sábado, agosto 20, 2005

Quando um cara disse...

Quando um cara disse que Bethoveen, ao sintetizar a Quinta Sinfonia em variações sonoras, mas irredutíveis e magnificamente significativas e eternas, tchan, tchan,tchan, tchan teve que antes criar milhões de outras variações até encontrar a perfeita, pude entender o que é ser realmente um artista, no campo literário, poeta. Talvez por isso, goste de hai-kais, mas hai-kais mesmo, em que Bashô, é o grande mestre. No Brasil, Leminsk, um dos melhores.
Em relação a outros tipos de poemas, pude entender, de certa forma, que o que vem dos toques mágicos dos dedos, da alma, também devem ser irredutíveis. Não tem que se pôr ou tirar alguma coisa. Tem que se sentir e dizer: É isso!!! É isso mesmo! Então, quando um cara disse sobre a Quintaa Sinfonia, me lembrei do Guga ( velho mestre) e da Luísa ( sua herdeira ) . Então pude dizer: Eis aí dois grandes poetas. E me senti um pouco feliz por conhecê-los e poder admirar os seus poemas. Que não se percam no tempo e na noite, que fiquem eternamente sobre nós, protegendo-nos um pouco da mesquinhez da vida.

terça-feira, maio 31, 2005

Beco da Lua


um dia senti que aquele era o lugar
um beco com casas velhas e malcheirosas
que abria o seu sorriso para o mundo
um beco cujo cheiro de café
misturava-se ao cheiro das moças
que acabavam de ser possuídas

o Beco da Lua
era o nome escrito com letras exóticas
em uma placa iluminada
diferente do próprio lugar

o beco do mundo
em que cabiam
Terezas e Raimundos
Martas e Aparecidas
Antônios e Josés

eram a alma do beco
a música a lua o quintal
a terra a lama a chuva
as paixões os temporais

às vezes quando a lua
insistia em iluminar
viam-se rostos cansados e aflitos
olhos opacos e vazios
fantasmas pálidos passivos

era o beco maldito
da miséria e do pecado
da luxúria e do abrigo
dos sonhos e dos perdidos
dos gatos e dos vadios
dos poetas e dos mendigos
dos bêbados e dos drogados
dos felizes e dos atirados
dos doutores e dos iletrados
dos caçadores e dos bandidos
das mulheres sem seus homens
dos sedentos de carinho

era o beco do mundo
que sorria timidamente
para o outro lado da cidade
em busca de outros delírios
em busca de novos fantasmas

(um dia tive um bar, era o Beco da Lua)

segunda-feira, maio 30, 2005

Ano Novo

Nenhum segundo a mais
espero
para explodir
os dias que estão em mim.

último acalanto



a morte antes distante
conversa comigo como uma velha tia
me conforta nas noites de frio
como se fosse chama no calor
me faz arder suar
transforma o meu dia
incendeia as ruas em que passo

mesmo o sol forte
encobre-lhe a fria neblina
em diferentes sussurros
delírios, sonhos, poesia
entremeia-lhes sempre a morte

titubeio em cada palavra
com medo de que ela goste
e notando que não foge
chamo por seu nome

quando por um instante ela adormece
respiro livre mas a acordo
e a faço levantar
e lhe dou a foice

como se fosse a única companheira
como se fosse meu último acalanto

(poema antigo)

Voz

Ecoa em mim
a voz do meu coração
estranha voz
aguda e rouca
úmida e serena
voz de sonhar e gritar
todas as palavras
tudo que esteve contido
nas cavernas mais distantes
e silenciosas de mim.