segunda-feira, maio 19, 2008

Não podia ouvir mais esse blues. O nome do cantor não sabia, mas tinha uma voz meio rouca, meio doce. Entrava na minha alma, como se entra em um lugar conhecido. Desliguei o som e saí pela cidade à procura de um lugar que me fizesse esquecer , de algum modo, o peso do dia. Não vi nenhum rosto conhecido. Entrei em um boteco querendo beber algo pra me aquecer daquele frio intenso que insistia em entrar no meu corpo. Já era noite. E então vi alguns homens jogando sinuca em um êxtase quase animal. Foi como a cena de um filme e eles pegavam no taco como se pega uma mulher. E eles se mexiam, giravam o corpo , miravam o buraco , se contorciam feito serpentes. Ali, naquela hora, pude perceber um sentido para a vida. Um chegou perto de mim e me ofereceu um conhaque. E sentou-se à minha mesa e me olhou. Não falou nada e eu nem perguntei. Ficamos ali, talvez, minutos, horas, a noite toda. Bebemos vários conhaques, o corpo quente, o brilho nos olhos. E então ouvi aquele som, um blues cantado por uma voz rouca e doce. Acho que ele me beijou e disse alguma coisa sobre os perigos da noite.

domingo, março 09, 2008

Momento

O barulho do feijão cozinhando na panela
O ruído das pessoas lá fora
O ônibus que passa
Parece que a vida é normal

domingo, março 02, 2008

Os pássaros

Foram chegando um a um e pousaram em minha janela.
Como "Os Pássaros " de Hitchcock. E cada um encontrou o lugar certo.
Diferentemente, meus pensamentos chegaram confusos. E não encontraram o pouso desejado.
E eles ficaram pelo ar, viravam minha cabeça. O dia e a noite eram iguais. Não havia trégua. A guerra se dava ali. Ininterrupta, lancinante, cruel.
Finalmente, um dia eles se foram.
Foi quando olhei para aquele lago azul e manso de seus olhos.

quinta-feira, fevereiro 21, 2008

Eclipse

Hoje nasci há muitos anos
Talvez também houvesse um eclipse
Ou só meia lua no céu
Ontem olhei a lua
E vi a sombra da terra
E vi a sombra de mim

terça-feira, janeiro 22, 2008

Nessa hora

estudo para aquarela/ mulher deitada/ rafael godoy
Nessa hora a chuva cai.
Não tenho planos, não penso o que vou fazer amanhã, muito menos daqui a alguns meses. Meus filhos estão longe, a casa vazia.
Meus gatos me olham e parecem dizer: será que ela não vai fazer nada? E ao mesmo tempo gostam da minha presença, aninham-se aos meus pés.
Não consigo procurar amigos e nem parentes. Nem fazer qualquer coisa para comer. Quando me dá fome, tomo um café que está ali, ao meu alcance e mastigo um pão de forma velho com manteiga.
A geladeira , como disse alguém, um deserto frio e árido. Não tem bebida, nem vinho, nem cerveja. O cigarro me acompanha em meus devaneios. Gosto de chegar na área e olhar a chuva.
Busco compreender algumas coisas em mim, mas isso também passa. Não estou alegre, nem triste, nem nada. O telefone toca e é uma promessa de uma noite de amor. Não quero também. Tenho que me vestir, me arrumar, sair de casa ou preparar a casa para alguém. Então dou uma desculpa qualquer e fujo de qualquer compromisso. Gosto da casa assim, com a cama desfeita, mas aconchegante. Com algumas coisas fora do lugar, que fui eu que deixei. Os livros ali, assim jogados. Leio, mas não me prendo a nenhum. Um poema aqui, outro lá. Trechos de obras já lidas. Às vezes um livro inteiro em poucas horas. Mas é assim que gosto. Vejo tevê e procuro alguma coisa que preste. É difícil, mas consigo. Também, se quiser, mudo o canal a qualquer momento e brinco com as imagens. Ouço uma música que há muito não escuto e me surpreendo: como eu gostava daquela música! E acho uma merda. Durmo em alguns momentos e tenho sonhos estranhos, como ir ao fundo de uma piscina funda, muito funda, cheia de folhas e lama e conseguir voltar à superfície, ilesa. E quando volto à tevê, assisto a uma cena semelhante. Só que o cara não teve a mesma sorte. Afogou-se.
Tocam o interfone. Pode ser o gás, o correio, alguém pedindo alguma coisa, ou mesmo, um amigo. Mas não atendo. Não quero sair dessa inércia. Parece que a chuva parou. E eu parada aqui e os gatos me olham.

segunda-feira, janeiro 07, 2008

coisas da cidade

peixes loucos tentam subir o Arrudas
homens loucos se atiram no Arrudas
um ônibus cai no Arrudas

uma menina espera o pôr-do-sol
olha o Arrudas por um segundo
e vê refletido em suas águas sujas
um vermelho de sangue, de sol

cenas do cotidiano

quando uma lagartixa deslizou
nas pálidas paredes
e mostrou seu ventre transparente

quando um inseto noturno
desses que voam
entrou e mexeu suas pobres asas

percebeu o olhar parado
frio e mortal daquele ser esbranquiçado
e se debateu loucamente

por uma única vez olhou a lua
e viu nos olhos da mórbida lagarta
o mesmo brilho

foi devorado lentamente
inexoravelmente

Mais um ano (poema traduzido)

Nada tenho a lhe pedir,
Futuro, paraíso do pobre,
Ainda visto as mesmas coisas.

Continuo vendo o mesmo problema
Pela mesma luz,
Comendo a mesma pedra,

E as agulhas do relógio ainda espetam sem entrar.

quarta-feira, janeiro 02, 2008

1º de janeiro

A cidade neste dia é só minha.
Minha rua só eu que passo.
Nem ônibus passando,
nem crianças passando,
nem gente passando.

O ano passou.

Há um estranho silêncio que atormenta,
indefinível, mordaz, cruel.

segunda-feira, dezembro 03, 2007

Deixa estar...

O papa disse que os ateus são culpados por quase todas as atrocidades da humanidade.
Então, vou usar as palavras de Leminsk:
"Todo mundo crê em alguma coisa
Creio que vou tomar uma cerveja."

Agora quero ver o que ele vai falar...
Será que o papa toma cerveja?
Ora veja, parece que só vinho
E o da melhor qualidade...

domingo, novembro 18, 2007

Nunca

Você, amor, escondeu-se atrás da árvore
Aquela que subíamos quando crianças
Onde contávamos os nossos segredos
E chorávamos os nossos medos

Você disse que nunca cresceria
E como Peter Pan na Terra do Nunca
Nunca me deixava sem o seu pó mágico
Voávamos sobre as cidades
Entrávamos pelas janelas

Era sua fada e você meu encantador
Inventávamos o mundo
Para que ficássemos juntos
As suas mãos me ensinavam
As melhores brincadeiras

Juramos amor eterno
E gravamos dois nomes
em um coração amarelo
no galho mais alto

Agora te vejo, amor
Atrás da árvore
Atrás do que fomos
Atrás do que perdemos

segunda-feira, outubro 15, 2007

A receita

(esse poema é do Guga, feito para mim e pro Augusto, um dos momentos mágicos em minha vida)

"Amor", ele disse, "não ouvi".
Quando se coloca a noz moscada?"
Mas ele bateu na porta errada,
como no filme: Alice
Não Mora Mais Aqui.
(Ou então como em Alice
No País das Maravilhas,
ao qual ele não tem acesso.)
"Amor, eu te peço."
Ela não disse nada
nem revelou o segredo
- tesouro oculto na ilha -
fiel ao credo e à fé
de que a receita é hereditária
em sua família.
Passa de mãe para filha
e definitivamente não é
multitudinária.
"Perguntarei à sua mãe
no seu leito de morte."
"Vai", ela disse, "e vai
precisar de muita sorte",
porque minha mãe, ai,
pálida e rouca,
quase defunta,
ao ouvir sua pergunta:
- quando se coloca a noz moscada? -
levará sua mão a boca
e dará sua última risada."
Ago - 1993

sábado, outubro 13, 2007

Insônia

A noite inútil não terminava nunca
O sono vinha, mas os olhos não fechavam
Vi assombrações nos rodapés das paredes do quarto
Espremidas , cor de barro, querendo sair
Faziam sons estranhos e se moviam
Criaturas horrendas, desfiguradas

Se cresse, talvez rezasse
Mas nada saía de mim
Apenas um medo, um frio medonho
Uma imobilidade assustadora

Os seres pareciam conversar
Confabular, azucrinar
Sei que alguns saíram
E deram voltas em minha casa

Nem meus gatos apareceram
Esconderam-se em algum armário
Acovardaram-se

Mas, finalmente, chegou a manhã
Fechei os olhos
Dormi com a cortina aberta
O sol sobre mim.

terça-feira, outubro 09, 2007

Festa de Casamento

Muito uísque entrando no sangue
Muita nicotina ocupando o pulmão

A festa seria boa
Se o vômito guardado
Não fosse jogado
Na entrada principal
Se os beijos roubados
Não fossem vistos por todos
Se os delírios filosóficos
Não tivessem saído da cabeça
Se a preocupação com o mundo
Não tivesse sido exposta
de uma maneira tão leviana
Se as pessoas fossem interessantes
Mesmo sem o álcool

A festa teria sido boa
Se acreditasse que casamentos
São bons
Soubesse que as pessoas casadas ali
Eram as mais felizes

A festa teria sido boa
Se não tivesse jorrado na cara
Nas roupas, nos sapatos
A essência mais repugnante
no medo das pessoas
no espelho do que elas são

A festa teria sido boa
Aliás, a festa foi boa
Pena que o uísque
Era falsificado...

sexta-feira, julho 13, 2007

O velho da janela

Ontem não o vi mais na janela.
O velho que ficava na janela em frente à minha tinha morrido.
De uma forma estranha: bebeu duas taças de champanhe, ficou verde e se foi.
Não que eu tivesse alguma simpatia por aquele sujeito. Na verdade, me incomodava demais.
Sempre estava lá, nos momentos mais inoportunos. Vivia sem camisa e o seu porte avantajado dava a impressão de que era mais jovem do que seus oitenta e três anos. Sua voz, como percebeu o meu filho, era de um jovem.
Mexia com todos que subiam ou desciam a rampa, principalmente, com as idosas viúvas. Como um galanteador , dizia que estavam lindas e que queria namorá-las. Umas aceitavam as suas palavras e sorriam timidamente. Outras, o achavam incoveniente. Mas, de uma certa forma, ele preenchia as suas vidas.
Por incontáveis vezes, tive que fechar a cortina, pois com seus olhos indiscretos entrava em meu apartamento e me despia com o seu olhar de rapina, embora, muitas vezes, já estivesse nua.
Gostava quando abria a janela e ele, por algum motivo, tinha perdido a cena. Era como se eu tivesse vencido algum lance de jogo de cartas ou feito um gol de placa.
Nunca soube o seu nome, até ontem, quando a zeladora me contou sobre a sua morte:
- O Seu Manoel morreu, disse-me ela.
- Quem?
- O Seu Manoel do 407!
-Ah! Que pena! respondi-surpresa e escondendo o meu alívio!
Eu o detestava. Desde que o vi pela primeira vez.
Mas, ontem, senti a sua falta e, embora soubesse de sua morte, cerrei as cortinas, quando saí do banho, enrolada em uma toalha.
Por um momento, ao olhar a janela em frente, vislumbrei uma sombra e uma risada que conhecia bem.
Tratei de fechar bem a cortina e, quando saí de casa, ao atravessar a rampa, não olhei mais para cima. Mas tinha certeza de que ele estava lá. Ou o seu fantasma.

segunda-feira, maio 28, 2007

Non- Sens

Não me surpreende
que a alma tenha deixado o meu corpo.
Surpreende-me, sim
a insistência de permanecer existindo.

segunda-feira, maio 21, 2007

Martin Oliver- Final

Assim cresceu Simião Bozz
A barba cobria-lhe o rosto
Sua voz engrossara e seu corpo
tornou-se forte, coberto de pêlos


Não se lembrava do último dia
que estivera em sua casa
Vagas lembranças de seus tios,
primos, vizinhos e de seu tutor.

Fazia exatamente 893 dias que havia partido
Em busca de seu pai
E um dia, exausto, nas terras quentes
Simião dormiu e sonhou.

Ao abrir os olhos, só uma enorme escuridão
A noite que chegara
E pela primeira vez sentiu medo
Cheirou a escuridão, pegou a noite,
sentiu o vento frio no rosto
E chorou.

Chorou por todos aqueles dias
Que havia andado só.
Chorou por sua mãe, Norma Bozz
Que não conhecera
Chorou por ver a noite e o seu manto imenso
Então olhou para o céu e viu
um planeta brilhando com uma enorme sombra
O planeta em que seu pai estaria

E do céu caíram gotas fortes de água sobre o seu corpo
Era a chuva e a água tinha gosto de terra
Era clara e limpa
Ele brincou com a água
Deitou e rolou na terra
Lambuzou-se de lama
E deixou que a água limpasse o seu corpo
E a sua alma

E quando estava assim, sorrindo,
Pela primeira vez em 893 dias
E apenas uma noite, essa
Viu uma figura se aproximando
Montada em um cavalo enorme
De crinas longas

E Simião então viu
Viu pela primeira vez o seu pai
Martin Oliver
E sorriu, como o fez seu pai
E juntos caminharam rumo à sua terra
Rumo à sua gente

Ollharam ambos para o céu
E o planeta estava mais brilhante
Sem sombra alguma

E chegaram a seu lar
O povo na rua festejava
Bebendo chuva e olhando o céu

E os dois: pai e filho anunciaram em alto e bom som:
"Daqui em diante, para todos os dias haverá uma noite"

Sentaram-se na varanda e mais uma vez
Olharam o céu e para aquele planeta brilhante
E um cheiro de rosas inundou aquele momento.

sexta-feira, maio 18, 2007

Martin Oliver III

E assim nasceu Simião Bozz
Do emaranhado cabelos dourados de sua mãe
E com as pequenas mãos
Abria espaço entre os fios
Precisava sair dali.

E quando chegaram os que dele cuidariam
O menino perguntou:
Onde está meu pai?
E aí, reuniram-se todos em volta de Simião
E contaram a história de seu pai, Martin Oliver

Falavam também que desde a sua partida
Nunca mais houve uma única noite no planeta
E amaldiçoados estavam todos daquele terra
E que esperavam, mas Martin Oliver
Nunca mais aparecera

E então, Simião Bozz,
Com descendência paterna dos faraós
E norueguesa, do lado materno
Elevou os olhos para onde
Possivelmente estaria o planeta
Com a sua eterna sombra,
Gritou com toda sua força
Para que todos pudessem ouvi-lo:
" Vou em busca de meu pai".

terça-feira, abril 24, 2007

Martin Oliver II

E Martin Oliver não apareceu
Nem na única noite noite do próximo ano
Nem no ano seguinte e nem nos outros anos
Ainda que Norma Bozz, sua noiva
Não cortasse mais os cabelos
E ficasse deitada em sua cama
Sempre esperando

Os profetas anunciaram a sua volta
As bruxas e feiticeiras, os magos
E todos os videntes
Diziam que Oliver iria voltar

Mas o que se via
Na única noite de todos os anos
Era apenas uma sombra ainda enorme
No planeta próximo, sozinha e parada

Os cavalos permaneciam calmos
E corriam livres nas colinas azuis
Norma Bozz definhara
O cabelo enorme servia-lhe como roupa
E escondia o seu rosto marcado pela dor
Nunca mais saíra de casa
E nem na única noite de todos os anos
Olhava para o céu.

Mas um dia, alguns homens,
sob o sol escaldante
Caminhavam pela terra quente
E encontraram uma estranha criatura
Trazia junto a seu corpo
Uma foto com o rosto de uma jovem mulher

Não falava, não chorava
Ardia em febre
Esses homens o levaram para Petrônio, O Curandeiro
E anunciou ele, olhando para aquela criatura,
Consumida pela febre:
"Daqui a três dias estarás curado"

E passaram três dias ...
E aquele homem estranho, antes febril
levantou-se e disse:
"Quando será a próxima noite?"
"Daqui a 325 dias", disseram.

E esse homem, mostrou um documento
Que trazia o seu nome:
Martin Oliver, descendente de faraó.

Saiu então em busca de sua amada, Norma Bozz
E quando a viu não encontrou mais o seu rosto
Nem seu belo corpo
Apenas viu um amontoado de cabelos
Que cheirava a rosas, um cheiro que conhecia

E ao lado de sua noiva, uma sombra escura
Com um brilho de lua
Carregava em seu colo um bebê
Envolto em uma manta feita por cabelos
Cabelos dourados
E com o mesmo cheiro de sua mãe.

Martin Oliver então se foi
E com ele a sombra
E com ele a noite
A única possível noite
Daquele planeta.

sábado, janeiro 13, 2007

Martin Oliver I

cavalos loucos correm nas colinas azuis
o planeta é amarelo cor de terra
não há lua aqui: um ou dois planetas mais próximos
que lançam bólitos continuamente
sempre é dia: só uma noite em 894 dias
e hoje era noite e os planetas estavam diferentes
e os cavalos enormes balançam suas crinas
e soltam gritos estrondosos audíveis a grandes distâncias
e Martin Oliver descendente dos faraós
aparece naquelas terras quentes e hoje escuras
sonha com possíveis caçadas
procura o que todos têm medo de encontrar
e sai nessa noite eternizada nos gritos dos cavalos
e não volta mais
bem que lhe avisaram os profetas e os velhos guerreiros
bem que sua amada Namma Bozz lhe suplicara que não fosse
contudo Martin Oliver não desistira
e montando um belo cavalo lhe dissera
com voz firme e rouca:
meu amor, não posso negar o que o destino me reserva
e foram essas suas palavras últimas
e hoje depois de 893 dias : a única noite depois de sua saída
alguém viu no céu, no planeta mais próximo que brilhava
a sombra de Martin Oliver
sobre um enorme cavalo
e atrás de si outra sombra negra gigante.

terça-feira, outubro 17, 2006

filhos na noite

irmãos na noite espalhados
na casa da velha mãe
hoje não é festa, não é aniversário
e surge a pergunta mortal
quem vai ficar com ela?

como se ela não pensasse
como se ela fosse a carga mais pesada

a mãe poderosa e infalível
mergulha nas suas sombras
nos seus medos e sofre

por que meus filhos estão aqui?
queria afagá-los e tirar deles todo sofrimento
queria carregá-los no colo
queria alimentá-los e enchê-los de alegria

os filhos como morcegos agitados
começam a se debater
quem vai ficar com ela, a mãe?

uns esbarram as asas frágeis nos outros
uns tentam perfurar o coração dos outros
uns se acham insubstituíveis, infalíveis
são líderes, poderosos, ou mais sábios
outros apenas ouvem calados o que se fala

e no fundo do corredor, em seu quarto,
a mãe adormece, preocupada com suas crias

o cansaço da vida faz doer o seu corpo
as suas pernas são quase inúteis
e no seu peito o coração metálico
marca os seus passos dia a dia

e nessa noite ela sonha
sonha com a família em volta da mesa
as conversas intermináveis,
os risos, as piadas, as brigas, a comilança
seus filhos não cresceram tanto
e o seu velho companheiro ainda esta lá

nessa noite, ela sonha

os morcegos, suas crias, levantam voo
cada um com a sua culpa, cada um com o seu pecado

imaginam que poderiam cantar uma canção
que embalasse o sono de sua mãe
essa mulher que tanto sugam, que tanto amam
que tanta admiração e espanto causa
que guarda tantos segredos

mas não sabem como
e choram
suas asas pesam
como se carregassem a humanidade inteira
como se já estivessem definitivamente
presos em suas cavernas mais escuras

quinta-feira, julho 13, 2006

maldiçao

choro a bola
que não entrou
o futebol
sagrado
amaldiçoou ainda mais
esse país
pra quê o espanto com o Marcola?
a bola da vez é essa
o pcc é quem dirige o país

sexta-feira, maio 19, 2006

praga (ou poeminha tolo)

estudo para aquarela/ rafael godoy

tolo é você que pensa que não é
você, você mesmo
com essa cara de safado
com esse ar de desgraçado
com esse cheiro de mulher

você que tinha os olhos cor da lua
que mexia em meus cabelos
me olhava com medo
e me fazia cafuné

cuspirei no seu sorriso
pisarei no seu calo
esmagarei o seu abraço

por onde passar
há de causar horror
um cheiro podre
exalará ad infinitum

e assim quando vier
maldito mal cheiroso mal vestido
encontrará a casa fechada
e qual fênix a sua mulher

terça-feira, março 07, 2006

Estranheza

quando vim andando por minha rua
já não podia olhar a lua
os olhos acostumados ao cinza
viam outro planeta
era grená e enorme
pairava sobre os edifícios

ninguém olhou o céu neste momento
apenas um gato perdido na madrugada como eu
parecia encantado por esta presença
ia de um lado para outro
roçava as minhas pernas
miava baixo e seus olhos brilhavam

o planeta continuava lá
como se sempre lá estivesse

a rua
tornou-se um enorme tapete grená

o gato ficou parado ao meu lado
duas criaturas admirando um novo mundo
duas criaturas buscando um novo mundo

amanheceu
estava lá o céu o mesmo
estava lá a rua a mesma
o gato não estava

entrei em meu apartamento
e na janela o mesmo sol
fechei a cortina
e o quarto ficou grená

quarta-feira, novembro 30, 2005

PERO JAZ

(imagem google- carta de caminha- Cândido Portinari)
Pero Vaz, vazio de alma e rico de letras
Não entendia a nudez das índias
A beleza de nossas terras
Pensava ele ser o arauto do nosso esplendor
Dono da natureza escravo de seu rei

Pero Vaz Caminha caminhou
Por terras nunca dantes caminhadas
E naufragou no seu assombro
Mergulhou fundo no seu espanto

Mandou ao rei carta que dizia
Não compreender por que o sol
Estava na terra em pequenos pedaços de areia
Que o verde se encontrava também em minerais
Chamados esmeraldas
Que o vermelho do sangue
Derramado em seu caminho
Em lutas contra os imberbes primitivos
Concentrava-se em pedras chamadas rubis

Dizia ser as vergonhas das índias
Vergonhosas demais
E sem pêlos ou roupas para cobri-las
Cobriu-as de pegajosos excrementos
Despejados de seus rins
Como também o fizeram todos os lusitanos
Que na terra estavam, sendo jesuítas ou ateus
E fertilizaram nosso solo com suas impurezas
E violaram o sagrado mistério de nossas mulheres

E ali nascia um novo povo
Crianças mamelucas mestiças mulatas
Com cabeças pequenas demais para pensar
Com o cheiro acre-podre de seus pais

E crescendo viram a terra que não lhes pertencia
Que jamais seria genuinamente sua
E deixaram entrar nobres, bárbaros e plebeus
Varões, eunucos, negros,
Brancos, amarelos,garanhões

E quanto mais gente se formava
Mais a terra lhes era tirada
E desde mil e quinhentos anos
A terra continua lhes sendo roubada

E mesmo que clamem os profetas
Mesmo que chorem os da natureza amantes
Mesmo que sequem todos os rios
Mesmo que acabem todas as matas
Mesmo que não exista mais fauna
Mesmo que morra mais e mais gente
A terra nunca lhes pertencerá

E Pero Vaz de Caminha
Na sua ignorante sabedoria
Jaz em sua terra zombando daquela gente

E no ano da graça de dois mil e tantos
Acharam em seu túmulo
Esmeraldas, ouro e rubis
Encontraram em seu túmulo
Uma pergaminho de brilhantes
E uma incrição com tinta de pau-brasil
Com os dizeres amaldiçoados:
"Mesmo que se plante nesta terra
E aqui se plantando tudo dá
Mesmo que germinem todas as sementes
Mesmo que nasçam seres mais inteligentes
A esse povo não caberá nenhum quinhão"

E feliz jaz Pero Vaz em seu leito de morte
Coberto de todos os brilhantes
Sabendo que a sua praga vingará
E assim foi
E assim será

(poema republicado , feito a partir de uma aula de literatura dada por mim sobre a carta de Caminha aos alunos do ensino médio)

domingo, agosto 28, 2005

ELES

imagem do google
No dia em que estava acorrentada
aos pés da mesa de meu pai
Vieram todos eles
De uma só vez e sussuraram maldições

Vieram todos de uma só vez
Nenhuma pena tiveram
Vociferavam palavrões
Diziam coisas impróprias
Não ligaram para os meus olhos
Não ligaram para meu choro mudo

Acorrentada ainda estava
E dançavam à minha volta
Mostravam seus corpos nus e retorcidos
E quase ingênuos e quase maus
Deliravam em seu êxtase

Falavam línguas estranhas
E exibiam sua enormes línguas
Viscosas e vermelhas
Às vezes as tocavam em mim
E eram quentes
E eram úmidas

Ainda acorrentada
Ainda atormentada
Vi pouco a pouco
Todos eles indo em direção à porta
Que estava entreaberta

E fugiam delicadamente
Saíam em harmonia
E eu ali acorrentada
E eu ali apavorada

E quando meu pai chegou
Abriu o cadeado
E me soltou das correntes
Perguntou:
"Está com fome, menina?"

Nenhum som saiu de minha garganta

Ele pegou o chicote
E me deu algumas chibatadas
E me disse: "Faço isso para o seu bem"

Respondi docilmente:
Sim, meu pai
E fiquei olhando aquela porta
Esperando que eles voltassem

E de novo meu pai saiu
E de novo me acorrentou
Mas nunca mais eles vieram
Nunca mais ouvi as suas línguas

Estava finalmente amaldiçoada
A solidão para sempre
Apenas um som
A voz de meu pai
Que perguntava sempre:

"Está com fome, menina?"

E eu disse naquele dia:
"Sim, meu pai"
Ele guardou o chicote
E vi em seus lábios
Um ligeiro sorriso

( texto escrito há mais tempo)

sábado, agosto 20, 2005

Quando um cara disse...

Quando um cara disse que Bethoveen, ao sintetizar a Quinta Sinfonia em variações sonoras, mas irredutíveis e magnificamente significativas e eternas, tchan, tchan,tchan, tchan teve que antes criar milhões de outras variações até encontrar a perfeita, pude entender o que é ser realmente um artista, no campo literário, poeta. Talvez por isso, goste de hai-kais, mas hai-kais mesmo, em que Bashô, é o grande mestre. No Brasil, Leminsk, um dos melhores.
Em relação a outros tipos de poemas, pude entender, de certa forma, que o que vem dos toques mágicos dos dedos, da alma, também devem ser irredutíveis. Não tem que se pôr ou tirar alguma coisa. Tem que se sentir e dizer: É isso!!! É isso mesmo! Então, quando um cara disse sobre a Quintaa Sinfonia, me lembrei do Guga ( velho mestre) e da Luísa ( sua herdeira ) . Então pude dizer: Eis aí dois grandes poetas. E me senti um pouco feliz por conhecê-los e poder admirar os seus poemas. Que não se percam no tempo e na noite, que fiquem eternamente sobre nós, protegendo-nos um pouco da mesquinhez da vida.

terça-feira, maio 31, 2005

Beco da Lua


um dia senti que aquele era o lugar
um beco com casas velhas e malcheirosas
que abria o seu sorriso para o mundo
um beco cujo cheiro de café
misturava-se ao cheiro das moças
que acabavam de ser possuídas

o Beco da Lua
era o nome escrito com letras exóticas
em uma placa iluminada
diferente do próprio lugar

o beco do mundo
em que cabiam
Terezas e Raimundos
Martas e Aparecidas
Antônios e Josés

eram a alma do beco
a música a lua o quintal
a terra a lama a chuva
as paixões os temporais

às vezes quando a lua
insistia em iluminar
viam-se rostos cansados e aflitos
olhos opacos e vazios
fantasmas pálidos passivos

era o beco maldito
da miséria e do pecado
da luxúria e do abrigo
dos sonhos e dos perdidos
dos gatos e dos vadios
dos poetas e dos mendigos
dos bêbados e dos drogados
dos felizes e dos atirados
dos doutores e dos iletrados
dos caçadores e dos bandidos
das mulheres sem seus homens
dos sedentos de carinho

era o beco do mundo
que sorria timidamente
para o outro lado da cidade
em busca de outros delírios
em busca de novos fantasmas

(um dia tive um bar, era o Beco da Lua)

segunda-feira, maio 30, 2005

Ano Novo

Nenhum segundo a mais
espero
para explodir
os dias que estão em mim.