cavalos loucos correm nas colinas azuis
o planeta é amarelo cor de terra
não há lua aqui: um ou dois planetas mais próximos
que lançam bólitos continuamente
sempre é dia: só uma noite em 894 dias
e hoje era noite e os planetas estavam diferentes
e os cavalos enormes balançam suas crinas
e soltam gritos estrondosos audíveis a grandes distâncias
e Martin Oliver descendente dos faraós
aparece naquelas terras quentes e hoje escuras
sonha com possíveis caçadas
procura o que todos têm medo de encontrar
e sai nessa noite eternizada nos gritos dos cavalos
e não volta mais
bem que lhe avisaram os profetas e os velhos guerreiros
bem que sua amada Namma Bozz lhe suplicara que não fosse
contudo Martin Oliver não desistira
e montando um belo cavalo lhe dissera
com voz firme e rouca:
meu amor, não posso negar o que o destino me reserva
e foram essas suas palavras últimas
e hoje depois de 893 dias : a única noite depois de sua saída
alguém viu no céu, no planeta mais próximo que brilhava
a sombra de Martin Oliver
sobre um enorme cavalo
e atrás de si outra sombra negra gigante.
sábado, janeiro 13, 2007
terça-feira, outubro 17, 2006
filhos na noite
irmãos na noite espalhados
na casa da velha mãe
hoje não é festa, não é aniversário
e surge a pergunta mortal
quem vai ficar com ela?
como se ela não pensasse
como se ela fosse a carga mais pesada
a mãe poderosa e infalível
mergulha nas suas sombras
nos seus medos e sofre
por que meus filhos estão aqui?
queria afagá-los e tirar deles todo sofrimento
queria carregá-los no colo
queria alimentá-los e enchê-los de alegria
os filhos como morcegos agitados
começam a se debater
quem vai ficar com ela, a mãe?
uns esbarram as asas frágeis nos outros
uns tentam perfurar o coração dos outros
uns se acham insubstituíveis, infalíveis
são líderes, poderosos, ou mais sábios
outros apenas ouvem calados o que se fala
e no fundo do corredor, em seu quarto,
a mãe adormece, preocupada com suas crias
o cansaço da vida faz doer o seu corpo
as suas pernas são quase inúteis
e no seu peito o coração metálico
marca os seus passos dia a dia
e nessa noite ela sonha
sonha com a família em volta da mesa
as conversas intermináveis,
os risos, as piadas, as brigas, a comilança
seus filhos não cresceram tanto
e o seu velho companheiro ainda esta lá
nessa noite, ela sonha
os morcegos, suas crias, levantam voo
cada um com a sua culpa, cada um com o seu pecado
imaginam que poderiam cantar uma canção
que embalasse o sono de sua mãe
essa mulher que tanto sugam, que tanto amam
que tanta admiração e espanto causa
que guarda tantos segredos
mas não sabem como
e choram
suas asas pesam
como se carregassem a humanidade inteira
como se já estivessem definitivamente
presos em suas cavernas mais escuras
na casa da velha mãe
hoje não é festa, não é aniversário
e surge a pergunta mortal
quem vai ficar com ela?
como se ela não pensasse
como se ela fosse a carga mais pesada
a mãe poderosa e infalível
mergulha nas suas sombras
nos seus medos e sofre
por que meus filhos estão aqui?
queria afagá-los e tirar deles todo sofrimento
queria carregá-los no colo
queria alimentá-los e enchê-los de alegria
os filhos como morcegos agitados
começam a se debater
quem vai ficar com ela, a mãe?
uns esbarram as asas frágeis nos outros
uns tentam perfurar o coração dos outros
uns se acham insubstituíveis, infalíveis
são líderes, poderosos, ou mais sábios
outros apenas ouvem calados o que se fala
e no fundo do corredor, em seu quarto,
a mãe adormece, preocupada com suas crias
o cansaço da vida faz doer o seu corpo
as suas pernas são quase inúteis
e no seu peito o coração metálico
marca os seus passos dia a dia
e nessa noite ela sonha
sonha com a família em volta da mesa
as conversas intermináveis,
os risos, as piadas, as brigas, a comilança
seus filhos não cresceram tanto
e o seu velho companheiro ainda esta lá
nessa noite, ela sonha
os morcegos, suas crias, levantam voo
cada um com a sua culpa, cada um com o seu pecado
imaginam que poderiam cantar uma canção
que embalasse o sono de sua mãe
essa mulher que tanto sugam, que tanto amam
que tanta admiração e espanto causa
que guarda tantos segredos
mas não sabem como
e choram
suas asas pesam
como se carregassem a humanidade inteira
como se já estivessem definitivamente
presos em suas cavernas mais escuras
quinta-feira, julho 13, 2006
maldiçao
choro a bola
que não entrou
o futebol
sagrado
amaldiçoou ainda mais
esse país
pra quê o espanto com o Marcola?
a bola da vez é essa
o pcc é quem dirige o país
que não entrou
o futebol
sagrado
amaldiçoou ainda mais
esse país
pra quê o espanto com o Marcola?
a bola da vez é essa
o pcc é quem dirige o país
sexta-feira, maio 19, 2006
praga (ou poeminha tolo)
estudo para aquarela/ rafael godoytolo é você que pensa que não é
você, você mesmo
com essa cara de safado
com esse ar de desgraçado
com esse cheiro de mulher
você que tinha os olhos cor da lua
que mexia em meus cabelos
me olhava com medo
e me fazia cafuné
cuspirei no seu sorriso
pisarei no seu calo
esmagarei o seu abraço
por onde passar
há de causar horror
um cheiro podre
exalará ad infinitum
e assim quando vier
maldito mal cheiroso mal vestido
encontrará a casa fechada
e qual fênix a sua mulher
terça-feira, março 07, 2006
Estranheza
quando vim andando por minha rua
já não podia olhar a lua
os olhos acostumados ao cinza
viam outro planeta
era grená e enorme
pairava sobre os edifícios
ninguém olhou o céu neste momento
apenas um gato perdido na madrugada como eu
parecia encantado por esta presença
ia de um lado para outro
roçava as minhas pernas
miava baixo e seus olhos brilhavam
o planeta continuava lá
como se sempre lá estivesse
a rua
tornou-se um enorme tapete grená
o gato ficou parado ao meu lado
duas criaturas admirando um novo mundo
duas criaturas buscando um novo mundo
amanheceu
estava lá o céu o mesmo
estava lá a rua a mesma
o gato não estava
entrei em meu apartamento
e na janela o mesmo sol
fechei a cortina
e o quarto ficou grená
já não podia olhar a lua
os olhos acostumados ao cinza
viam outro planeta
era grená e enorme
pairava sobre os edifícios
ninguém olhou o céu neste momento
apenas um gato perdido na madrugada como eu
parecia encantado por esta presença
ia de um lado para outro
roçava as minhas pernas
miava baixo e seus olhos brilhavam
o planeta continuava lá
como se sempre lá estivesse
a rua
tornou-se um enorme tapete grená
o gato ficou parado ao meu lado
duas criaturas admirando um novo mundo
duas criaturas buscando um novo mundo
amanheceu
estava lá o céu o mesmo
estava lá a rua a mesma
o gato não estava
entrei em meu apartamento
e na janela o mesmo sol
fechei a cortina
e o quarto ficou grená
quarta-feira, novembro 30, 2005
PERO JAZ
(imagem google- carta de caminha- Cândido Portinari)Pero Vaz, vazio de alma e rico de letras
Não entendia a nudez das índias
A beleza de nossas terras
Pensava ele ser o arauto do nosso esplendor
Dono da natureza escravo de seu rei
Pero Vaz Caminha caminhou
Por terras nunca dantes caminhadas
E naufragou no seu assombro
Mergulhou fundo no seu espanto
Mandou ao rei carta que dizia
Não compreender por que o sol
Estava na terra em pequenos pedaços de areia
Que o verde se encontrava também em minerais
Chamados esmeraldas
Que o vermelho do sangue
Derramado em seu caminho
Em lutas contra os imberbes primitivos
Concentrava-se em pedras chamadas rubis
Dizia ser as vergonhas das índias
Vergonhosas demais
E sem pêlos ou roupas para cobri-las
Cobriu-as de pegajosos excrementos
Despejados de seus rins
Como também o fizeram todos os lusitanos
Que na terra estavam, sendo jesuítas ou ateus
E fertilizaram nosso solo com suas impurezas
E violaram o sagrado mistério de nossas mulheres
E ali nascia um novo povo
Crianças mamelucas mestiças mulatas
Com cabeças pequenas demais para pensar
Com o cheiro acre-podre de seus pais
E crescendo viram a terra que não lhes pertencia
Que jamais seria genuinamente sua
E deixaram entrar nobres, bárbaros e plebeus
Varões, eunucos, negros,
Brancos, amarelos,garanhões
E quanto mais gente se formava
Mais a terra lhes era tirada
E desde mil e quinhentos anos
A terra continua lhes sendo roubada
E mesmo que clamem os profetas
Mesmo que chorem os da natureza amantes
Mesmo que sequem todos os rios
Mesmo que acabem todas as matas
Mesmo que não exista mais fauna
Mesmo que morra mais e mais gente
A terra nunca lhes pertencerá
E Pero Vaz de Caminha
Na sua ignorante sabedoria
Jaz em sua terra zombando daquela gente
E no ano da graça de dois mil e tantos
Acharam em seu túmulo
Esmeraldas, ouro e rubis
Encontraram em seu túmulo
Uma pergaminho de brilhantes
E uma incrição com tinta de pau-brasil
Com os dizeres amaldiçoados:
"Mesmo que se plante nesta terra
E aqui se plantando tudo dá
Mesmo que germinem todas as sementes
Mesmo que nasçam seres mais inteligentes
A esse povo não caberá nenhum quinhão"
E feliz jaz Pero Vaz em seu leito de morte
Coberto de todos os brilhantes
Sabendo que a sua praga vingará
E assim foi
E assim será
(poema republicado , feito a partir de uma aula de literatura dada por mim sobre a carta de Caminha aos alunos do ensino médio)
domingo, agosto 28, 2005
ELES
imagem do google No dia em que estava acorrentada
aos pés da mesa de meu pai
Vieram todos eles
De uma só vez e sussuraram maldições
Vieram todos de uma só vez
Nenhuma pena tiveram
Vociferavam palavrões
Diziam coisas impróprias
Não ligaram para os meus olhos
Não ligaram para meu choro mudo
Acorrentada ainda estava
E dançavam à minha volta
Mostravam seus corpos nus e retorcidos
E quase ingênuos e quase maus
Deliravam em seu êxtase
Falavam línguas estranhas
E exibiam sua enormes línguas
Viscosas e vermelhas
Às vezes as tocavam em mim
E eram quentes
E eram úmidas
Ainda acorrentada
Ainda atormentada
Vi pouco a pouco
Todos eles indo em direção à porta
Que estava entreaberta
E fugiam delicadamente
Saíam em harmonia
E eu ali acorrentada
E eu ali apavorada
E quando meu pai chegou
Abriu o cadeado
E me soltou das correntes
Perguntou:
"Está com fome, menina?"
aos pés da mesa de meu pai
Vieram todos eles
De uma só vez e sussuraram maldições
Vieram todos de uma só vez
Nenhuma pena tiveram
Vociferavam palavrões
Diziam coisas impróprias
Não ligaram para os meus olhos
Não ligaram para meu choro mudo
Acorrentada ainda estava
E dançavam à minha volta
Mostravam seus corpos nus e retorcidos
E quase ingênuos e quase maus
Deliravam em seu êxtase
Falavam línguas estranhas
E exibiam sua enormes línguas
Viscosas e vermelhas
Às vezes as tocavam em mim
E eram quentes
E eram úmidas
Ainda acorrentada
Ainda atormentada
Vi pouco a pouco
Todos eles indo em direção à porta
Que estava entreaberta
E fugiam delicadamente
Saíam em harmonia
E eu ali acorrentada
E eu ali apavorada
E quando meu pai chegou
Abriu o cadeado
E me soltou das correntes
Perguntou:
"Está com fome, menina?"
Nenhum som saiu de minha garganta
Ele pegou o chicote
E me deu algumas chibatadas
E me disse: "Faço isso para o seu bem"
Respondi docilmente:
Sim, meu pai
E fiquei olhando aquela porta
Esperando que eles voltassem
E de novo meu pai saiu
E de novo me acorrentou
Mas nunca mais eles vieram
Nunca mais ouvi as suas línguas
Estava finalmente amaldiçoada
A solidão para sempre
Apenas um som
A voz de meu pai
E me deu algumas chibatadas
E me disse: "Faço isso para o seu bem"
Respondi docilmente:
Sim, meu pai
E fiquei olhando aquela porta
Esperando que eles voltassem
E de novo meu pai saiu
E de novo me acorrentou
Mas nunca mais eles vieram
Nunca mais ouvi as suas línguas
Estava finalmente amaldiçoada
A solidão para sempre
Apenas um som
A voz de meu pai
Que perguntava sempre:
"Está com fome, menina?"
E eu disse naquele dia:
"Sim, meu pai"
"Está com fome, menina?"
E eu disse naquele dia:
"Sim, meu pai"
Ele guardou o chicote
E vi em seus lábios
Um ligeiro sorriso
E vi em seus lábios
Um ligeiro sorriso
( texto escrito há mais tempo)
sábado, agosto 20, 2005
Quando um cara disse...
Quando um cara disse que Bethoveen, ao sintetizar a Quinta Sinfonia em variações sonoras, mas irredutíveis e magnificamente significativas e eternas, tchan, tchan,tchan, tchan teve que antes criar milhões de outras variações até encontrar a perfeita, pude entender o que é ser realmente um artista, no campo literário, poeta. Talvez por isso, goste de hai-kais, mas hai-kais mesmo, em que Bashô, é o grande mestre. No Brasil, Leminsk, um dos melhores.
Em relação a outros tipos de poemas, pude entender, de certa forma, que o que vem dos toques mágicos dos dedos, da alma, também devem ser irredutíveis. Não tem que se pôr ou tirar alguma coisa. Tem que se sentir e dizer: É isso!!! É isso mesmo! Então, quando um cara disse sobre a Quintaa Sinfonia, me lembrei do Guga ( velho mestre) e da Luísa ( sua herdeira ) . Então pude dizer: Eis aí dois grandes poetas. E me senti um pouco feliz por conhecê-los e poder admirar os seus poemas. Que não se percam no tempo e na noite, que fiquem eternamente sobre nós, protegendo-nos um pouco da mesquinhez da vida.
Em relação a outros tipos de poemas, pude entender, de certa forma, que o que vem dos toques mágicos dos dedos, da alma, também devem ser irredutíveis. Não tem que se pôr ou tirar alguma coisa. Tem que se sentir e dizer: É isso!!! É isso mesmo! Então, quando um cara disse sobre a Quintaa Sinfonia, me lembrei do Guga ( velho mestre) e da Luísa ( sua herdeira ) . Então pude dizer: Eis aí dois grandes poetas. E me senti um pouco feliz por conhecê-los e poder admirar os seus poemas. Que não se percam no tempo e na noite, que fiquem eternamente sobre nós, protegendo-nos um pouco da mesquinhez da vida.
domingo, junho 19, 2005
terça-feira, maio 31, 2005
Beco da Lua

um dia senti que aquele era o lugar
um beco com casas velhas e malcheirosas
que abria o seu sorriso para o mundo
um beco cujo cheiro de café
misturava-se ao cheiro das moças
que acabavam de ser possuídas
o Beco da Lua
era o nome escrito com letras exóticas
em uma placa iluminada
diferente do próprio lugar
o beco do mundo
em que cabiam
Terezas e Raimundos
Martas e Aparecidas
Antônios e Josés
eram a alma do beco
a música a lua o quintal
a terra a lama a chuva
as paixões os temporais
às vezes quando a lua
insistia em iluminar
viam-se rostos cansados e aflitos
olhos opacos e vazios
fantasmas pálidos passivos
era o beco maldito
da miséria e do pecado
da luxúria e do abrigo
dos sonhos e dos perdidos
dos gatos e dos vadios
dos poetas e dos mendigos
dos bêbados e dos drogados
dos felizes e dos atirados
dos doutores e dos iletrados
dos caçadores e dos bandidos
das mulheres sem seus homens
dos sedentos de carinho
era o beco do mundo
que sorria timidamente
para o outro lado da cidade
em busca de outros delírios
em busca de novos fantasmas
(um dia tive um bar, era o Beco da Lua)
segunda-feira, maio 30, 2005
último acalanto

a morte antes distante
conversa comigo como uma velha tia
me conforta nas noites de frio
como se fosse chama no calor
me faz arder suar
transforma o meu dia
incendeia as ruas em que passo
mesmo o sol forte
encobre-lhe a fria neblina
em diferentes sussurros
delírios, sonhos, poesia
entremeia-lhes sempre a morte
titubeio em cada palavra
com medo de que ela goste
e notando que não foge
chamo por seu nome
quando por um instante ela adormece
respiro livre mas a acordo
e a faço levantar
e lhe dou a foice
como se fosse a única companheira
como se fosse meu último acalanto
(poema antigo)
conversa comigo como uma velha tia
me conforta nas noites de frio
como se fosse chama no calor
me faz arder suar
transforma o meu dia
incendeia as ruas em que passo
mesmo o sol forte
encobre-lhe a fria neblina
em diferentes sussurros
delírios, sonhos, poesia
entremeia-lhes sempre a morte
titubeio em cada palavra
com medo de que ela goste
e notando que não foge
chamo por seu nome
quando por um instante ela adormece
respiro livre mas a acordo
e a faço levantar
e lhe dou a foice
como se fosse a única companheira
como se fosse meu último acalanto
(poema antigo)
Voz
Ecoa em mim
a voz do meu coração
estranha voz
aguda e rouca
úmida e serena
voz de sonhar e gritar
todas as palavras
tudo que esteve contido
nas cavernas mais distantes
e silenciosas de mim.
a voz do meu coração
estranha voz
aguda e rouca
úmida e serena
voz de sonhar e gritar
todas as palavras
tudo que esteve contido
nas cavernas mais distantes
e silenciosas de mim.
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