a comilança
seus filhos não cresceram tanto
e o seu velho companheiro ainda esta lá
nessa noite, ela sonha
os morcegos, suas crias, levantam voo
cada um com a sua culpa, cada um com o seu pecado
imaginam que poderiam cantar uma canção
que embalasse o sono de sua mãe
essa mulher que tanto sugam, que tanto amam
que tanta admiração e espanto causa
que guarda tantos segredos
mas não sabem como
e choram
suas asas pesam
como se carregassem a humanidade inteira
como se já estivessem definitivamente
presos em suas cavernas mais escuras
na casa da velha mãe
hoje não é festa, não é aniversário
e surge a pergunta mortal
quem vai ficar com ela?
como se ela não pensasse
como se ela fosse a carga mais pesada
a mãe poderosa e infalível
mergulha nas suas sombras
nos seus medos e sofre
por que meus filhos estão aqui?
queria afagá-los e tirar deles todo sofrimento
queria carregá-los no colo
queria alimentá-los e enchê-los de alegria
os filhos como morcegos agitados
começam a se debater
quem vai ficar com ela, a mãe?
uns esbarram as asas frágeis nos outros
uns tentam perfurar o coração dos outros
uns se acham insubstituíveis, infalíveis
são líderes, poderosos, ou mais sábios
outros apenas ouvem calados o que se fala
e no fundo do corredor, em seu quarto,
a mãe adormece, preocupada com suas crias
o cansaço da vida faz doer o seu corpo
as suas pernas são quase inúteis
e no seu peito o coração metálico
marca os seus passos dia a dia
e nessa noite ela sonha
sonha com a família em volta da mesa
as conversas intermináveis,
os risos, as piadas, as brigas, a comilança
seus filhos não cresceram tanto
e o seu velho companheiro ainda esta lá
nessa noite, ela sonha
os morcegos, suas crias, levantam voo
cada um com a sua culpa, cada um com o seu pecado
imaginam que poderiam cantar uma canção
que embalasse o sono de sua mãe
essa mulher que tanto sugam, que tanto amam
que tanta admiração e espanto causa
que guarda tantos segredos
mas não sabem como
e choram
suas asas pesam
como se carregassem a humanidade inteira
como se já estivessem definitivamente
presos em suas cavernas mais escuras
quinta-feira, julho 13, 2006
maldiçao
choro a bola
que não entrou
o futebol
sagrado
amaldiçoou ainda mais
esse país
pra quê o espanto com o Marcola?
a bola da vez é essa
o pcc é quem dirige o país
que não entrou
o futebol
sagrado
amaldiçoou ainda mais
esse país
pra quê o espanto com o Marcola?
a bola da vez é essa
o pcc é quem dirige o país
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